Os sonhos são iguais, mas uns e outros temem que não seja assim na carreira

Elas conquistaram a educação e a formação, mas ainda há áreas mais masculinas e outras mais femininas, apesar da evolução

Estudantes universitários, jovens e a pensarem concretizar os seus sonhos. Escolheram o curso que estão a tirar por gosto - houve quem mudasse de área -, mas alguns aliaram o gosto à empregabilidade, acreditando que se forem bons vão conseguir um emprego. Mas sejam homens ou mulheres, na teoria ou na prática temem todos que o género os possa condicionar quando chegarem ao mercado de trabalho. O mais difícil talvez seja na ascensão na carreira, como provam as estatísticas.

Sentados nas escadarias da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, duas Catarinas e um Gustavo olham à volta e percebem que têm mais colegas mulheres do que homens. E esta é a primeira diferença de género na faixa etária mais jovem: elas estão em maioria no ensino superior e tendem a escolher Artes e Humanidades, Saúde e Proteção Social, Ciências Sociais, Comércio e Direito. Eles vão em particular para Ciências, Matemáticas e Informática, Engenharias e Serviços, segundo revelam os dados da Pordata, com base nos dados da Direção-Geral de Estatística de Educação e Ciência (DGEEC). Houve algumas mudanças nos últimos 25 anos, mas que não chegaram para equilibrar as coisas.

Gustavo Nogueira, de 22 anos, conta: "Estava em Engenharia Civil, mas insatisfeito. Sempre tive gosto pelas letras e fui pela maré para as engenharias, porque diziam que tinha mais hipóteses de trabalho." Agora, é aluno do 1.º ano de Ciências da Cultura e Comunicação. "Estive no Instituto Superior Técnico, encontrei mais mulheres do que esperava, mas comparado com Letras, o universo é muito mais masculino." Gustavo está à conversa com Catarina Henriques, de 19 anos, e Catarina Delgado, de 18, colegas de turma no curso que escolheram como primeira opção, Ciências da Cultura e Comunicação. "Exigia uma média do secundário inferior à minha, mas era o que queria e estou muito satisfeita. Ia estar três anos num curso, que seriam desperdiçados se não gostasse", justifica Catarina Henriques. E quanto ao futuro? "É cedo, gosto da parte da cultura, mas para mim a parte mais criativa é a comunicação. Gostava de fazer fotojornalismo", avança Catarina Delgado.

A presença das mulheres é, ainda, mais notória na conclusão das licenciaturas, têm mais sucesso e acabam mais cedo os estudos, como prova o livro branco Homens e Igualdade de Género em Portugal, apresentado na segunda-feira. Este revela que elas estão em maioria nos doutorados, representando 54,8% em 2013, mais 20% do que em 1991. Mas continuam a ser eles em maioria nos lugares de topo.

Entrar no mercado de trabalho mal terminem a licenciatura é um sonho que nem todos os universitários pensam que será fácil de realizar para os dois sexos, mas na prática logo se vê. Gustavo argumenta: "Pensamos sempre se vai ser igual para homens e mulheres, tal como não faz diferença ser-se branco ou negro, gay ou heterossexual, mas podemos encontrar pessoas que pensem o contrário, que o homem é mais competente." Catarina Henriques reage: "Um homem é mais competente? Temos um problema." Mas o defende-se: "Não penso isso, mas não podemos ignorar a realidade."

Em frente a Letras está a Faculdade de Direito. Luís Jacinto, de 23 anos, no 3.º ano, Nuno Medeiros, de 25, a fazer disciplinas do 3.º e do 4.º, e Raquel Matias, já no mestrado, escolheram Direito por gosto e a instituição por prestígio, opções que acreditam que lhes garantirá lugar no mercado de trabalho. Dizem que há paridade tanto na faculdade como no mundo laboral. "Cada caso é um caso, mas nesta área não se é avaliado por se ser homem ou mulher", diz Nuno. "Comecei a ir a entrevistas de emprego e nos escritórios até vejo mais mulheres do que homens. Nos juízes e advogados vejo ambos os sexos", afirma Raquel.

Maria João Canedo, de 22 anos, anda no 3.º ano de Gestão de Informática, e Tely Teixeira, de 30, no 3.º ano de Engenharia de Informática. Ambas estudam no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e Empresas, em turmas de homens. Um mundo completamente diferente do que Tely viveu até há seis meses, quando deixou o hábito de freira. Tudo é novo e sem desigualdades de género. "Penso que será fácil obter emprego e que não fará diferença o facto de ser mulher." Maria João não tem certezas. "No mundo do trabalho não dependemos só de nós, receio que seja mais difícil para a mulher. Se for, é muito injusto."

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