"Quem presta cuidados tem sobrecargas enormes"

A propósito do Dia do Cuidador, a presidente Associação Portuguesa de Psicogerontologia falou do possível estatuto que pode ser criado para quem cuida e das reservas que tem em relação ao tema.

Maria João Quintela acha que devem ser criados perfis de cuidadores e que seja tratado no plural, lembrando que quem é cuidado também tem direitos.

Está à espera das novidades que o estatuto do cuidador informal possa trazer?

Espero que as novidades possam ajudar a esclarecer o que se entende por cuidador. Tenho muita dificuldade em definir o termo cuidador e encontrar um estatuto do cuidador. Em primeiro lugar e acima de tudo, porque são maioritariamente cuidadoras e, portanto, o estatuto no masculino tem de ficar muito bem definido. Era muito importante encontrar o perfil ou os perfis de quem cuida e sobretudo não encontrar um perfil de cuidador apenas para os mais velhos.

Um estatuto simplesmente para quem cuida?

Ninguém pergunta aos pais quem é o cuidador do filho, mas pode perguntar quem é cuidador do pai. Também tenho muitas reservas porque a definição transforma num estereótipo alguém que cuida em múltiplas circunstâncias, em diversos ambientes, com diversos estatutos, com diferentes recursos, com diferentes enquadramentos profissionais. Temos cuidadores familiares, que são família e não percebo porque não se hão de chamar família. Há que esclarecer que tipos de cuidados é que são prestados. Também temos que reconhecer que o principal cuidador somos nós, cuidadores de nós próprios. O importante é reconhecer que quem presta cuidados tem sobrecargas enormes pessoais, físicas, morais, psicológicas, financeiras, e, portanto, é necessário perceber quais são as necessidades.

Uma das maiores necessidades é ter uma rede de apoio?

Neste momento, a maior dificuldade para quem cuida, muitas vezes é saber onde se dirigir, onde se pode apoiar. Neste aspeto a rede de instituições de solidariedade funciona de forma muito próxima, o que é indispensável. Interessa que haja serviços próximos dos cidadãos, na comunidade, o mais carinhosos possível, o mais defensores do respeito pela individualidade, pela privacidade, pela integridade. As instituições de solidariedade, por exemplo, estão nos sítios onde não chegam os grandes hospitais, ajudam as famílias e podem ajudar muito na formação às famílias, na capacitação de cuidar. Chamem-lhe cuidador, cuidadoras, cuidadores no plural - eu prefiro -, porque de facto não há um perfil do cuidador, há perfis de cuidadores, e é bom que haja, porque isso é que se adapta. Mesmo que emigre eu posso cuidar, posso sempre encontrar uma forma de cuidar.

Fala-se muito dos cuidadores, mas quem é cuidado também tem direitos.

Isto é tudo muito mais amplo, é reconhecer o valor de quem cuida, as necessidades de quem cuida, encontrar formas do Estado e da sociedade reconhecerem esse valor, mas sem se esquecerem de reconhecer o valor de quem é cuidado, que tem o direito de manter a sua dignidade, os seus bens e as vontades. É preciso refletir sobre isto, não é fácil, mas é preciso.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).