O xadrez e a dança ajudam a entender a sociedade e a escola

Desajustados, mas com capacidades acima da média. É a realidade de milhares de jovens na escola onde não recebem apoio

Nos olhos azuis de João cabe toda a curiosidade sobre o mundo inteiro e mais além. É um rapaz franzino no seu corpo de 9 anos, que começou a falar pelos cotovelos ainda bebé, como notavam as educadoras e auxiliares da creche. Os pais não tinham mais nenhum filho e por isso o termo de comparação não existia. Achavam tudo normal.

E assim foi, até que entrou no primeiro ano do ensino básico, numa escola de Leiria, e a professora percebeu que alguma coisa o diferenciava dos outros meninos da sala. Não tanto nas aulas (ao princípio), mas sobretudo nos intervalos, em que o mau comportamento recorrente fez crescer recados nas páginas da caderneta. Foi a perspicácia da professora que mudou o rumo da história. "Um dia chamou-me para me dizer que talvez o João tivesse capacidades acima da média, e que se sentisse desajustado nas aulas e na escola, mostrando-o nos intervalos, com outros meninos com quem pouco se identificava. Nunca usou a palavra sobredotado, mas eu e o pai percebemos que era isso que estava a querer dizer", conta ao DN Lúcia B, a mãe de João (chamemos-lhe assim), três anos após essa conversa que a fez entrar num mundo que desconhecia: o das crianças sobredotadas e respetivas famílias.

Um universo que pode chegar a mais de 80 mil alunos do milhão e 700 mil que se matricularam do ensino básico ao superior no ano letivo de 2014/2015 (os dados mais recentes do Ministério da Educação. Sendo que no ensino básico poderão ser mais de 30 mil. Alunos que têm dificuldades de integração e para os quais quase não há apoios nem muitos programas de integração na sociedade. Por isso recorrem a apoios de autarquias onde existem programas em que, por exemplo, a dança e o xadrez os ajudam a conviver e a integrar-se.

Apoio no Porto

Ao princípio, Lúcia B. entrou em negação. Começou a pesquisar, leu tudo o que apanhou pela frente sobre a matéria, e meses depois entrou no edifício da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas, no Porto, com o filho pela mão. "A nossa preocupação era encontrar um sítio que nos fizesse um diagnóstico credível. E logo nesse dia saímos de lá com a resposta".

Ou melhor, com uma resposta apenas, pois que a partir daí a vida deste casal nunca mais foi a mesma, começando então uma caminhada à procura de muitas outras respostas e apoios. "Começámos a ir ao Porto, regularmente, para que o João pudesse participar nas atividades dos "sábados diferentes". Era longe, dispendioso, e pensámos propor um projeto daqueles em Leiria. No colégio privado onde o filho frequenta agora o 4.º ano de escolaridade, o diretor ouviu as preocupações mas afastou a possibilidade de avançar com qualquer projeto por conta do estabelecimento de ensino. Foi assim que Lúcia e Telmo decidiram procurar o pelouro da Educação da Câmara Municipal de Leiria e expor o caso. A vereadora Anabela Graça lembra-se bem desse dia. E lembrava-se melhor ainda dos anos em que foi professora do ensino básico e secundário, enquanto ia observando os diversos casos de crianças e adolescentes "perfeitamente desenquadrados". Entrou em contacto com Helena Serra, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS) e foi assim que nasceu em Leiria o Programa Investir na Capacidade.

Feito o diagnóstico nos quatro agrupamentos que aderiram à iniciativa, "encontrámos 45 crianças nessas condições", num universo de 3744 que compõem os 2.º, 3.º e 4.º anos do ensino básico, contando com público e privado. Foi assim que nasceu o Programa Investir na Capacidade (PIC), ao qual aderiram 27 crianças. Desde novembro que, quinzenalmente, aos sábados, as salas da ESECS são tomadas de assalto por crianças a quem não bastam as respostas que a escola dá, durante a semana. Foi num desses que o DN acompanhou o grupo, numa manhã dedicada ao xadrez e à dança. Muitos são descoordenados, pouco habituados a interagir, mas naquela manhã as aulas de dança ajudam. Quando chegamos ainda se joga xadrez, como gente grande.

Programas em seis municípios

No território nacional há projetos semelhantes no Porto, Nelas, Vila Nova de Gaia, Beja e Lisboa, em parceria com a APCS. "Estão algumas centenas no âmbito deste projeto, mas a nível geral não sabemos o número exato, apenas que será três a cinco por cento da população escolar", disse ao DN Helena Serra, que desde 1986 embarcou numa cruzada pelo apoio às crianças e famílias nesta condição. A associação a que preside dedica-se à formação de professores, de pais, promove atividades de enriquecimento para grupos de crianças com capacidades superiores e também a investigação neste domínio. "Alertamos a sociedade para a "perda" social que representa o não investimento na sua melhor educação, o seu desenvolvimento pessoal e social e sua integração socioafetiva", sustenta aquela responsável, que lidera uma das duas associações que em Portugal se dedicam a apoiar os sobredotados. A outra é a Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação (ANEIS), fundada em 1998, com sede em Braga. Ambas têm vindo sucessivamente a apelar para a necessidade de apoio aos alunos e famílias. "Genericamente o ministério teve a preocupação de fazer definir em legislação algumas medidas a tomar com tais alunos, no plano educativo", acrescenta Helena Serra, embora saiba que nem sempre se cumprem. A presidente da APCS chegou a este universo há 30 anos, porque viveu (e vive) de perto "uma situação familiar deste tipo; porque sou especializada em educação especial e isso motivou-me para estudos aprofundados/formação nesta outra área em que a diferença significativa se pode evidenciar, e o sofrimento individual pode vir a revelar-se intenso".

Um despacho normativo de 2016 prevê "a diferenciação no currículo e nas estratégias de ensino-aprendizagem a ser definida num programa específico. Mas em geral, as escolas não sabem como identificar, as atitudes a assumir, como manter o gosto da criança na aprendizagem e a capacidade de se relacionar e interagir", enfatiza Helena Serra, que ao longos de 30 anos recebe na associação famílias "que veem os filhos desmotivados e descontentes nas escolas; por vezes não querem ir às aulas ou tiram baixos resultados apesar das suas capacidades".

Lidar com a diferença

Os pais de João - tal como os de tantos outros no país - esconderam da maioria de familiares e amigos o diagnóstico traçado no gabinete de psicologia da APCS. "Falámos com ele e penso que a partir daí também ficou mais tranquilo, porque percebeu o que se passava com ele, e notou-se uma grande diferença no comportamento. Mas queríamos protegê-lo do rótulo, nunca usamos a palavra sobredotado, e por isso muito poucas pessoas do nosso círculo sabem." Acontece que a partir do 5.º ano qualquer uma destas crianças, desde que diagnosticada, vê escrita na pauta a designação NES - Necessidades Educativas Especiais. "E isso preocupa-me, sim", conclui Lúcia. Telmo, o marido, criou no Facebook um grupo privado, para conversar com outros pais. "Todos temos as mesmas preocupações. Sobretudo como é que vai ser a partir da adolescência." E para isso, também ainda não há resposta.

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