"O livro escolar é uma arma de arremesso em Portugal"

Almoço com Vasco Teixeira, diretor da Porto Editora

Se há coisa que o Norte sabe é receber, por isso quando me sugeriram a visita ao Porto não me custou mesmo nada aceitar o convite. E tive tanta sorte que a chuva inesperada de julho parou minutos antes de o Alfa chegar e quando saí da Campanhã para a Rua da Restauração já havia sol suficiente para não deixar mal a cidade. O encontro com Vasco Teixeira estava marcado para a sede da Porto Editora, que lidera, onde voltaríamos depois do almoço para que eu visse em detalhe tudo quanto ali se faz - e ainda bem, pois de outro modo não acreditaria que as instalações de uma editora, ainda que das maiores do país, integrassem estúdios de gravação áudio e vídeo, equipas de analistas de dados, especialistas em áreas como o digital, o multimédia e o software e professores de todas as disciplinas, além dos tradicionais editores, paginadores, gráficos e afins. Para outra altura, com mais tempo, ficou guardada a visita à gráfica - um complexo ultramoderno, com excelentes níveis de reciclagem e autossustentação energética, na Maia, onde são impressos e armazenados todos os livros produzidos pela editora que nasceu há 73 anos da vontade de um grupo de 19 professores e onde hoje trabalham 1400 pessoas.

Por agora, ficamos pelo Porto e Vasco Teixeira escolheu um dos sítios mais bonitos da cidade para conversarmos. Ao fundo da esplanada do Oporto Café, virada para a foz, ali mesmo onde o rio se faz mar e o cheiro a sal nos conforta, o diretor editorial da Porto Editora vai desfiando a história do pai, professor de Química e o mais novo do grupo de fundadores, empurrado para a liderança aos 27 anos e que acabou por ficar dono da casa à medida que os herdeiros dos seus sócios se foram desfazendo das participações. "Eu e os meus irmãos [a irmã mais velha e o irmão mais novo também trabalham na Porto, nas áreas editorial e financeira] crescemos ligados à empresa, a ir lá aos fins de semana, a escutar as conversas ao jantar..." E isso talvez justifique que Vasco, formado em Engenharia Civil e ainda hoje visivelmente entusiasmado com qualquer tema em que adivinhe uma ligação à construção - "quando a Porto precisa de se expandir faço logo o gosto ao dedo" -, tenha acabado por trocar a direção da empresa onde estava pela Porto Editora. Mas lá iremos.

Para já, há que escolher pratos e vinho - nada que demore, até porque ambos pedimos o mesmo: sopa de espinafres para começar e moqueca de camarão para continuar, com um branco fresco do Douro a apurar os sabores. Vasco vai-me contando da revolução digital que pôs a empresa que lidera "uma década à frente" das demais e garante que "a imagem que o país tem dos editores é o oposto da que as escolas têm" deles. "Pergunte a um político, a uma federação de pais, a um opinion maker e dizem que somos uns malandros, que mudamos uma página para vender mais... mas se falar com os professores, eles até ficam incomodados, porque sentem que nós trabalhamos para eles. Metade dos livros das bibliotecas é oferecida por nós (já para não falar nos que enviamos a penitenciárias, bibliotecas municipais, etc.); temos o e-mail de quase todos os professores e todos os meses lhes enviamos material que os ajuda a dar aulas (e sabemos que eles valorizam isso, a taxa de abertura das nossas newsletters é de quase 40%). Estamos permanentemente a estudar e a investir, porque temos noção da nossa responsabilidade nos resultados dos alunos." E essa possibilidade é garantida por uma política da casa que se mantém até hoje: do retorno anual da editora, "5% são distribuídos em dividendos e tudo o resto é reinvestido na empresa".

Porque há então essa má vontade generalizada? Vasco dá dois argumentos: o ciclo político e a falta de informação. "A maioria das eleições acontece em outubro e a altura de os pais comprarem os livros coincide com a campanha eleitoral... Então o livro escolar torna-se arma de arremesso. E diz-se muito disparate por desinformação. Por exemplo, os livros só mudam de seis em seis anos - estamos proibidos de lhes mexer durante a vigência dos contratos - e os preços são regulados pelo Estado." Por outro lado, "os manuais são o único bem que o Estado obriga as pessoas a comprar e usar, é um mercado protegido, é aquele o livro escolhido e não pode ser outro. E as pessoas tendem a reagir contra essa imposição".

A sopa já chegou e esfriou o suficiente para podermos saborear o creme com espinafres frescos a espreitar. Quero saber se os seis anos são um período justo para os manuais vigorarem. Diz que sim, mas lamenta a falta de planificação. "Na maioria dos países europeus, as reformas curriculares são preparadas a prazo, como programas de investimento, e faz-se planos estratégicos ajustados a esses timings, desenha-se os programas dois anos antes para essas mudanças se refletirem nos manuais. Mas aqui nunca houve um plano estratégico no Ministério da Educação - e se houver, o ministro que vem a seguir põe-no no lixo. Este é o problema essencial - e o primeiro momento em que os responsáveis políticos sentem que somos um estropício: entre quererem mudar o currículo e essa alteração se concretizar podem passar oito anos."

Apesar de tudo, Vasco garante que as queixas e acusações de que a Porto é alvo não o preocupam, por não serem verdadeiras e por ter reconhecimento junto de quem importa: professores e alunos. Mas assume que o "desgostam". "É pena que os manuais sejam uma arma de arremesso, até porque estamos ao nível do melhor que se faz na Europa." E um bom exemplo disso são os manuais híbridos que a Porto Editora lançou e que estão a ser estudados e copiados em países como a Finlândia, a Itália e a Alemanha. "Esse projeto, que levámos ao grupo internacional de editores de manuais escolares a que pertencemos, nasceu de um desafio editorial, digital/multimédia e de software que lancei há dois anos às nossas equipas - cada uma das três com mais de 50 pessoas a trabalhar." A ideia era que apresentassem fórmulas que ajudassem os alunos a aprender, e a integração com o smartphone foi o passo natural: os miúdos descarregam uma app, apontam o telemóvel à página do livro que estão a estudar e o aparelho carrega conteúdos relacionados - um vídeo que explica o sistema respiratório, uma simulação de um exercício de português, etc. "Acreditamos bastante neste projeto, que já está a fazer seu caminho na Europa e que é irreversível, porque acrescenta ao livro impresso um patamar de utilização direta com grande potencial", diz.

Considerando o poder das novas tecnologias enquanto método complementar de ensino, a Porto Editora tem desenvolvido outros contributos digitais importantes, conta-me, como a app Literacia 3D - brincadeiras e desafios semanais lançados aos miúdos, com os quais eles aprendem enquanto jogam no telemóvel -, que pretendem estimular o desenvolvimento deles. Há ainda a Escola Virtual (onde os alunos podem estudar todas as matérias e recorrer a explicadores online) e os professores encontram materiais de suporte para dar as aulas.

"Hoje, mais de 40% dos professores portugueses usam suportes digitais na sala - nós temos esses registos através da escola virtual e o número tem vindo sempre a crescer", assegura, perante a minha dificuldade em acreditar que, exceção feita ao 1.º ciclo, "são raros os professores que não têm um computador com ligação à internet e um projetor por sala". "Nós, além de fornecermos os livros que eles podem projetar para explicar a matéria, damos também recursos ricos (vídeos, por exemplo) que ajudam a dar a aula. É a Porto que os faz e oferece - e isto custa dinheiro. Fazer um manual é um trabalho que demora um ano e implica grande dedicação de um conjunto de 20 ou 30 pessoas - professores no ativo que têm de perceber as dificuldades dos alunos e os anseios dos outros professores, e que muitas vezes testam com os seus miúdos os conteúdos. Tudo é verificado ao detalhe, página a página, imagem a imagem, exemplo a exemplo, fazendo por vezes até cinco versões de cada página. E para cada manual gastamos mais 200 mil euros em material de apoio para os professores."

Substituição à mesa: saem os pratos de sopa vazios, entram as moquecas a libertar um aroma de fazer crescer água na boca. Vasco, casado e pai de uma rapariga de 18 anos e de um rapaz de 16, volta ao seu percurso profissional para chegar ao momento que determinou o futuro da Porto Editora: uma viagem dos dois irmãos à Califórnia, em 1995, três anos depois de terem feito parte do capital fundador da SIC - "queríamos estar no projeto porque achávamos que o audiovisual devia ter uma forte relação com a educação (só havia a Tele-Escola e havia um caminho a desenvolver). Esse passo, porém, nunca aconteceu realmente, e quando a Impresa foi para a Bolsa, nós saímos". Por esta altura, tinham aparecido os primeiros CD-ROM e Vasco e o irmão embarcavam numa viagem em que visitaram a Apple, a Netscape, etc. "Lembro-me de estarmos a regressar no avião, a beber um whisky e a anotar o que íamos fazer: montar um site , criar e-mails, investir na internet (lançámos a Infopedia e a Diciopedia), abrir uma livraria virtual (o Webboom, hoje Wook)... Estivemos sempre na linha da frente."

É preciso recuar na história para perceber a aptidão deste empresário com poucos hobbies além da leitura - um problema no cotovelo afastou-o do ténis há anos - pelas tecnologias. Homem de números, com o curso de Engenharia Civil tirado e um país parado no pós-25 de Abril, Vasco começou a trabalhar na comissão de planeamento (percussora da CCDR-N) com o antigo professor Valente de Oliveira - "mas já então fazia uma perninha na editora, traduzia uns livros infantis, fazia uns biscates". Depois de três anos na construção, dois deles numa empresa onde já era responsável por 200 pessoas, decidiu mudar de vida. "Tinha 25 anos, ainda não era casado, e disse ao meu pai que estava pronto para entrar na empresa. E nos primeiros tempos fui polivalente, fazia tudo, desde a engenharia e gráfica às edições, passei por todas as áreas - o que foi muito útil porque ajudou a preparar-me para as várias áreas da empresa." Acabou por assumir a liderança quando o pai morreu, em 1987. E então, a Porto Editora, que nascera com livros de História da Literatura Portuguesa, dicionários e alguns autores clássicos e entretanto se abrira aos manuais escolares, conhece uma verdadeira revolução. "A diversificação foi muito importante", assume, considerando a viagem à Califórnia o momento em que tudo mudou. "Traçámos o plano estratégico todo ali mesmo no avião e isso determinou o nosso caminho nas décadas de 1990 e 2000."

Já com as moquecas desaparecidas e os cafés a caminho, completa a ideia: "O que nos distingue da concorrência é termos uma visão de médio e não de curto prazo. E investimos muito em responsabilidade social, porque sentimos a obrigação de devolver à sociedade parte dos lucros." De resto, garante que a dimensão deste mercado é um mito. "As pessoas pensam: um milhão de alunos, 200 ou 300 euros em livros por aluno, são 200 ou 300 milhões. Mas não é assim, porque há reutilização entre irmãos, primos, etc., que do 2.º ciclo em diante chega a 40% no terceiro ano de vigência. A meio do contrato já só vendemos metade dos livros. Portanto, o mercado escolar em Portugal representa uma faturação de cerca de 70 milhões de euros - metade do mercado total de livros no país - e o Grupo Porto Editora tem cerca de 60% disto."

O mote para o tema que tem enchido páginas de jornais está lançado: reutilização, sim ou não? Diz que o tema é complexo e raramente tratado com o pormenor que merecia. "Os manuais são feitos a pensar na aprendizagem dos alunos e ninguém se interroga porque é que alguns têm espaços para preencher - isso está estudado, é porque os alunos assim aprendem mais rápido e melhor porque associam a memória visual ao conhecimento. O exemplo do inglês é o melhor: assim se decora os lugares onde entram os verbos ou a preposição, o aluno treina ao mesmo tempo que vê o texto, é um método mais eficaz. Mas para poupar 15 euros admite-se prejudicar os alunos em cinco horas a mais." Diz que esses são os livros não reutilizáveis - "de certa forma, o governo define-o ao legislar sobre que livros podem ter espaços para neles se escrever".

Mas há outros que o são - "Eu usei livros da minha irmã." Simplesmente nenhum aluno deve ser prejudicado por uma reutilização forçada, defende, rejeitando a ideia de o Estado proibir que se escreva no livro - "No museu Picasso estão os livros do artista expostos... cheios de desenhos dele." "O aluno tem de ser motivado para estudar. Se lhe dão um livro sujo, riscado, que cheira mal e ainda tem de o devolver no fim, isso não ajuda." Um "erro crasso", sobretudo no caso dos miúdos de 6 ou 7 anos, que ficam "desde logo condicionados". Crítico da motivação económica que levou a esta solução, lamenta um modelo que penaliza os mais desfavorecidos. "Quem tem dinheiro compra novo, os outros têm de aguentar. E agrava-se a desigualdade que já é potenciada pelos recursos digitais que cada vez mais entram no ensino sem que muitos pais tenham dinheiro para investir em aparelhos, acesso a uma boa internet ou capacidade de comprar conteúdos virtuais." E lamenta: "Em Portugal sempre houve preocupação com os carenciados - é uma marca sobretudo dos governos PS - e a vários secretários de Estado e ministros ouvi que os manuais eram os únicos livros que entravam em casa de muitas destas famílias. Quando se pensa em reutilizar, até esses livros deixam de ser deles." De resto, a reutilização implica os custos de recolha. "São 80 mil alunos a devolver livros no 1.º ano - porque as escolas têm autonomia, mas têm de recolher os livros todos."

Critica a "conversa cíclica" sobre descentralização que acaba sempre com tudo encravado - "fez-se nas escolas do 1.º ciclo, mas não ao nível da autonomia financeira; como é que se gere uma escola sem ter mão nas contratações e despedimentos de professores", questiona. Mas acredita que descentralizar pode trazer vantagens quando as autarquias funcionam bem. "Gaia é um bom exemplo: investiu há nove anos nos conteúdos digitais, dá a cada aluno uma password da Escola Virtual, dá livros aos alunos no 2.º e 3.º ciclos e quer chegar ao secundário. E ainda ajuda com dinheiro para material escolar. E dá a todos!"

Já com os segundos cafés à frente e a prepararmo-nos para dar a conversa por terminada, pergunto-lhe sobre o estado do mercado dos livros não escolares. Diz que pela primeira vez depois de sete anos de quedas consecutivas há uma ligeira recuperação. Mas o problema não foi só a retração no consumo devido à crise. "O digital enquanto entretenimento é a nossa verdadeira concorrência - e não as outras editoras. O tempo que passamos nas redes é roubado ao ato de ler, e isso tem imenso impacto aqui, onde as taxas de leitura estão à volta dos 40%, metade do que se verifica nos países nórdicos, por exemplo." Com tanta aptidão para o digital, pode o e-book ser uma solução de recuperação? Vasco não acredita num fenómeno de substituição. "Usa o livro digital quem viaja muito e gosta de ler muito, mas cada formato tem o seu espaço. E cada género também", diz.

Despedimo-nos com uma revelação surpreendente: os livros eróticos são cada vez mais comprados em suporte digital e através de smartphone. "Hoje, 80% dos e-books são comprados ao computador, 15% no telemóvel e 5% no tablet. Mas há best-sellers eróticos cuja venda através de smartphone ultrapassa os 50%."

Oporto Café

Água

Vinho branco Quinta dos Bons Ares

Sopa de espinafres

Moqueca de camarão

Cafés

Total: 45,9 euros

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