Pediatras contra os dispositivos eletrónicos para vigiar a saúde dos bebés

Sistemas como meias e pulseiras que medem os sinais vitais das crianças são publicitados como tecnologia para facilitar a vida dos pais, mas os profissionais de saúde consideram que só servem para aumentar a ansiedade

Imagine que o seu smartphone toca sempre que os níveis de oxigénio ou a frequência cardíaca do seu bebé fogem dos intervalos predefinidos durante o sono. Ou que através de uma "fralda inteligente" consegue detetar infeções urinárias e desidratação. A ideia pode agradar a muitos pais, mas este tipo de tecnologia, que já é usada em alguns países, está a preocupar a comunidade médica.
Três pediatras de Filadélfia, nos EUA, publicaram um artigo no qual criticam o uso de dispositivos eletrónicos que monitorizam o bem-estar dos bebés, alegando que criam alarmes falsos e aumentam a insegurança e ansiedade nos pais. Uma opinião partilhada pelos pediatras ouvidos pelo DN, que não veem utilidade neste tipo de tecnologias.

No artigo publicado recentemente na revista científica JAMA (Journal of the American Medical Association), Christopher Bonafide, David Jamison e Elizabeth Foglia dão como exemplo a meia para bebés desenvolvida pela empresa Owlet, que monitoriza os níveis de oxigénio e a frequência cardíaca e emite alertas para smartphones. Mas existem muitos outros dispositivos, como a pulseira Neebo, que também controla os sinais vitais, e as fraldas inteligentes.

"Para a maioria dos bebés saudáveis, não há qualquer necessidade de usar esses monitores em casa", disse Elizabeth, citada pelo El País. Segundo os pediatras, em vez de tranquilizar os pais, estes dispositivos causam mais stress.

Não são usados em Portugal

Nenhum dos quatro pediatras contactados pelo DN conhece pais que utilizem sistemas idênticos a estes em Portugal. "Há alguns anos, esteve em testes um dispositivo que se punha em contacto com a pele [entre a fralda e a pele] do bebé e que calculava a frequência cardíaca", adianta a pediatra Almerinda Barroso Pereira. Segundo a diretora do serviço de pediatria do Hospital de Braga, o aparelho - que emitia um sinal sonoro sempre que a frequência fugia do normal - nunca chegou a ser comercializado, "porque dava uma falsa noção de segurança e tinha muitos falsos positivos". A ideia é que pudesse ser usado para prevenir a síndrome de morte súbita do lactente, mas acabava por "criar stress em situações que não se justificavam".

Esse é um dos maiores receios dos pais dos recém-nascidos, mas, segundo os autores do artigo, estes dispositivos que monitorizam os sinais vitais não diminuem o risco de morte súbita. Os fabricantes da meia da Owlet também reconhecem que não tem capacidade de o fazer, mas dizem que o aparelho emite sinais de alerta. Filipe Glória e Silva, pediatra do neurodesenvolvimento do Hospital CUF Descobertas, diz que os parâmetros medidos por estes aparelhos "têm de ser integrados clinicamente, com fatores de risco e sintomas. Têm de ser interpretados por pessoas com experiência clínica".

Para crianças com problemas graves de saúde, o pediatra diz que já existem dispositivos médicos apropriados. Por isso, considera que estes aparelhos são "despropositados". "Criam um nível de alerta desnecessário. As doenças dão sintomas", frisa. À partida, os pais que procuram este tipo de tecnologia já são mais ansiosos. "As vigilâncias desnecessárias vão reforçar essa ansiedade dos pais", alerta Filipe Glória e Silva. Um dos grandes problemas é que "todos os sistemas de deteção têm falsos alarmes, pelo que há situações em que o teste dá positivo, mas não existe qualquer problema".

"Acho absurdo"

A pediatra Graça Gonçalves também não vê benefícios na utilização destes monitores. "Acho absurdo. Aumentam a ansiedade e stress nos pais." Os próprios colchões de apneia - usados atualmente em situações muito específicas - "causam stress porque estão sempre a apitar em falso". "Nem isso faz sentido", indica a pediatra, que olha para a promoção destes dispositivos quase como uma tentativa de "passar um atestado de incapacidade aos pais".

No site da Owlet, a meia, que custa 232 euros, é apresentada "não apenas como um acessório" mas também como "uma necessidade". Em cerca de um ano e meio, foram vendidas mais de 40 mil unidades. "Não é uma necessidade apenas para o bebé, é uma necessidade também para si, porque os pais também precisam de dormir." Só que, em vez de tranquilizar os pais, os pediatras defendem que esta tecnologia os deixa mais ansiosos.

"Cria alarmismo, um problema onde ele não existe", diz o pediatra Hugo Rodrigues. Como "a maior parte dos meninos são saudáveis, isto não tem utilidade". O mais importante, destaca, é "que haja uma relação direta entre pais e filhos" e que não seja intermediada por tecnologia. "É fundamental que os pais conheçam os filhos, percebam o seu estado normal e saibam quando alguma coisa não está bem. Isso aprende-se com o contacto entre pais e filhos."

O autor do blogue Pediatra para Todos deixa um conselho aos pais: "Olhem para as crianças, mexam nas crianças. Isso é muito mais importante do que usar meias tecnológicas."

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