Os dois mundos da Mouraria reconquistada pelos mouros

A Mouraria está renovada e em constante mudança. Um quarto dos habitantes são estrangeiros

"A Bia da Mouraria", que "arranjou um par jeitoso. É vendedor como ela ali para o Bem Formoso. São dois amores, duas vidas tão singelas. Enquanto ela vende flores, o Chico vende cautelas". Se o fado de António José fosse escrito hoje, não teria a Bia mas o Nazim a vender flores e o Chico venderia raspadinhas no Rossio. A Rua do Benformoso cheirava a caril e dela saíam homens apressados para a mesquita. A Bia e o Chico até podiam casar-se na Igreja da Nossa Senhora da Saúde, mas com selfie no monumento à guitarra portuguesa.

Os mundos da Bia e do Nazim cruzam-se na velha Mouraria, mas sem grandes contactos, sobretudo dos residentes mais velhos. De um lado o alfacinha, o fado e a ginjinha; do outro o imigrante, os telemóveis, os souvenirs e os restaurantes asiáticos. Separa-os a Rua dos Cavaleiros, com o elétrico a subir até ao Castelo, para se despedir da Mouraria e entrar em Alfama. De um lado, símbolos católicos; do outro muçulmanos, os mouros que reconquistam o bairro. A Mouraria, essa, está mais bonita e limpa, com ruas cortadas ao trânsito, mais atraente para os turistas, mais bairrista mas também cosmopolita.

Conta Nuno Franco, mediador comunitário da junta, 56 anos, que na reconquista cristã aos mouros (Cerco de Lisboa) que moravam em Alfama (al-hamma, nome árabe para banhos ou fontes) os vencidos refugiaram-se na Baixa da cidade, ocupando o quadrado limitado pelas ruas João do Outeiro, da Mouraria, do Marquês de Ponte de Lima e dos Cavaleiros. Entretanto, foi povoado por portugueses que migraram do campo para a cidade.

Visita pelos olhos de Rana e Toni

Visitamos a Mouraria pelos olhos de Rana Uddin, presidente do Centro Islâmico do Bangladesh e vice--presidente da Associação Europeia do Bangladesh, a viver há 25 anos na Mouraria. "Fui o sexto do meu país a chegar a Portugal." E pelos de António Loretti, mais conhecido por Toni, 68 anos, nascido no bairro. A mãe, Fábia Loretti, teve 21 filhos, o que é sublinhado numa placa na casa do casal e onde mora, agora, um irmão de António. "Nunca passámos fome, a minha mãe escrevia para toda a gente, até ao cardeal Cerejeira. O Sr. Igrejas Caeiro tinha um programa no qual dava 500 escudos [2,5 euros] a quem tivesse mais filhos e a minha mãe ganhou, para gastar na mercearia." As visitas começaram na Rua do Capelão, mas não acabaram no mesmo sítio.

Rana Uddin está particularmente satisfeito com a assinatura do acordo para a construção de uma mesquita na Rua da Palma e que espera ver pronta em 2018. "Quando cheguei, a Mouraria não tinha luz, estava quase morta. Agora tem animação, é uma cidade multicultural, as obras estão a pôr isto bonito. E os imigrantes também ajudaram, querem viver aqui." Fala enquanto sobe a Rua do Capelão, passando pelo Beco do Jasmim e Largo da Severa, calçada fechada ao trânsito e com bancos. Confirmam-se as melhorias, um ou outro grupo de homens à esquina, a lembrar que a zona não está livre de droga.

Aqui e li uma loja da Ásia, de onde é naturais 61% da população estrangeira da Mouraria. E 23,3% vieram do Bangladesh, segundo dados da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e da Associação Renovar a Mouraria. Mas, do lado direito da Rua dos Cavaleiros, para quem sobe, são mais os estabelecimentos de raiz portuguesa.

Atravessa-se os carris do elétrico para a Rua do Benformoso e o comércio altera-se. Supermercados e mercearias, com produtos vindos diretamente da Ásia, em especial do Bangladesh, talhos que só vendem carne halal (o abate é feito de forma a retirar o sangue do animal, halam, que é proibido na religião muçulmana, como o álcool. Os restaurantes Bangal, Paquistão, Índia e Comida Tradicional (portuguesa) abrem por todo o lado, são o negócio de sucesso mais recente. Estão previstos mais seis nos próximos meses. Lojas de telemóveis e eletrónica, de souvenirs, agências de viagens e, já nesta semana, um hostel.

Almoçámos no Bismilla, de Nasim Akter, 43 anos, que chegou a Portugal há sete. Fechou a mercearia e souvenirs que tinha para abrir o restaurante, já neste ano. Os clientes são conterrâneos, mas também há turistas e portugueses a querer provar a comida picante e com caril. "Vivemos no Príncipe Real, que se tornou extremamente turístico. Esta zona não está descaracterizada e tem uma gastronomia de outras culturas", justifica Nuno Gregório, 57 anos. E Manuela Cavaco, 53 anos, acrescenta: "Aqui há identidade cultural." Vieram recomendados por um amigo.

Voltámos à Rua do Capelão, onde na esquina com a Rua da Mouraria a guitarra portuguesa homenageia o fado e a Severa. Toni Loretti leva-nos ao museu que conta a história de um vizinho muito famoso, o fadista Fernando Maurício, e a exposição O Fado É o Meu Bairro. Ele não canta nem toca, mas é o organizador de muitos espetáculos de fado. Fala com emoção na Grande Noite do Fado de Santa Maria Maior, a recuperação da Noite do Fado que vai na segunda edição. Realizou-se há uma semana no Coliseu dos Recreios. "Encheu. Foi um grande espetáculo. E a Mouraria ganhou tanto nos homens como nas mulheres."

António Loretti trabalha na junta de freguesia, na manutenção, e apresentar o bairro aos forasteiros dá-lhe um prazer especial. Passámos pelo "melhor restaurante de Lisboa, o Zé da Mouraria, por largos e becos onde muito se canta e encanta, mais recentemente uma ópera. Algumas casas recuperadas, muitas com retratos de fadistas da fotógrafa inglesa Camilla Watson. Destaca os ali nascidos: Esmeralda Amoedo, Argentina Santos e Fernando Maurício.

Para terminar, uma ginjinha n"Os Amigos da Severa, onde no verão os turistas fazem fila à porta. António da Severa, nome artístico, 62 anos, ainda não abriu as portas, aqui o movimento é mais noturno. Uma hora depois, já se convivia no pequeníssimo bar, um vinho tinto e queijo. "A ginja é para os turistas." E os imigrantes: "São sossegados, não incomodam ninguém. Mas também não trazem benefícios. Dão emprego a eles próprios."

A requalificação levada a cabo nos últimos anos pela autarquia e junta de freguesia, agora a de Santa Maria Maior, presidida por Miguel Coelho, é elogiada à esquerda e à direita da Rua dos Cavaleiros. E também o trabalho das associações, como a Renovar a Mouraria. "Gosto de Portugal, o tempo é como no Bangladesh. Vim viver para aqui porque tenho necessidade de estar com quem conheço, com quem posso falar." Explica Mehbub Rahmam, 29 anos, que, depois de expirar o seu visto em Londres, esteve na Suíça e em Itália antes de chegar a Portugal. Foi em janeiro do ano passado e para residir na Rua do Benformoso, onde trabalha.

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