O mistério da morte do padre Marco: suicídio ou homicídio?

Tinha 38 anos, era escuteiro, amante da tecnologia. Os amigos descrevem-no como bem-disposto e otimista. O corpo foi encontrado na praia, e só a autópsia e a investigação vão desvendar o mistério.

Entre a aldeia de Lavegadas (onde nasceu), na freguesia de Monte Redondo, e a paróquia de Maceira, no mesmo concelho de Leiria, paira o mistério em torno da morte do padre Marco Brites, que hoje vai a sepultar. Desde que um pescador encontrou o corpo, na quase inacessível praia das Valeiras (perto de São Pedro de Moel), na manhã de quarta-feira, que sobram dúvidas aos amigos e familiares. E à Polícia também.

"O cadáver não apresentava qualquer lesão, tão-pouco a roupa se encontrava rasgada", disse ao DN fonte da Polícia Marítima, que o recolheu. Nessa altura ainda não se sabia que o corpo arrojado no areal era de Marco Paulo da Silva Brites, 38 anos feitos a 15 de Abril, ordenado padre em 2007, e desde 2016 responsável pela paróquia de Maceira. Foi lá, entre a casa paroquial e a Igreja matriz, que terá sido visto pela última vez, na noite de terça-feira, 05 de junho, "a conversar com outra pessoa", como garantem testemunhas. Mas o padre Marco faltou ao primeiro compromisso nessa mesma noite: uma reunião com o agrupamento de escuteiros 762, da localidade, de que era assistente. Enviou um sms a avisar que não poderia estar, por se encontrar "a resolver um assunto delicado". "Como qualquer um pode ter um imprevisto, ninguém estranhou", conta um dos membros do grupo.

O mesmo não aconteceu na manhã seguinte, quando a sacristã Maria deu conta do irregular atraso do padre, para a bênção dos doentes no lugar do Arnal. "Quando a encontrei, estava farta de lhe ligar para telemóvel e ele não atendia. A porta estava fechada e o carro estacionado na garagem", contou ao DN Maria Idalina Marcelino, esta quinta-feira, enquanto aguardava saber a hora do funeral, entretanto marcado para as 11h30 desta sexta-feira.

À medida que se adensavam os sinais de desaparecimento, um alvoroço de polícia e bombeiros tomou conta do adro da igreja e da casa paroquial. As autoridades concluíram então que o padre Marco deixara a carteira, o telemóvel e as chaves de casa. E se na véspera os membros da comissão da Igreja (reunidos no salão, na cave da casa paroquial) asseguravam ter visto o Mercedes Smart azul parado à porta, luz no interior da casa já perto da meia noite, e a perceção de que o padre lá estaria, acompanhado por alguém, a partir do momento em que se descobriu que o corpo encontrado perto de São Pedro era do padre Marco, as testemunhas calaram-se.

Quinta-feira à tarde, no café da Barroquinha - onde o sacerdote era presença habitual, no jeito descontraído com que todos os lembram - uma dúzia de pessoas lamentava a tragédia. "Eu não o via desde domingo, desde a missa dos doentes, que ele celebrou. Mas achei-o sempre bem, sempre com uma palavra amiga para toda a gente. Quando o meu filho chegou a casa e me disse "mataram o padre Marco", nem quis acreditar", desabafa Maria Idalina, certa de que a hipótese de homicídio é a mais plausível. "Diga-me lá como é que ele ia a pé mais de 15 km, de noite, para a tal praia? Alguém o levou daqui." Crisóstomo Portela alinha na mesma opinião. Acompanhou as buscas dos bombeiros e da GNR na Maceira, viu chegar os padres das Vigararias de Leiria e Marinha Grande, e mais tarde recebeu a notícia com estupefação.

Desentendimentos na diocese

O padre Jorge Guarda, vigário-geral da diocese de Leiria-Fátima, recusa a hipótese de suicídio. "Ele andava bem disposto, e isso foi presenciado até pelas pessoas que estiveram com ele. Por isso não acredito." Os amigos falam de um desentendimento com um outro jovem padre, ordenado recentemente. Confrontado com o facto, o vigário responde que "isso foi há quase um ano" e recusa alimentar o episódio. Quem acompanhou o diferendo assegura que a diocese "apoiou-o pouco". O caso faz regressar uma velha discussão no seio da Igreja: a solidão dos padres e o tanto que muitos se sentem pouco apoiados. Nelson Araújo, atual chefe de gabinete da presidente da Câmara da Marinha Grande, sabe bem o que significa esse abandono. Deixou de ser padre em 2007, precisamente na altura em que Marco Brites foi ordenado, mas ainda se cruzou com ele no seminário, em Coimbra. Nos dois anos em que viveu mergulhado em dúvidas, sentiu falta desse apoio. "A mim, que vivi dias e momentos de muita angústia e solidão, [ a morte do Marco] deixa-me a interrogação de sempre: onde está a fraternidade sacerdotal que (nos) deveria amparar, acompanhar e suportar nestas horas?", questiona.

Da queima das fitas aos computadores

A notícia da morte de Marco Brites apanhou de surpresa o amigo Orlando Marques, antigo colega de seminário, que ao final do percurso decidiu manter-se leigo, e não chegou à ordenação. É professor de Religião e Moral na escola da Caranguejeira, outra freguesia de Leiria. "Durante sete anos partilhámos tudo: a mesma casa (o seminário), as viagens de carro - éramos os únicos da diocese de Leiria."

Dessa época existe um episódio que marcou a passagem de Marco Brites no seminário, quando, à conta de uma paixão, Marco quase morreu de amor. Os colegas não gostam de falar sobre o assunto, mas o DN sabe que foram eles quem evitou (na altura) o pior: Marco terá ingerido herbicidas, deixando uma carta em jeito de despedida. Os amigos seminaristas chegaram a tempo e encaminharam-no para o hospital, onde uma lavagem ao estômago resolveu o assunto. Orlando prefere não comentar, e antes recordar a "pessoa positiva" que Marco era". Ficam para a história as peripécias que ambos viveram ao tempo de seminaristas, como as escapadelas do seminário até aos concertos da Queima das Fitas. "Os do Quim Barreiros eram sagrados", lembra o professor.

O padre Marco Brites gostava de música, de computadores (construiu o seu, comprando as peças separadas, enquanto estudava no seminário) e de conviver com os jovens. Era frequente sair à noite com os escuteiros, acompanhá-los nas idas aos bares, mesmo enquanto pároco de Maceira - e dirigente do agrupamento 762. "Esta tristeza, esta angústia quase desespero invade-nos hoje. São muitas perguntas sem resposta, muitas incertezas que nos confundem, muitos olhares que se cruzam incrédulos", escreveu a direção do agrupamento na página de Facebook. Esta sexta-feira, o padre Marco Brites vai a sepultar, no cemitério de Monte Redondo, ao início da tarde. De manhã, a partir das 11, há uma missa de corpo presente na Igreja da Maceira, onde celebrava. Os escuteiros pedem à população que leve rosas brancas. Enquanto isso, a Polícia Judiciária procura respostas para a dúvida que assola a todos: matou-se ou mataram-no?

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