PJ no rasto dos curadores do jogo Baleia Azul em Portugal

A Judiciária está a investigar os quatro casos no país e a tentar perceber se há um mercado adulto por detrás dos curadores do jogo. "É como um processo de radicalização"

As provas nos quatro casos de adolescentes que foram hospitalizados depois de se automutilarem ao cumprirem desafios do jogo suicida Baleia Azul estão a ser reunidas pelas secções da PJ de Setúbal, Portalegre, Faro e Porto, em contacto com os inspetores da Unidade Nacional do Crime Informático (unc3t). O objetivo é "a recolha de prova ser uniforme e os inquéritos ficarem concentratos na Unidade Nacional do Crime Informático", adiantou ao DN o diretor da unc3t, Carlos Cabreiro.

A Judiciária vai tentar seguir o rasto dos curadores do jogo para perceber se há portugueses envolvidos ou se as ordens vêm todas de fora do país. "O jogo Baleia Azul faz lembrar um processo de radicalização. É manipulação pura. Faz lembrar os pedófilos na internet que colecionam imagens de crianças. São indivíduos anormais que pegam nesta informação, num conjunto de tarefas a que chamam desafios, com ameaças, que faz com que os alvos se sintam na obrigação de cumprir os ditos desafios", refere Carlos Cabreiro. O responsável considera que "pode haver aqui um mercado de adultos a tirar partido disto, de alguma forma". E os curadores do jogo estão claramente interessados em toda a onda mediática à volta do mesmo. " Pretende-se que a divulgação seja massiva para haver adesão dos adolescentes e jovens adultos. Mas é preciso dizer e repetir isto aos pais e filhos: a ameaça que estes indivíduos fazem não é séria, não há concretização dessas ameaças - de que matam alguém da família se o alvo não cumprir as tarefas".

A Polícia Judiciária está "muito preocupada" com a propagação do jogo na internet, ainda mais quando ontem foi conhecida a quarta vítima dos desafios do Baleia Azul em Portugal: uma rapariga de 15 anos, do Porto, que está internada no Hospital de S. João na noite de terça-feira com ferimentos no braço e peito. Estão a ser feitas perícias a esses ferimentos. Segundo fonte da PJ, a secção especializada em cibercrime da diretoria do Porto está a investigar este caso. Há diligências a fazer, de análise de computadores e telemóveis das vítimas, e depois é preciso ver onde estão os curadores do jogo, adiantou a mesma fonte.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) esclareceu o DN de que nos quatro inquéritos abertos os responsáveis que forem encontrados - curadores ou administradores do jogo - incorrem no crime de incitamento ou ajuda ao suicídio, punível até 5 anos se a vítima for menor e atentar contra a própria vida e até 3 anos se a vítima for adulta.

Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica, está a acompanhar há cerca de duas semanas um rapaz de 11 anos e uma rapariga de 12, de Cascais, que receberam uma mensagem pela rede social Whats App em português, com o primeiro desafio: tatuar uma baleia no braço. "Eu já estava a acompanhá-los por bloqueio de stress nos exames por isso eles falaram logo comigo e não cumpriram o desafio", contou a psicóloga. "São miúdos que estão habituados a andar sempre com o telemóvel e à noite até o levam para o quarto". Bárbara Ramos Dias tem apelado aos pais para controlarem mais o acesso dos filhos à net.

O criador do Baleia Azul, o russo Philipp Budeikin, 21 anos, foi detido a 14 de novembro de 2016 após ter sido acusado da morte direta de 15 menores que se suicidaram.

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