Quem paga? "Embrulhada" no Andanças pode "demorar muito tempo" a resolver

Incêndio que deflagrou esta quarta-feira no estacionamento do festival destruiu 400 carros

Um advogado da área do Direito dos Seguros aconselhou hoje os proprietários de carros destruídos pelo incêndio no festival Andanças a contactarem as respetivas seguradoras por escrito, estimando que o processo de averiguação de responsabilidades pode demorar muito tempo.

"Segundo a minha experiência, vai ser uma 'embrulhada' muito difícil de resolver, porque está em fase de inquérito e ainda não há conclusões" acerca do incidente, disse à Lusa Ricardo Lucas, advogado que trabalha nas áreas de Responsabilidade Civil e Direito dos Seguros.

Nos casos em que o proprietário do veículo atingido tem um seguro de danos próprios está mais protegido, "mas mesmo nestes casos as seguradoras tendem a adiar os pagamentos até ao apuramento das responsabilidades", salientou.

Para defenderem os seus direitos, Ricardo Lucas aconselha todos os prejudicados a contactarem a respetiva seguradora por escrito, para terem uma resposta escrita de como é que a sua seguradora se posiciona nesta situação.

"Não quer dizer que as seguradoras vão por isso assumir alguma responsabilidade, mas também assim ficam a saber qual a posição da seguradora sobre a matéria", realçou, considerando também que os lesados deveriam contactar um advogado que defenda os seus direitos.

"Mas têm de começar a prevenir-se, porque a resolução deste caso não vai ser tão rápido como desejariam. Ainda por cima é uma indemnização de milhões e ter financiamento para isto não será fácil", acrescentou.

A organização do festival Andanças, realizado em Castelo de Vide, afirmou ter um seguro, "mas este pode nem sequer chegar a ser acionado se a organização não tiver qualquer responsabilidade no incêndio", disse.

Neste mesmo sentido vão declarações do diretor da área de subscrições da Crédito Agrícola Seguros, da Caixa Agrícola, Carlos Pereira, que detém a apólice da organização do festival.

Carlos Pereira confirmou que a CA recebeu uma notificação do incidente e disse à Lusa que atualmente estão a ser feitas perícias e que só depois de terem sido avaliadas as origens do incidente é que se saberá qual o montante total envolvido.

Quanto ao pagamento e montantes envolvidos, eles dependerão dos resultados das perícias.

Além disso, sublinhou, a apólice "será acionada apenas se se comprovar que houve responsabilidade da organização" e até ao montante contratado, que não especificou.

Sem adiantar prazos, Carlos Pereira disse esperar que a situação se resolva o mais rapidamente possível, até por uma questão de organização da seguradora.

O incêndio que deflagrou na quarta-feira no estacionamento do festival de dança e música Andanças, em Castelo de Vide (distrito de Portalegre), destruiu mais de 400 carros.

O evento, promovido pela Pé de Xumbo -- Associação para a Promoção da Música e Dança, decorria desde segunda-feira.

Algumas horas depois da retirada de quatro mil pessoas do recinto, por precaução, o festival foi retomado.

Segundo a GNR, não há indícios de crime.

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