Quando o nosso maior romance é uma amizade

É o seu neto?", perguntam às vezes as pessoas a Austin quando ela sai comigo. Eu adoro ver a sua vaidade a vir ao de cima, a maneira como ela inclina serenamente a sua pequena cabeça branca e aprimora o seu sotaque do Sul para as corrigir: "Não, querida. Ele é meu amigo."

Neste ponto, as pessoas normalmente esboçam um sorriso forçado e afastam-se, talvez com a preocupação de que haja mais do que uma amizade entre a velha senhora e o homem mais jovem sentados no bar ou a passear pelo supermercado, rindo como adolescentes.

Por que razão nos rimos, não sei dizer. Muitas vezes, a nossa alegria parece alimentada por algum prazer intrínseco em estarmos juntos. A amizade, como o seu primo mais brilhante, o amor, pode ser altamente química e, como o amor, pode acontecer num instante.

Quando eu conheci Austin, estava com quarenta e poucos anos e não andava à procura de amigos. Tinha vindo sozinho para esta pequena cidade do Oregon para terminar um livro. Assim, quando uma estranha de olhos azuis e extremamente magra me bateu à porta, apresentando-se como a vizinha da casa em frente, perguntando-me se eu gostaria de ir ver o seu jardim e talvez beber um gin tónico, declinei educadamente.

Porém, ao vê-la afastar-se, com os sapatos de veludo e a blusa enrugada, senti uma estranha angústia, uma tristeza a invadir-me lentamente que, suponho, poderia ser descrita como solidão. De repente, dei comigo a correr pela estrada de terra para lhe dizer que estava arrependido, que ela me tinha apanhado no meio do trabalho, mas que sim, gostaria de ver o seu jardim.

"Mas não aceita o gin tónico?", perguntou ela.

"Claro, isso também", respondi, corando. E antes que eu pudesse sugerir uma visita na semana seguinte, ela disse: "Então fico à sua espera dentro de algumas horas. Digamos, às 4.30?"

Eu tinha de admirar o seu sentido de tempo. A próxima semana é para alguém que se pode dar ao luxo de adiar as coisas. Austin, com os seus 80 anos, não sentia poder dar-se a esse luxo.

"Eu gostei da sua cara", admitiu ela mais tarde, dizendo-me que me tinha visto junto à caixa de correio.
Enquanto ela servia o gin, confessei-lhe que também a tinha visto na caixa de correio e que também tinha gostado do rosto dela.

"Eu gostava de ter melhores sobrancelhas", disse ela. "Elas costumavam ser fabulosas."

O jardim dela era fabuloso, parecia algo que tinha sido sonhado e não meramente plantado, gótico ao estilo do Chapeleiro Louco, e onde prevalecia uma beleza sem lei.

Ao anoitecer chegou o cervo, mordiscando as flores da macieira. Nós tínhamos estado horas à conversa, um pouco tontos, e naquela altura estávamos na cozinha a preparar o jantar. Austin era uma psicóloga reformada, que tinha viajado muitíssimo, falava um espanhol terrível e um francês ainda pior, e agora era pintora. Ela tinha tido dois maridos, o segundo dos quais morreu nesta casa, numa pequena cama na sala de estar.

"Eu vou fazer a mesma coisa", disse-me Austin. "Esta divisão é a que tem a melhor luz."

Virámo-nos para as janelas, mas a luz já tinha desaparecido. Parecia auspicioso que pudéssemos ficar tranquilamente juntos tão cedo e sem esforço.

"Então, você fugiu de casa?", perguntou ela a determinada altura.

Desde o início que houve algo na nossa interação que me fez lembrar as amizades de infância, em que nenhuma pergunta era interdita. Sobre religião, ela afirmou ser ateia. Eu admiti ser assombrado pelos fantasmas de uma educação católica. Ela disse que as suas irmãs acreditavam no inferno e se preocupavam com a sua alma. Austin, porém, parecia não ter medo de nada, menos ainda da morte. Eu disse-lhe que ainda tinha medo do escuro.

"Viver sozinhos pode tornar-nos peculiares", afirmou.

Eu ri-me, mas mudei de assunto, dizendo-lhe que gostaria de ver os seus quadros.

Mais tarde, atravessando a estrada de volta para a minha casa subalugada na internet, perguntei-me o que é que eu estava a fazer. Recordei a mim mesmo qual era o meu plano: esconder-me, manter-me no sonho do livro. Eu não estava aqui para socializar. Depois de anos de trabalho num único projeto, eu estava na reta final. Podia terminar o projeto em poucos meses e voltar para casa.

Além disso, se quisesse um amigo durante o meu retiro, iria procurar alguém da minha idade para beber umas cervejas. Gins tónicos com uma senhora idosa no seu jardim? Isso não estava no plano.
Mas lá estava eu no fim de semana seguinte a jantar com ela e, depois, passou a ser todos os fins de semana. Às vezes íamos a um restaurante ou caminhávamos nas montanhas. Os amigos mais velhos de Austin pareciam confusos.

"Ele está a ajudar-te com o computador?", perguntou um.

Quando eu comecei a falar sobre Austin aos meus amigos de fora da cidade, eles presumiram que eu tinha encontrado um novo namorado.

"Austin é uma mulher", respondia. "Além disso, ela tem 80 anos. É apenas uma amiga."

Mesmo quando eles respondiam "isso é fixe", eu quase que podia ouvi-los pensar "não deve haver muito por onde escolher no Oregon".

O que era desconcertante, suponho, não era que duas pessoas de idades tão diferentes se tivessem tornado amigas, mas que nos tivéssemos tornado basicamente os melhores amigos. Outros consideravam a nossa devoção como estranha ou pitoresca, como uma dessas improváveis amizades animais entre um macaco e um pombo, talvez.

Claro que, quando eu nos vislumbrava num espelho, via como éramos peculiares. Aquela velhinha de cabelos brancos com as suas joias enormes e de cores brilhantes sentada com o homem de cabelo escuro, camisolas monótonas de tom de terra e óculos ao estilo de Clark Kent. Talvez eu parecesse um gigolô nerd ou um secretário atento daquela mulher elegante. Não importava que não fizéssemos sentido vistos de fora. Olhávamos principalmente um para o outro.

Uma noite, Austin falou sobre a sua vida como uma esposa de meia-idade na academia. "Eu perdi completamente a loucura dos anos 1960", disse ela.

Respondi-lhe que eu também a tinha perdido.

"Você ainda mal tinha nascido", disse ela.

Cozinhávamos juntos muitas vezes, como tínhamos feito naquela primeira noite, depois do jantar ela mostrava-me o quadro em que estivesse a trabalhar no momento. A seu pedido, eu também comecei a ler-lhe partes do meu livro em andamento. Dávamos a nossa opinião um ao outro e o nosso trabalho melhorou.

Quando o meu contrato de arrendamento de seis meses terminou, renovei-o. O romance não estava terminado. Além disso, eu não conseguia imaginar uma melhor vizinhança.

Antes que eu desse por isso, passaram três anos. Eu escrevia sete dias por semana e passava a maior parte das noites com Austin. Agora, ela tinha tonturas de vez em quando e por isso, quando caminhávamos juntos, ela segurava-se no meu braço. Muitas vezes não conseguia encontrar a palavra certa para alguma coisa. Quando quis manter os visitantes afastados para que pudesse pintar, ela pendurou um sinal na porta do seu estúdio que dizia "Não destruir".

Em breve apareceram as dores de cabeça e a linguagem mais confusa. "Preciso de ferrar as minhas chamadas", disse ela, o que significava que precisava de as filtrar.

Rimo-nos e depois ficámos sérios. Foram marcados exames.

Agora ela está há oito meses com uma doença que os médicos dizem ir destruir rapidamente o seu cérebro. Eles dizem que não há como a parar. Terá mais um ano, se tiver sorte. Mesmo recusando-me a acreditar nisso, preparo-me para o que vier a acontecer.

Como? Mantendo a promessa que lhe fiz.

Poucos meses antes do seu diagnóstico, Austin tinha ido a um casamento. Ela mostrou-me uma cópia dos votos, que tinha sido distribuída na cerimónia, uma lista detalhada. Li-a cuidadosamente a pedido de Austin. Estávamos sentados no carro, à espera que o nosso restaurante tailandês favorito abrisse.
"Nunca tive nada assim com os homens da minha vida", disse ela, apontando para os votos. "Nós amávamo-nos, mas não tínhamos isto." Ela começou a chorar, algo que raramente fazia.

Peguei-lhe na mão e disse: "Bem, tem isso comigo. Tudo menos o sexo."

Naquele momento, o macaco beijou o pombo.

Naquela noite, apercebi-me de uma coisa estranha: alguns dos maiores romances da minha vida foram amizades. Essas amizades foram, em muitos aspetos, mais misteriosas do que o amor erótico, mais subtis, menos egoístas, mais sintonizadas com a bondade.

Claro que Austin iria morrer muito antes de mim. Não é disso que se trata. Tal como eu vim a perceber, esta é uma história de amor.

Austin continuou a pintar durante vários meses ainda, autorretratos fraturados, psicadélicos, em cores ardentes. O seu melhor trabalho. Ultimamente, porém, ela está cansada e mal sai do sofá. Eu sento-me com ela, na extremidade oposta, com as nossas pernas entrelaçadas.

"Leia para mim", diz ela.

Quando lhe digo que o livro está terminado, ela diz-me para ler algo novo. Mas sempre que o faço, ela adormece quase imediatamente.

Mas eu não me vou embora. Olho pela janela. Austin estava certa. Esta divisão é a que tem a melhor luz.

O seu cabelo enfraqueceu ultimamente, mas ela tem uma madeixa branca à frente que a filha de uma amiga pintou com uma faixa cor-de-rosa. Ela parece uma miúda punk que eu poderia ter namorado no secundário.

Ela estava com um pouco mais de energia da última vez que a fui visitar e disse-me: "Oh, Victor, ontem comi a sobremesa mais maravilhosa. Pêssegos e Connecticut. Você já provou?"

"Não", respondi, sorrindo.

Adorei a ideia. Duas coisas que não parecem ir bem juntas. Macacos e pombos. Pêssegos e Connecticut. Improvável, sim, mas do mais delicioso que existe.

Victor Lodato é autor do romance Edgar e Lucy, a ser publicado em breve. Ele vive no Oregon.

Exclusivo DN/The New York Times

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