"O melhor de cada um" fez de uma escola rural uma das melhores

A Básica e Secundária de Vila Cova tornou-se notícia ao ser destacada como a escola que mais faz progredir os seus alunos, com um projeto assente numa "fórmula" de sucesso. Mas fica desde já o aviso: exige muita paciência, dedicação, esforço e paixão pelo que se faz. Até sábado o DN está a publicar um conjunto de reportagens sobre escolas que, por motivos diferentes, são referências a nível nacional.

No seu gabinete da Básica e Secundária de Vila Cova, o diretor, Alberto Rodrigues, coleciona referências à escola na comunicação social. Os prémios (Montepio e Gulbenkian) conquistados graças a um projeto de leitura digital, com milhares de obras digitalizadas e mais de uma centena de e-readers, que os alunos podem levar para casa. E, claro, o primeiro lugar no indicador dos Percursos Diretos de Sucesso.

Mostra-nos um vídeo onde, num canal de notícias, o autarca de Lisboa, Fernando Medina, elogia a escola. Não é vaidade, garante. "Não tenho dúvidas de que para o ano estará lá em cima outra escola. São pequenas variações. Basta uma geração de alunos ser ligeiramente diferente da anterior para que os resultados também mudem", explica. O verdadeiro objetivo daquela coleção é recordar - a ele e à escola - que só "mantendo a consistência" no trabalho será possível continuar a ter bons resultados. E, sobretudo, não esquecer qual foi o ponto de partida.

Em 2000, quando - na sequência de umas atribuladas eleições - foi convidado a integrar uma espécie de "junta de salvação", a realidade era bastante diferente. "A escola estava nas ruas da amargura. Os resultados eram péssimos, muito baixos, havia muitos alunos mais velhos na escola. Alunos de nono ano que saíam daqui com 17, 18 anos. Era muito difícil e pouco atrativo, até para os professores", descreve.

Pode dizer-se que esta era uma daquelas escolas em que os professores tentariam por todos os meios evitar ser colocados. Mas já não é. Bem pelo contrário. Cristina Alves, professora de Matemática, há quase 20 anos na escola, não se imagina noutro local. "Os professores gostam de cá estar. Às vezes podiam estar mais próximos de casa. Eu própria tenho uma escola a 500 metros de casa e no entanto faço quinze quilómetros para vir para aqui", conta. "Gosto do trabalho, gosto das pessoas, gosto do ambiente", acrescenta, explicando que o facto de os pais "verem a importância da escola" é uma das maiores motivações: "Num meio com tanta precariedade em termos de trabalho eles veem a escola como um ponto de partida para ascender até a classes sociais diferentes."

Marisa Lopes, professora de Educação Especial, orgulha-se de dizer que os alunos com necessidades educativas especiais estão "totalmente" incluídos na escola. "São tratados como qualquer outro aluno. Não lhes damos o mesmo, porque eles não precisam do mesmo. Ser justo não é dar o mesmo: é dar o que cada um precisa, o que é necessário", defende. "E há um respeito, da parte da direção, dos funcionários, dos professores, dos próprios colegas. Não temos aqui problemas de indisciplina, de algum tipo de exclusão."

Dar a cada aluno aquilo de que este precisa parece, aliás, ser uma máxima da escola. O "trabalho de formiguinha" que, segundo o diretor, está na base da "qualidade" que a escola tem vindo a ganhar, passa muito por "exigir o melhor de cada um" mas também por dar a cada um as ferramentas necessárias para explorar o seu potencial.

"Não há uma receita que eu possa dar, que se siga e está implementada. É preciso vencer várias barreiras ao longo do tempo", avisa Alberto Rodrigues. "A exigência é o caminho para o sucesso", considera, incluindo-se a si próprio e a todo o pessoal da escola nos alvos dessa exigência. E também os alunos, claro. Mas com uma regra básica: "A escola tem de ser um local onde as crianças se sentem bem e são felizes. Têm de ser felizes na escola para aprenderem."

Avesso aos rankings baseados apenas nos resultados dos exames nacionais - apesar de esta escola até já ter sido a melhor pública a nível nacional nos exames de Português do 9.º ano - diz que o "sucesso passa tanto por trabalhar com um aluno que chega à escola com grandes dificuldades, fazendo-o evoluir com a ajuda dos professores, como fazer um aluno que já tem 14 ou 15 valores ganhar um ou dois pontos".

Fátima Ponte, Luís Simão, Daniel Carvalho, Mariana Sá e Maria João Rodrigues moram todos em Vila Cova ou Feitos, uma povoação próxima. Têm 16 e 17 anos, estão no 11.º ano, e fazem parte da geração de alunos que acompanhou a evolução da escola e, mais tarde, teve os resultados que deram a esta um lugar de destaque no mapa educativo. Sabem que moram e estudam longe dos grandes centros. Mas não se sentem isolados. "Apesar de estar no meio rural, o facto de a escola ser pequena e de nos conhecermos uns aos outros e os professores a nós ajuda. Ajudamo-nos entre nós, conseguimos tirar dúvidas. Nos intervalos podemos ir ter com o professor e ele ajuda-nos logo", conta Mariana. "Apoiamo-nos uns aos outros e somos mais próximos", confirma Daniel. Querem todos ir para a universidade. Luís "gostava muito de seguir Física. Desde pequeno que gosto de Física, de Astronomia". Mariana "gostava de seguir para a área da Saúde". Os seus sonhos, sentem, são também dos pais, "que não tiveram as mesmas oportunidades" e que "passaram e ainda passam por dificuldades e esperam um futuro melhor para nós".

Na Wikipédia, Vila Cova é descrita em três parágrafos. E dois deles para dizer que está a 10 quilómetros de Barcelos, oito de Esposende e foi agregada numa freguesia com Feitos em 2013. Porém, graças à sua escola e aos seus alunos, tudo indica que há ainda muitos capítulos por escrever sobre esta terra.

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