"Problema da segurança, põe-se sempre, não é só a 13 de maio"

Em 2017, o santuário recebe a visita do Papa Francisco. O reitor do Santuário, Carlos Cabecinhas, diz que sente "o peso da responsabilidade", mas sublinha o "enorme desafio" e "a alegria" do seu empenho.

Vai ser um ano marcante para o Santuário, com as comemorações do centenário das aparições e com a visita do Papa Francisco. Sente o peso da responsabilidade nas suas funções?

Sinto o peso da responsabilidade, mas também a grande graça e alegria que é estar nestas funções num ano tão significativo como 2017. É uma grande responsabilidade, que tem que ver com toda esta visibilidade de Fátima, com o facto de este ser um santuário não apenas nacional mas com difusão internacional, e por isso sinto também como um grande desafio estar à frente de um lugar como este no momento tão significativo que é o centenário.

É uma bênção, para si?

Todas as bênçãos significam um enorme desafio e é sobretudo nessa dimensão que o procuro olhar: perceber o que o facto de estar nestas funções me pede concretamente, e também que a comemoração do centenário seja vivida como um momento feliz, de bênção, porque é assim que ele é sentido por tantos milhões de peregrinos que aqui acorrem cada ano.

Quando foi nomeado reitor, em 2011, já este plano estava em marcha. Colocou ainda o seu cunho pessoal nas comemorações ou entrou neste comboio já em andamento?

Não foi difícil entrar neste comboio em andamento. Eu tinha sido convidado pelo anterior reitor a integrar a comissão que preparou o itinerário de vivência, preparação e celebração do centenário, e por isso quando assumi funções este não era um itinerário desconhecido, pois já tinha contribuído para ele. A preocupação não foi nunca a de deixar um cunho pessoal, foi a de procurar potenciar um projeto que já estava em marcha, no qual me revi, e que procurei potenciar da melhor forma. Julgo que é um projeto cheio de potencialidades e desafios para o mundo atual e para o futuro. Esse foi sempre um objetivo destas comemorações: viver o presente mas deixar-nos também alguns ritmos para a vivência do santuário no futuro, a partir de 2017.

A ideia é prolongar algumas das atividades após a festa do centenário?

O nosso objetivo e expectativa é que este momento festivo do centenário crie uma série de dinamismos na vida do santuário que permita que todo o peregrino que venha em 2018, 19 ou 20 possa viver connosco este momento festivo e beneficiar das várias iniciativas que tomámos para este momento em concreto e que queremos que fique.

Uma das preocupações do programa foi chegar aos jovens. Parece-lhe que as gerações mais novas estão despertas para a mensagem de Fátima?

Estou convencido de que os jovens estão despertos para Fátima e que a mensagem de Fátima é muito significativa para eles. Habitualmente temos jovens em Fátima. Mas o que me parece é que o santuário pode dar mais aos jovens do que tem dado até aqui. O nosso esforço vai nesse sentido. Podemos ter propostas que os levem a conhecer e aprofundar o sentido da Mensagem, a perceber com maior profundidade o que Fátima lhes pode dizer. Por isso não diria que estamos a tentar atrair os jovens, mas antes dar-lhe uma resposta.

Com uma linguagem própria, como eles utilizam?

Sem dúvida que é essa a ideia.

Houve a preocupação do Santuário em ser contemporâneo nas comemorações? Por exemplo com a escolha do musical que aqui esteve em exibição...

O nosso programa procurou linguagens renovadas e diferentes. Haverá muitas pessoas para quem Fátima pode não ser muito significativa, porque não encontramos a linguagem adequada para lhes falar. O que procurámos com esta programação - abrangente no seu público - foi um tipo de linguagem para falar de Fátima de forma significativa para a multiplicidade de públicos a que nos dirigimos. Basta pensar no programa cultural, e na quantidade de linguagens diversas, da dança à música, às artes performativas.

Foi um programa ambicioso que o Santuário traçou?

Foi. Mas são esses programas ambiciosos que valem a pena. E estou convencido que foi uma boa aposta; um programa com múltiplas atividades, particularmente intenso nestes seis anos que antecederam 2017, e esse arrojo procurou essa vontade de chegarmos mais longe e podermos transmitir uma mensagem que acreditamos ser atual.

Já estão contabilizados os custos das comemorações?

Ainda não, isso está em curso. Pensamos ter, dentro de algum tempo, dados muito concretos sobre os custos.

Tem receio que pareça aos fiéis que o Santuário está a gastar muito?

O Santuário procura ter sempre presente o bem dos peregrinos e que as ofertas revertam em favor dos próprios peregrinos e dos mais necessitados. Nesse sentido, é sempre com muita tranquilidade que analisamos essa questão. O Santuário existe antes de mais para acolher peregrinos, mas também nesta outra dimensão de apoio aos mais necessitados. Com essa consciência vamos gerindo os custos.

Já está delineado o programa dos dois dias em que o Papa Francisco vai estar em Fátima?

O programa vai-se fazendo pouco a pouco, nos contactos entre o Vaticano, a Igreja e o Estado Português. Não há ainda um programa definido e por isso ainda não foi apresentado. Caberá quer ao Estado Português quer à Santa Sé definir o momento de o apresentar. Para já temos só a indicação de que o Santo Padre virá no dia 12 à tarde, e partirá no dia 13, depois das celebrações no Santuário de Fátima.

Quer dizer que vai pernoitar no Santuário...

Sim, essa é uma indicação que já posso dar. Normalmente, nas suas visitas, o Santo Padre pernoita sempre em casas da Igreja. Em 2010, o papa Bento XVI, em Lisboa, ficou na Nunciatura, e depois ficou aqui no Santuário.

Já esteve pessoalmente com o Papa Francisco?

Já tive a graça de estar pessoalmente várias vezes com o Papa Francisco. A primeira vez foi em 2013, por ocasião da jornada mariana do ano da fé. Por vontade do Papa levámos a imagem principal, venerada na Capelinha das Aparições, a Roma, a São Pedro, e nessa altura cumprimentei-o pessoalmente. Depois disso já estivemos várias vezes. Por isso é com muito agrado e expectativa que penso poder voltar a cumprimentá-lo aqui a 12 e 13 de maio.

E já esteve com ele depois do anúncio da sua vinda a Fátima?

Depois do anúncio oficial, que foi feito a 16 de dezembro, ainda não.

No momento conturbado que vivemos na Europa, tem algum receio de um ataque terrorista a Fátima, especialmente nos dias 12 e 13 de maio?

Creio que quando falamos de terrorismo temos de ser realistas e perceber que hoje ele se reveste de manifestações que nunca nos deixam de todo a salvo. O tipo de manifestações que temos visto, sobretudo na Europa, mostra-nos que em qualquer momento estamos sujeitos a um ato de loucura. Contudo, também tenho consciência de que se há momento em que Fátima estará com um largo processo de segurança montado é precisamente para a vinda do Papa. O problema da segurança põe-se sempre e não apenas no 12 e 13 de maio. Procuramos sempre coordenar a nossa ação e preocupações com as autoridades competentes, para assegurar a segurança dos nossos peregrinos.

Tem havido encontros com as autoridades?

Tem havido sempre, e não apenas neste contexto de preparação da vinda do Papa, contactos frequentes e uma colaboração regular com as autoridades. Mas esses são âmbitos em que os detalhes prejudicam mais do que ajudam...

Pessoalmente está descansado, relativamente às questões de segurança.

Posso dizer que estou tranquilo.

Como é que o Santuário lida com a especulação financeira à volta de Fátima, acentuada com a vinda do Papa?

Nós não vemos como mal que haja todo um conjunto de serviços que se oferece àqueles que visitam Fátima. Estou a pensar desde o comércio à hotelaria. É legítimo e necessário que aqueles que nos visitam - e que procuram condições de alojamento, refeições, lojas para comprar este ou aquele produto - o encontrem. Em relação a uma especulação, nomeadamente em relação aos alojamentos, o único comentário que se me oferece fazer é este: o Santuário, que tem também algumas estruturas de alojamento, tomou uma decisão muito clara - por ser o ano da vinda do Papa não houve qualquer atualização de preços. Se outros o fazem, não temos comentários a fazer. Quisemos deixar esse sinal precisamente porque nos parece que pode haver sempre uma tentação grande de procurar fazer o máximo lucro numa ocasião como esta. E isso pode ser extremamente contraproducente. Porque não se trata de 2017, mas sim do futuro, e da imagem que se transmite da hotelaria e comércio de Fátima. Mas consideramos que é um movimento natural, não causa surpresa, embora possa haver alguma especulação, e isso só temos a lamentar.

Mas no contacto com os diversos agentes o Santuário tem passado essa mensagem de contenção?

O Santuário tem procurado manter um diálogo próximo e assíduo com as várias forças vivas de Fátima, nomeadamente hoteleiros e comerciantes. Temos sempre sublinhado que o importante é que saibamos cumprir bem a nossa parte, e o façamos de forma a que, aqueles que nos visitam, se sintam bem em Fátima.

Como é que tem sido o contacto com o atual governo, suportado por uma coligação de esquerda?

Tradicionalmente os governos de esquerda não são tão próximos da Igreja como os de direita...
Normalmente o Santuário não tem um relacionamento próximo com o governo, seja ele qual for. Não depende de subvenções estatais, segue o seu caminho com uma autonomia própria. Não existe uma dificuldade maior ou menor, porque não é o nosso interlocutor primário para as várias questões. É pontualmente, para uma ou outra questão, e posso dizer que temos tido toda a abertura para todas as questões que o Santuário tem levantado. Isto é: não só o Santuário tem manifestado toda a recetividade sempre que o governo nos contacta por algum motivo pontual, como temos procurado sempre colaborar da melhor forma possível.

Mas a vinda do Papa obriga certamente a um contacto institucional mais próximo. Tem acontecido?

Sim, a visita papal exige sempre uma parte eclesial, que a nível na Igreja se faça uma preparação da visita, mas implica também a preparação pelo Estado que é visitado - mesmo nesta circunstância em que foi anunciado que não seria uma visita de Estado, mas como peregrino que o Papa Francisco viria.

Na missa do Dia de Natal aproveitou a sua homilia para falar da vida e do bem supremo que representa. Estava a referir-se a questões concretas como o aborto e a eutanásia?

Quando falamos da vida pensamos num âmbito muito alargado. E a missa do Dia do Natal chama-nos a atenção para Jesus Cristo, aquele menino do presépio que vem como aquele que dá vida e vida em abundância. E esta afirmação do evangelista - acerca da qual eu refletia - tem consequências a diversos níveis. Convida-nos a refletir sobre a vida e a vida nascente - não só do aborto, mas também do apoio à maternidade -, põe-se a questão no outro extremo, da eutanásia, mas põe-se também a questão da dignidade da vida humana, que muitas vezes é afetada precisamente por condições desumanas de vida, em que tantos contemporâneos nossos vivem. É essa vida que o Natal nos convida a contemplar.

Está a falar dos refugiados, também?

Também estamos a falar dos refugiados. Vivemos num tempo estranho: há pouco tivemos conhecimento de um estudo que dizia que os portugueses estão muito recetivos aos refugiados, mas pouco aos migrantes. Não deixa de ser estranho. Se por um lado somos convidados a ter este olhar compassivo para com os refugiados que chegam até nós vindos de situações dramáticas, por outro não podemos esquecer que somos um país de migrantes, que em muitas ocasiões de necessidades tivemos de sair e encontrar acolhimento noutras terras. E o que nos é pedido é que cultivemos esta mentalidade aberta de quem sabe acolher os que chegam, como gostaríamos de ser acolhidos noutros locais do mundo.

Dentro da Igreja considera-se um progressista ou um conservador?

Tenho alguma dificuldade em encaixar-me num ou noutro rótulo. Não me considero um conservador mas também não consigo considerar-me um progressista. Ficarei aqui num limbo, que não sei exatamente que nome poderá ter...

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