"O país ficou à mercê dos incêndios e dos incendiários"

O presidente da Liga de Bombeiros Portugueses acusa as autoridades de proteção civil de terem reduzido os meios de combate

A redução de meios humanos e materiais de combate às chamas na passagem da fase Charlie para a fase Delta deixou o país numa situação muito vulnerável, segundo o presidente da Liga de Bombeiros Portugueses (LBP). "Houve um corte superior a 80% nos meios de combate. O país ficou à mercê dos incêndios e dos incendiários", disse ao DN Jaime Marta Soares, que acusa a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) de "falta de planeamento e de previsão".

Jaime Soares frisou que se sabia "que íamos ter quase um prolongamento do verão, com temperaturas altas, baixas taxas de humidade e ventos atípicos, mas nada foi feito para prevenir o que veio a acontecer". Para a Liga, fazia sentido "prolongar a fase Charlie, admitindo-se um pequeno corte de 20% nos meios ou, no máximo, de 30%". Mantendo a estrutura, frisa o presidente da Liga, seria possível "responder de imediato a uma situação que era previsível".

De acordo com a informação disponível no site da ANPC, ao final do dia de ontem estavam ainda a lavrar cinco fogos de grande dimensão no País, um dos quais - o de Terras de Bouro (Braga) - já em fase de resolução. Com quatro frentes ativas, o incêndio da Pampilhosa da Serra, no distrito de Coimbra, era aquele que mobilizava mais meios: 639 operacionais e 194 meios terrestres.

O agravamento da situação no concelho devido à "mudança dos ventos" levou o presidente da Câmara Municipal, José Brito, a ativar o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil, ontem, as 17.00. Uma medida que visa facilitar a mobilização de todos os meios disponíveis no concelho para auxiliarem nas operações de combate ao incêndio florestal que ali deflagrou na noite de sexta-feira. Ao final da tarde, as chamas continuavam a progredir com "grande intensidade", mas não existiam povoações ou habitações ameaçadas.

Na opinião do autarca, são necessários "mais meios", pois "os bombeiros estão exaustos" e são insuficientes para atacar as frentes ativas e, simultaneamente, fazerem os trabalhos de consolidação, rescaldo e vigilância, para "evitar reacendimentos".

Já o incêndio de Ourém, no distrito de Santarém, tinha três frentes ativas ao início da noite e mobilizava 201 operacionais e 64 meios terrestres. No distrito de Viseu, estavam ainda em curso os incêndios nos concelhos de São Pedro do Sul e Vila Nova de Paiva. Os dois estavam a ser combatidos por 245 efetivos, 78 viaturas e um meio aéreo.

No mesmo distrito, mas no concelho de Mortágua, o fogo que começou no sábado foi considerado dominado, ontem, antes das 16.00. Em declarações à Lusa, o autarca local disse não ter qualquer dúvida de que o incêndio que lavrou naquele município teve origem criminosa. "Não tenho qualquer dúvida de que foi fogo posto. Não sei com que motivação, mas não tenho qualquer dúvida. Agora, é tempo de a Polícia Judiciária tratar desse assunto", afirmou José Júlio Norte.

Recorde-se que, este sábado, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, disse que vários dos incêndios florestais que deflagraram nos últimos dias no país têm "origem criminosa". "Isto é algo de anormal, não só pelo tempo", caracterizado por um longo período de seca e com elevadas temperaturas, mas também porque muitos destes incêndios "começaram à noite", sublinhou.

Durante o dia de ontem, o Exército português disponibilizou 212 militares, quatro máquinas de rasto e 51 viaturas para apoiar o combate aos incêndios. Estavam a apoiar as operações de Pombal, Mortágua e Pampilhosa da Serra, e no patrulhamento em Bragança, Vila Real e Viseu. Com Lusa

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