"O que faço é mais ficção científica do que qualquer coisa que um escritor possa imaginar"

Almoço com Pedro Domingos, especialista em Inteligência Artificial

Encontramo-nos no Linha d"Água, onde Pedro Domingos esteve a dar a última entrevista da manhã. Os três dias passados em Lisboa foram assim de manhã à noite, a entrar e sair de conversas, e o regresso aos Estados Unidos será com viagem direta do aeroporto para a sala de aulas da Universidade de Washington, em Seattle, onde é investigador e professor de Inteligência Artificial, especialista em temas de aprendizagem automática. O trabalho que produz, capaz de revolucionar o mundo em que vivemos, e o livro A Revolução do Algoritmo Mestre, que escreveu a descomplicar o tema e que veio a Lisboa apresentar, justifica toda a atenção recebida. Mas esta avidez foi potenciada por um testemunho muito especial: Bill Gates recomendou-o como "leitura obrigatória para todos entendermos a Inteligência Artificial". Essa frase, em pena Code Conference e com a imagem do livro ao lado, não mudou a sua vida mas as vendas dispararam de imediato. "Tenho tido sorte, foi o livro certo na altura certa. Decidi escrevê-lo em 2012, na altura em que surgiu o big data mas pouco se falava nestas coisas e cinco anos depois quando chega ao mercado não há jornal ou revista que não fale de robôs."

Escrito em inglês e traduzido já numa dúzia de línguas, incluindo italiano, polaco, coreano, japonês, "o livro é uma introdução à Aprendizagem Automática para leigos", explica-me na espanada em frente ao lago do Jardim Amália Rodrigues, que traz alguma frescura a mais um dia de verão deste outubro. "Acaba com aquele mito do robô contra o homem, substituindo-o pela realidade que muito em breve será o homem com o robô contra o homem sem o robô. Porque os robôs podem tornar-se mais inteligentes do que nós sem que isso signifique que vão tornar-se maléficos ou matar-nos."

Desfazer mitos mais ou menos radicais - como os de quem acredita que a automação vai destruir milhões de empregos - é um dos objetivos do livro, que escreveu ele próprio por não encontrar entre os seus pares quem tivesse perfil para o fazer. "Não é muito comum encontrar engenheiros que também gostem de escrever, com conhecimento técnico e capacidade para descomplicar, e este livro era mesmo importante pelos custos que tem a desinformação: há milhares de empresas a deitar fora milhões de euros todos os anos por não terem o mais elementar conhecimento sobre automação e Inteligência Artificial, e na sociedade as discussões que são feitas partem de conceções totalmente erradas."

Já com os pratos de panados com salada recolhidos no self service do restaurante à frente, diz-me que o que realmente devia preocupa-nos não é a ascensão e o domínio das máquinas - que considera ser pura ficção - mas antes o papel importantíssimo que robôs burros já têm na nossa vida. "Há uma quantidade de decisões que já são tomadas por eles e nem nos damos conta. Aliás o problema nem é a maleficência, é a arbitrariedade e o aleatório."

Diz-me que a maioria das pessoas tomaria por ficção científica aquilo que já hoje é feito com recurso a máquinas que têm capacidade de aprender (é precisamente esse o foco da primeira parte de A Revolução do Algoritmo Mestre). "O iPhone, por exemplo, está cheio de algoritmos de Inteligência Artificial - a Siri, o reconhecimento de voz, o corretor ortográfico. Depois há a tradução instantânea no Skype, o feed do Facebook, os autores de updates que o Twitter mostra a cada um de nós, as sugestões que nos são dadas no Google são feitas a partir de dados gravados que o algoritmo usa para decidir que resultados lhe apresenta... os sistemas até sabem se eu tenho tendência para atrasar-me ou não. Há sensores por toda a parte e para o que podemos fazer deles o único limite é a imaginação."

Sendo sobretudo online que mais nos encontramos com este novo paradigma, Pedro garante que até já há empresas que usam este tipo de algoritmos para selecionar candidatos a empregos ou promoções. E conta que, nos Estados Unidos, um terço dos casamentos que se realizam todos os anos começaram em sites de encontros. O emparelhamento é feito através da aprendizagem, com origem no que as pessoas inscrevem no seu perfil - e que nem sempre é verdade, razão pela qual o algoritmo, que não é ainda muito bom, à partida assume que os potenciais apaixonados mentem na idade, e procura compatibilidades num escalão uma década acima do que é pedido.

São apenas alguns exemplos da importância de investir no desenvolvimento desta área, que nos últimos anos explodiu de tal forma que na Universidade de Washington há hoje poucos professores para tantos interessados em aprender. Fazendo parte de um dos melhores departamentos da área nos Estados Unidos, Pedro dá aulas de licenciatura, mestrado e pós-graduação a cerca de 100 alunos por ano. "As solicitações são tais que não basta os alunos quererem e terem nota para entrar, têm ainda de passar por um processo de seleção da universidade. E temos alunos verdadeiramente espetaculares." A dificuldade em receber mais estudantes prende-se também com a quantidade de investigadores que saem para a indústria - um caminho que nunca seduziu Pedro Domingos.

"Tenho tido convites continuamente, desde a IBM logo no início à Google, Uber, Amazon... e alguns bastante interessantes. Doutorei-me em 1997, dois anos depois da primeira explosão do data mining (processo de descoberta de padrões, interseções e estatísticas a partir de dados em grandes quantidades), a acreditar que um dia a Aprendizagem ia tomar conta do mundo. E de repente isto passou de uma área de emprego residual para uma loucura em que toda a gente queria contratar um especialista. Eu sempre preferi dedicar-me à investigação fundamental, que acho que terá um impacto muito maior quando chegarmos a algoritmos verdadeiramente bons. Aquilo que hoje existe, por comparação com as capacidades humanas, é uma coisa quase infantil."

É por aqui que passa também o seu livro, pela explicação do que é a Aprendizagem e os diferentes paradigmas em que tem origem - seja baseada em simular o cérebro humano ou a evolução, venha de ideias de Física ou de Biologia -, bem como de como se desenha o futuro previsível e das implicações para a nossa vida no que respeita a trabalho, privacidade, poder e guerra, etc.

Olhando à volta, para as mesas ocupadas com turistas a aproveitar um belo dia de outono ainda a cheirar a verão, as famílias a gozar o jardim e o lago, tenho a súbita sensação de estar numa realidade paralela, mas esta discussão - de certa forma ressuscitada da era da Revolução Industrial - já começa a fazer-se também do lado de cá. Um estudo recente da Comissão Europeia revela mesmo diferenças radicais na perceção e abordagem dos europeus à automação: os nórdicos muito mais abertos ao uso de robôs, os países do Sul a desconfiar que são o princípio do seu fim.

"É claro que vão desaparecer empregos mas muitos mais vão ser criados", acredita Pedro Domingos, explicando que o principal efeito será a mudança que os robôs trarão à maioria das funções. "As coisas serão feitas de forma diferente, com grandes fatias das funções automatizadas, e daqui a uns 15 a 20 anos um grande profissional, seja médico ou jornalista, será aquele que sabe fazer o seu trabalho tirando o melhor partido possível da ajuda dos computadores. É o homem com máquina vs. o homem sem máquina, o homem com tanque contra o homem com espada."

De resto, os processos evolutivos demoram o seu tempo e entende que o Ocidente, de tradição judaico-cristã, seja ainda vítima do complexo da criação que se volta contra o criador, uma espécie de monstro de Frankenstein que nunca fez caminho no Oriente. Mas se os robôs são vistos como amigáveis em países como a China, o Japão ou a Coreia do Sul, isso não torna estes povos imunes ao choque. "Ainda recentemente assisti à absoluta surpresa dos coreanos quando um computador venceu o campeão Lee Se-dol num jogo de Alpha Go, que é uma espécie de passatempo nacional naquela região. Eles próprios estão a adaptar-se", diz. E num futuro não muito longínquo em que as pessoas sejam complementares ao que as máquinas podem fazer, o fator humano será muito mais valorizado. "O futuro da automação é a personalização de tudo: o meu Mercedes será diferente do de qualquer outra pessoa, e isso envolve aprendizagem mas também criatividade e um conhecimento que as máquinas ainda não conseguem ter."

Já o almoço vai a mais de meio e pergunto-lhe como é que um miúdo português vai parar a Seattle a fazer vida da investigação num tema tão sofisticado. Conta-me que nos primeiros tempos da Inteligência Artificial, algures entre as décadas de 1970 e 1980, Portugal foi um dos primeiros países a ter uma importante comunidade. Acidente histórico, parece: no top das melhores universidades da área figuravam MIT, Carnegie Mellon, Stanford, mas também Edimburgo, onde muitos portugueses se doutoraram e que foi pioneira em Inteligência Artificial. "E ainda temos grandes nomes na investigação nos Estados Unidos, incluindo Manuela Veloso, Carla Gomes, Fernando Pereira e José Príncipe."

Quanto a Pedro, nascido numa família de engenheiros - só a mãe e a mulher (diretora de uma cadeira de jardins de infância) escolheram um caminho diferente do pai, irmãos e cunhados -, teve dificuldade em escolher o que queria seguir, já que tanto as letras como os números o atraíam. Acabou por se render à Engenharia Informática porque "dava uma incrível margem de criatividade que não se encontra noutras áreas de engenharia". E andava no Técnico quando encontrou um livro de Inteligência Artificial "pequenino, de 400 páginas. Explicava o essencial da Aprendizagem: por muito inteligentes que sejam as máquinas, se não conseguem aprender sozinhas já são piores do que o homem assim que saem da linha de produção".

Encantado com o conceito de uma área nova em que estava tudo por fazer e por descobrir, capaz de criar algo com impacto na Medicina como na Biologia ou em qualquer disciplina - e perante a improbabilidade de aparecer um novo Einstein em matérias estudadas há mais de 200 anos -, decidiu doutorar-se em Aprendizagem Automática. As melhores universidades estavam nos Estados Unidos e foi aí que apontou, acabando por entrar em Irvine, California com uma bolsa Fullbright.

E nessa altura aconteceu o que a mãe temia: apaixonou-se por uma americana, com quem veio a casar e de quem tem um filho de 11 anos. "Ainda voltei a Portugal, porque a bolsa a isso obrigava, e estive a dar aulas dois anos, mas depois mudei-me para lá e adaptei-me rapidamente. Claro que há lados bons e maus, mas por aquilo a que estamos expostos, há uma familiaridade superficial que facilita a adaptação. E a indústria estava toda ali."

Já com o meu café na mesa - que ele dispensa -, reconhece que a longo prazo a América é um local estranho e com muitas diferenças - e talvez essa particularidade, a par de um contexto muito específico, tenha contribuído muito para a eleição de Donald Trump. Desta presidência, diz que "é preciso aguentar estes anos e esperar que nada verdadeiramente mau aconteça". De resto sente-se em casa lá, onde vive há 20 anos, como cá, onde vem todos os anos nas férias de verão - no Natal visitam a família da mulher, de origem tailandesa.

Aos 52 anos, é praticante assíduo de atletismo e natação e não perde um bom filme ou livro. De ficção científica? "Tenho muitos colegas que adoram e eu próprio gostei durante muitos anos, mas cansei-me. Porque o nível literário não é o melhor, mas sobretudo porque percebi que a realidade anda mais depressa do que a ficção. O meu trabalho é mais ficção científica do que qualquer coisa que um escritor possa imaginar."

Quanto ao universo das invenções mais rápidas, acredita que acontecem por uma conjugação de fatores e se hoje ainda não temos os carros voadores que qualquer obra do género imaginava serem banais nos anos 2000, garante que companhias como a Uber estão a trabalhar nesse tipo de soluções. "Há coisas que caem no ridículo mas depois se tornam viáveis. Por exemplo, eu lembro-me de se ridicularizar a videoconferência e hoje normalizou-se. Ao mesmo tempo aconteceram coisas que ninguém imaginava, como os telemóveis. O (escritor) William Gibson dizia que o maior erro que cometeu no seu Neuromancer - o livro que inventou o ciberespaço - foi que as pessoas daquele mundo futurista iam telefonar à cabine. Há décadas, o telemóvel era inimaginável. E nada mostra melhor a cultura de uma época do que a sua visão do futuro."

Acasos à parte, haverá prioridades no desenvolvimento da Inteligência Artificial. Mas também há dificuldades tecnológicas que condicionam a evolução, explica. "Nada é mais fácil do que imaginar um carro voador mas é extremamente difícil de fazer."

Nas primeiras décadas de Inteligência Artificial, pensava-se que daí a 20 anos já haveria computadores mais inteligentes do que os seres humanos, mas estamos longe disso. "Porque a inteligência é algo de intuitivo para nós", justifica. E no fim de contas, o progresso é condicionado por dificuldades tecnológicas, mas também pelo que as pessoas querem. "Por exemplo, ninguém previu a existência das redes sociais, foi uma possibilidade tecnológica que se encontrou com uma necessidade humana e as coisas evoluíram rapidamente." E nisto também o interesse e empenho pesam muito. Veja-se a China, que há 20 anos nem existia nesta contabilidade, e está hoje com os Estados Unidos, o Japão, a Coreia e Singapura na linha da frente da Inteligência Artificial - na Europa, Inglaterra, Alemanha e França dão cartas.

Antes de irmos embora, porque tem mais uma bateria de entrevistas marcadas para a tarde, pergunto-lhe com que gostava de contribuir para o mundo. Um algoritmo muito inteligente? "É esse o meu objetivo", assume. "Para mudar alguma coisa hoje pode seguir-se o caminho sociológico, que é muito difícil - porque, mesmo que seja uma mudança para melhorar a vida de todos há sempre resistência, e muitas vezes de alguns que não estão interessados na mudança - ou a via tecnológica. E nesse aspeto a tecnologia é ótima, porque cria mudança por existir, ao inventar algo novo, e consegue-se alterar as coisas antes de os adversários se aperceberem que a mudança está a acontecer."

Na sua área, os algoritmos são o centro de tudo. "Não há nada mais poderoso do que inventar algoritmos de Aprendizagem." Qual é a diferença entre esses e o que já conhecemos? "Se eu quiser programar um computador para jogar xadrez tenho de lhe explicar como se joga, para guiar como se guia; o algoritmo de Aprendizagem é como uma chave-mestra: um único ensina como se joga, guia, faz diagnósticos médicos, etc. Se eu inventar o melhor algoritmo de Aprendizagem, o impacto será brutal."

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Nuno Artur Silva

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