Papa pede à Polónia disponibilidade para acolher refugiados

No seu primeiro discurso na Polónia, um dos países da UE que têm sido mais críticos da política comum de abertura aos que fogem em massa das guerras e da pobreza, Francisco apelou à solidariedade e ao espírito cristão

Na sua primeira intervenção na Polónia, onde chegou ontem para as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ), que decorrem em Cracóvia, o papa Francisco pediu às autoridades do país e à sociedade civil abertura para os refugiados.

A crise dos refugiados tem estado desde o início no topo das preocupações de Francisco - a primeira viagem que fez enquanto papa, em Julho de 2013, foi à ilha de Lampedusa, onde se concentram milhares de imigrantes e refugiados - e seria de esperar que falasse na questão nesta primeira visita à Polónia, um dos países da União Europeia (UE) que se tem mostrado mais crítico da política comum de abertura aos refugiados.

"É precisa disponibilidade para acolher as pessoas que fogem das guerras e da fome", disse o papa no discurso que proferiu no Castelo de Wavel, em Cracóvia, perante o presidente polaco, Andrzej Duda, membros do governo e representantes da sociedade civil. Sem meias palavras, apelou à "solidariedade para com aqueles que estão privados dos seus direitos fundamentais, designadamente o de professar com liberdade e segurança a sua fé".

Ao mesmo tempo, sublinhou, "devem ser estimuladas colaborações e sinergias a nível internacional a fim de se encontrar soluções para os conflitos e as guerras, que forçam tantas pessoas a deixar as suas casas e a sua pátria". Trata-se, disse, de "fazer o possível para aliviar os seus sofrimentos" e de "trabalhar pela justiça e a paz", com "os valores humanos e cristãos".

Um "mundo em guerra"

No país de João Paulo II, que criou em 1985 as Jornadas Mundiais da Juventude, Francisco fez questão de evocar o seu antecessor e a sua memória. Ele tinha "o sonho dum novo humanismo europeu", afirmou. "Sempre me impressionou o sentido vivo da história do papa João Paulo II. Quando falava dos povos, partia da sua história procurando fazer ressaltar os seus tesouros de humanidade e espiritualidade", sublinhou Francisco.

Antes mesmo de aterrar na Polónia, o papa já tinha falado, no avião, aos jornalistas que o acompanham na visita, para, mais uma vez sem meias palavras, se referir ao atual momento de tensão mundial, com os ataques terroristas em ritmo quase diário - no dia anterior, o padre francês Jacques Hamel, de 84 anos foi degolado na igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, em França, num atentado reivindicado pelo Daesh (ver página 30).

O papa já tinha condenado, nesse mesmo dia o "homicídio bárbaro", manifestando os seus sentimentos de "dor e horror" pelo sucedido. Ontem, no avião, usou a palavra "guerra" para se referir à atual situação.

"A palavra repetida muitas vezes é insegurança, mas a verdadeira palavra é guerra. Reconheçamo-lo, o mundo está em estado de guerra, não devemos ter medo de dizer a verdade", sublinhou. Fez questão de notar, porém, que não se trata uma guerra de religiões. "Quando falo em guerra, falo numa guerra de interesses, por dinheiro, pelos recursos da natureza, pelo domínio dos povos. Mas não é uma guerra de religiões. Todas as religiões querem a paz, são os outros que querem a guerra", disse Francisco, citado pela Reuters.

Encontro com os jovens

Ontem, o papa encontrou-se em privado com os bispos polacos e fez a muita esperada saudação à janela, na sede da arquidiocese, onde ficou instalado, mas é para hoje, dia de grande simbolismo para país, que está agendado o primeiro banho de multidão, quando Francisco celebrar missa no santuário mariano de Jasna Gora, em Czestochowa, por ocasião dos 1050 anos do batismo na Polónia. São esperadas centenas de milhares de pessoas. Está previsto igualmente o primeiro encontro com o milhão e meio a dois milhões de jovens que participam nesta 31ª JMJ - entre eles, cerca de sete mil portugueses, que ontem à tarde participaram na LusoFesta, sob o mote "Faz-te próximo", no Centro de Congressos de Cracóvia. A fadista Cuca Roseta foi uma das participantes nesta festa dedicada aos jovens de todos os países lusófonos.

Amanhã o tom de festa dá lugar ao silêncio e à oração: o papa visita os campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau. No sábado celebra missa no santuário da Divina Misericórdia, dedicado a João Paulo II, e almoça com 12 jovens, em representação dos cinco continentes. Haverá ainda uma vigília de oração com os jovens a quem o sumo pontífice vai dedicar um discurso, no Campus da Misericórdia.

Domingo, antes de regressar a Roma, Francisco celebra nova missa campal para a multidão.

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