Portugueses descobrem sinais de solo gelado em África

Um ano de medições da temperatura da superfície do solo no Alto Atlas, em Marrocos, mostra pela primeira vez que pode existir ali permafrost

No topo do Alto Atlas, a 4157 metros de altitude, em Marrocos, a equipa do investigador português Gonçalo Vieira descobriu os primeiros indícios da existência de permafrost, ou seja, de solo gelado. Esta é a primeira vez que se encontram sinais concretos nesse sentido e para o professor e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT), da Universidade de Lisboa, justamente um especialista em permafrost, é preciso agora aprofundar o estudo - e quanto mais depressa melhor, por causa das alterações climáticas.

"Esta é a primeira vez que há dados objetivos sobre a possível presença de permafrost no norte de África", diz Gonçalo Vieira, explicando que isso, "em Marrocos, na alta montanha, pode ter importância ao nível dos recursos hídricos".

Numa região desértica como aquela, os recursos hídricos e tudo o que se relaciona com eles são questões vitais, mas as potencialidades da descoberta não se ficam por aqui. A biodiversidade e áreas como a saúde também poderão ter muito a ganhar. "Pode ser importante para a biodiversidade e para a descoberta de novas espécies, nomeadamente de micro-organismos que só se desenvolvam em condições muito frias e áridas, e que até poderão depois ter aplicação na medicina", adianta o investigador, sublinhando que pode até nascer aqui "um tema novo, capaz de gerar descobertas que agora nem nos passam pela cabeça".

Por isso, o passo que segue é voltar lá para fazer um estudo sistemático, com uma perfuração, que ali tem de ter pelo menos dois metros em profundidade. O grupo do IGOT tenciona submeter um projeto à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

Há uma enorme falta de dados em relação ao Atlas. Não existem, por exemplo, séries longas de medições de temperatura. "Nunca ninguém tinha, aliás, medido as temperaturas no topo do Alto Atlas", conta Gonçalo Vieira. "É difícil lá chegar, tem de se caminhar durante dois dias, a subir".

Foi isso que a sua equipa teve de fazer para obter estas primeiras medições. Montou lá no topo um sistema de observações de temperaturas na superfície do solo, que recolheu dados durante um ano, e os resultados acabaram por ser uma grande novidade, embora, para Gonçalo Vieira, não se trate exatamente de uma surpresa. "Para quem já lá esteve e viu que há algumas formas de relevo indicadoras da possível presença de permafrost, não é uma completa surpresa", confessa.

O artigo que a equipa submeteu à revista científica Criosphere, está online, na rubrica Criosphere Discussions, à espera de ser aceite para publicação. Mas o pensamento já está no passo seguinte.

Se houver financiamento - "e este não é um projeto milionário", garante Gonçalo Vieira -, os investigadores farão um furo no topo da montanha para confirmar a presença do permafrost. Depois, "a ideia é fazer modelos de distribuição espacial para apontar as áreas onde ele poderá existir", adianta o investigador do IGOT.

Mas o tempo urge. Embora não haja medições sistemáticas de temperatura no topo do Atlas, elas existem em Marraquexe, que fica no sopé, e o que mostram é que a temperatura média tem subido de forma clara nas últimas décadas, como em toda a região mediterrânica, aliás. "Fizemos extrapolações sobre a evolução da temperatura do ar no Alto Atlas, a partir das séries de Marraquexe, e o resultado é que há uns anos as temperaturas médias do ar eram inferiores a zero graus Célsius, e agora já são superiores", adianta Gonçalo Vieira. Ou seja, se é para estudar o permafrost que (ainda) lá esteja, terá de ser agora.

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