Projeto de ciência cidadã mede radiotividade na fronteira

Iniciativa Plataforma Tejo Seguro fez um crowdfunding para comprar contador Geiger está a fazer medições em Segura desde o dia 29 de novembro

Presa à chaminé do antigo edifício da guarda fronteiriça, hoje um centro de interpretação ambiental que pertence à junta de freguesia de Segura, a pequena caixa branca passa despercebida. Só mesmo quem sabe da sua existência dará por ela. Mas, a poucos metros da ponte romana que ali faz a travessia para Espanha, aquele objeto discreto pode fazer a diferença: lá dentro, um contador Geiger mede a radioatividade no ar.

É naquele ponto geográfico, o que mais perto está, no território nacional, da central nuclear de Almaraz, a cem quilómetros dali, que primeiro se medirá em Portugal uma eventual alteração na radioatividade na atmosfera, em caso de algum acidente na central. Foi por causa dessa localização ideal que a Plataforma Tejo Seguro, que promove o projeto, a escolheu para fazer as suas medições.

"A ideia foi criar um projeto de ciência cidadã para monitorização ambiental e este é o primeiro do género que em Portugal mede a radioatividade no ar", explica Paulo Marques, doutorado em engenharia eletrónica e professor do Instituto Politécnico de Castelo Branco, um dos rostos do projeto, juntamente com o meteorologista Costa Alves.

"Não queremos substituir a rede de monitorização nacional RADNET, que tem as suas estações de medição no país", sublinha Paulo Marques. O objetivo é outro: é ter "informação, rigorosa e científica, do cidadão para o cidadão, aquilo a que chamamos democratização da informação científica", nota, por seu turno, Costa Alves.

Tudo no projeto foi feito na base dessa ideia, desde a forma como o contador Geiger foi adquirido, através de um crowdfunding - que permitiu angariar os 2550 euros necessários -, até à divulgação da informação, que pode ser consultada em direto na Internet, no site onde a Plataforma Tejo Seguro, em http://allbesmart.ddns.net/tejoseguro

As medições, que se iniciaram a 29 de novembro e que vão decorrer ininterruptamente ao longo de um ano pelo menos, são atualizadas na homepage a cada 10 minutos, mas a par dos valores, a equipa do projeto faz questões de facultar ali uma série de informação, de referências científicas e de links que permitem descodificar o que valem exatamente os números que o contador Geiger está a medir em Segura. Por exemplo, o valor de 189 nSv/h (nanosievert por hora) que ontem se podia ler, às 18.30, é um nível de radiação não preocupante - só a partir dos 300 se considera o primeiro nível de alerta, mas mesmo assim "não é preocupante", apenas "há que estar atento".

Se um dia destes o equipamento que a Plataforma Tejo Seguro instalou em Segura medir algum valor igual ou superior a 300 nSv/h, Paulo Marques receberá um alerta por sms no seu telemóvel. Algo que, afinal, ele espera que nunca aconteça.

Se houvesse em Almaraz um acidente grave com libertação de grandes quantidades de gases e partículas radioativas, o vento se encarregaria de os dispersar na atmosfera. E, com uma velocidade do vento de nove metros por segundo, por exemplo, essa nuvem levaria três horas a percorrer cem quilómetros, a distância que separa a central de Almaraz da fronteira portuguesa. Contas da Plataforma Tejo Seguro.

Debruçada sobre o rio Erges, com Espanha ali em frente, Segura é essa povoação avançada. Almaraz, porém, não lhes diz muito. Ali, as preocupações são outras: o deserto de gente e de perspetivas, a pobreza que espreita. "Diga isso no seu jornal", desafia Guilhermina, a dona do único café da aldeia, que está quase sempre vazio.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.