"O nosso sonho não é vender um produto, é mudar o mundo"

O cérebro ainda tem muitos segredos, mas, do que já se sabe, é um manancial de prodígios. O neurocientista Rui Costa e a sua equipa descobriram uma forma expedita de pôr o cérebro a conversar diretamente com as máquinas, para as controlar.

Como surgiu a ideia de criar a Mindreach?

Dos nossos trabalhos sobre a neurociência da aprendizagem. O modelo a que chegámos através desse estudo, de como aprendemos a fazer coisas é que experimentamos e, à medida que o fazemos, selecionamos os padrões cerebrais que funcionam. Fazer uma ação muito habilidosa significa que a pessoa ativou os padrões cerebrais certos. Portanto, deveríamos poder agarrar nos padrões cerebrais e dar feedback direto à pessoa, propondo-lhe que aprenda a controlar os padrões cerebrais. Fizemos isso em animais, e agora, de forma não invasiva, em pessoas. Percebemos que esse conceito geral podia ser aplicado e que havia interesse em criar uma startup.

Estão a inventar o futuro?

Sim. Quando percebemos que funcionava, tivemos de fazer tudo cientificamente, melhorar os códigos, as ideias. Temos falado e discutido muito, e muito apaixonadamente. A patente deste sistema cobre algumas das coisas que estamos a desenvolver. Quando começámos, havia quem achasse isto brilhante e genial, e havia quem dissesse que era uma loucura. Hoje o Facebook e a Google estão a apostar neste tipo de tecnologias. Não têm a nossa abordagem, mas nós achamos que isso é uma vantagem nossa, porque as pessoas que fizeram um ciclo de treino, ao fim de dois anos lembram-se. É como andar de bicicleta, que era o que nós queríamos. Que a pessoa aprenda, e que possa generalizar, de forma a controlar uma bola no ecrã do computador, ou outra coisa qualquer. Depois de aprender, a pessoa já não precisa de nenhuma estratégia, pensa na bola a ir para cima, e ela vai. Achamos que isto é o futuro. Na medicina, claro, mas também no dia-a-dia, para melhorar a nossa vida.

Por exemplo?

O cérebro tem possibilidade de fazer coisas que nós não sabemos. Queremos ligar o cérebro diretamente a máquinas para fazer diretamente as coisas. No futuro podemos até ter memórias que estão deslocalizadas no computador. E a informação pode ser ainda maior se acharmos uma forma de integrar e depois de processar e usar essa informação para fazer coisas. No futuro, pode não estar tudo dentro do cérebro. O nosso sonho não é vender um produto, embora pense que isto tem um impacto comercial brutal. O nosso sonho é mudar o mundo.

E pode mudar o mundo para melhor?

Pode, no sentido em que permite às pessoas usar melhor o cérebro. Por exemplo, com um jogo que capta as formas mais intuitivas do cérebro aprender, que se pode produzir muito barato e distribuir pelo mundo inteiro, para melhorar a aprendizagem. Ou nos problemas de atenção. Nós todos vivemos com um corpo e temos isso mapeado no cérebro, mas conseguimos fazer muito mais do que aquelas que o corpo permite, à medida que vamos inventando instrumentos. Mas por que precisamos de passar do cérebro para mão e da mão para o computador, ou para o controlo remoto, que a partir dali vai via wireless para a máquina? Desta forma posso enviar o comando diretamente do cérebro para a máquina. É essa a ideia.

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