O que aconteceu ao velho pó de talco? Foi destronado por cremes e pomadas

Saúde. Depois de a Johnson & Johnson ter sido condenada por uma alegada ligação entre a utilização de pó de talco e um caso de cancro levantaram-se questões quanto à segurança do produto.

Era um clássico em qualquer enxoval de bebé. Durante décadas, o pó de talco era usado após cada muda de fralda para prevenir assaduras. Mas há muito tempo que os pediatras deixaram de o recomendar, tendo sido substituído por cremes e pomadas. Recentemente, o clássico pó de talco da Johnson & Johnson voltou à ribalta: a empresa foi condenada a pagar uma indemnização de cerca de 65 milhões de euros à família de uma mulher, de 62 anos, que morreu vítima de cancro dos ovários, alegadamente relacionado com a utilização do produto. Embora existam outras denúncias contra a J&J, os responsáveis garantem que o talco é seguro.

Apesar de ter deixado de ser indicado para os rituais de cuidados dos bebés, o pó de talco continua a ter muitas utilizações. É usado, por exemplo, na higiene íntima das mulheres, ou pelas esteticistas antes da aplicação da cera. Nos últimos anos, têm surgido vários estudos que relacionam a sua utilização com o aparecimento de cancro nos ovários. É o caso de uma investigação feita em 2013 por médicos do Brigham and Women"s Hospital, em Boston (EUA), que concluiu que quem usava o produto aumentava em 25% a probabilidade de sofrer de cancro. Mas, apesar das inúmeras pesquisas, ainda não foi possível estabelecer uma relação de causa-efeito. A Agência Internacional de Investigação para o Cancro, órgão da OMS, classifica-o como "possivelmente cancerígeno para os humanos".

A família de Jacqueline Fox avançou com um processo, argumentando que a J&J conhecia os riscos do pó de talco, mas não informou os consumidores. Considerando que a empresa falhou, o Tribunal de St. Louis decidiu condená-la ao pagamento de 65 milhões de euros, acusação negada pela Johnson, que entretanto irá recorrer. No blogue da empresa, é reforçado que o produto tem mais de cem anos de uso, estando a sua segurança devidamente comprovada.

Desde os anos 70, dizem os responsáveis, que o talco deixou de conter amianto. Mas, mesmo assim, há estudos que o ligam ao aumento do cancro. "A segurança do talco está baseada numa longa história de uso seguro e mais de 30 anos de investigações feitas por investigadores independentes, comissões científicas e autoridades", destaca a J&J. Os dois únicos estudos de grande escala - Nurses" Health Study (2010) e o Women"s Health Initiative Observational Cohort (2014) - "não encontraram nenhuma relação causal entre o talco e o cancro do ovário".

Pediatras não recomendam

"O principal problema é a possibilidade de inalação de partículas. Foi essa a grande razão pela qual deixou de ser recomendado", explicou ao DN o pediatra Hugo Rodrigues. Embora tenha caído em desuso, o pó de talco "cumpriu o seu papel" durante largos anos: "Era uma forma mais ou menos eficaz de manter a pele seca quando se usavam as fraldas de pano e ainda no início das descartáveis." No entanto, hoje sabe-se que "é irritante e a sua acumulação pode conduzir a problemas respiratórios".

Atualmente, explica Hugo Rodrigues, "as fraldas absorvem mais e a pele está mais protegida do ponto de vista físico". No lugar do pó de talco, são usados "pomadas e cremes reparadores da pele, muitos deles com zinco e que hidratam e fazem barreira física". Por vezes, diz o pediatra, "aparece um ou outro bebé com pó de talco, mas não é frequente".

Um produto cosmético, como o pó de talco, não é objeto de uma autorização administrativa prévia para ser colocado no mercado. Segundo as indicações que surgem no site do Infarmed, sempre que uma empresa quer lançar um cosmético deve registá-lo no CPNP (Portal de Notificação de Produtos Cosméticos). "A pessoa responsável deve certificar-se de que, antes de os colocar no mercado, foram submetidos uma avaliação de segurança para a saúde humana, tendo em consideração o perfil toxicológico geral dos ingredientes e do produto final." Caso surjam efeitos indesejáveis, os produtos podem vir a ser retirados do mercado. Em Portugal, cabe ao Infarmed "prevenir e gerir os riscos relacionados com a utilização dos produtos cosméticos".

Embora nos EUA existam várias queixas contra a Johnson & John-son, em Portugal nem a Deco nem o Infarmed têm registos de qualquer reclamação relacionada com o produto.

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