O piloto que viu Humberto Delgado criar a TAP

A partir de hoje o aeroporto de Lisboa passa a ter o nome do General Sem Medo. Aos 93 anos, o comandante Roque Brás de Oliveira recorda o homem "austero e empreendedor"

Ainda faltava um ano para a TAP ser fundada quando Roque Brás de Oliveira conheceu o general Humberto Delgado. O antigo comandante da TAP frequentava na época (1944) o primeiro curso de controladores aéreos quando ele e os seus colegas de curso receberam a visita do homem que a partir de hoje dá nome ao Aeroporto de Lisboa. Para a história ficou uma fotografia, mas o contacto com aquele que foi o primeiro e único diretor do secretariado da aeronáutica civil era limitado. "Quem estava mais no aeroporto era o coronel Beja. Convivi mais com o filho do general, que era da minha geração. Quando ele foi à torre de controlo devia já estar na casa dos 40, 50 anos e eu tinha 21."

Brás de Oliveira assistiu ao nascimento da TAP em 1945, por ordem de serviço do General sem Medo - cognome que lhe ficou por em 1958 ter dito que demitia Salazar se fosse eleito Presidente da República. Sentado no seu jardim de inverno, onde está rodeado de mapas e livros sobre aeronáutica, o antigo piloto, hoje com 93 anos, interrompe a música clássica para lembrar os anos de Humberto Delgado na companhia aérea e a sua própria carreira. "Ele era um homem muito austero, pelo menos era a ideia que tinha dele. O que era para se fazer, fazia-se. Mas era um empreendedor, como se diz agora, voou muito para os Estados Unidos, onde se mantinha a par das novidades na aviação. Foi ele que trouxe os Dakota para Portugal, que estão ligados ao início da minha carreira como piloto." É também ao general que se deve a rota que mais marcou a vida de Roque Brás de Oliveira: "A Linha Aérea Imperial." Uma ligação comercial entre Lisboa-Lu-anda-Lourenço Marques (atual Maputo) que demorava sete dias (só ida) e tinha 12 escalas. O comandante faria esta ligação durante 20 anos (de 1952 até que esta foi extinta, em 1972), pelo meio ficam as histórias das partidas que se pregavam aos passageiros - poucos, o "avião só tinha lugar para dez, o resto era carga" - quando se passava a linha do Equa- dor e as trocas em cada escala. "Levávamos fruta e trazíamos marisco."

Apesar da ligação à TAP, Roque esteve quatro anos em comissão de serviço na Aero Portuguesa, nas ligações em Marrocos. Portugal era o único país a operar aqui durante a II Guerra Mundial, o que levou a que os aviões da companhia fossem imortalizados no filme Casablanca (ver caixa). E no fim das ligações, em 1953, "até fui entrevistado para a rádio Marrocos por ser o último piloto a fazer esta rota". Com o fim da Aero Portuguesa, regressa à TAP. É aí que começa a fazer a Linha Aérea Imperial. E é dessas viagens que resultam a maioria das 22 400 horas de voo que fez. Deixou de pilotar aos 60 anos "porque me cortaram as asas", justifica. A lei a isso obriga. Estávamos em outubro de 1983 e o voo foi Rio de Janeiro-Lisboa.

Agora os laços à casa onde passou 40 anos passam mais pelo sindicato do qual também foi um dos fundadores e cujas lutas até o levaram a ser despedido. Na sequência de uma greve em 1977, perante a ameaça de requisição civil, o comandante mostrou o seu desagrado e disse que não iria voar nessas condições. Acabou por ser o presidente da República de então, Ramalho Eanes, a intervir e a acabar com a paralisação. Depois o presidente da TAP quis nomeá-lo diretor de operações de voo, mas Brás de Oliveira recusou e acabou demitido. Os colegas solidarizaram-se, e o comandante foi readmitido.

Nunca perdeu a ligação aos aviões, que começou quando "tinha uns 7 anos e ouvia na rádio as histórias da travessia do Atlântico Sul feita por Sacadura Cabral e Gago Coutinho". A quem Portugal ainda não fez a devida homenagem, acredita. Hoje, vai estar atento à mudança do nome do aeroporto onde começou por controlar aviões e acabou a pilotá-los. "A importância política que Delgado ganhou mais tarde justifica a mudança."

A cerimónia está marcada para esta manhã e vai contar com a presença do Presidente da República (que é padrinho de um neto de Brás de Oliveira), o primeiro-ministro e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Organismo que propôs esta alteração, no ano passado, por ocasião dos 50 anos do assassínio do general. O batismo do aeroporto acontece quando passam 110 anos do seu nascimento.

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