O duelo Portugal-Espanha tem dois vencedores

"Taça ibérica" vinícola. A comparação com o país vizinho é um velho desporto. No mundo dos vinhos, o gigante espanhol não sufoca.

"Portugal é igual a Espanha só que com pior vinho." Donald Trump já disse tanta coisa que esta seria apenas mais uma das suas diatribes. Seria, porque, na verdade, o mega-hipermediático milionário agora candidato presidencial norte-americano nunca disse tal coisa, ao contrário do que o frenesim das redes sociais nos levou a pensar. Ainda assim, a frase (se não foi Trump que a disse, alguém a inventou) permite levantar uma série de questões e aviva um tique muito português: como é que nos comparamos com Espanha?

Dizer que o vinho de um país é melhor do que o de outro será sempre uma questão de gosto pessoal, embora também possa revelar alguma ignorância. Dizer que o vinho de um país é igual ao de outro, isso já só pode ser ignorância. Para mais, e falando de Portugal e Espanha, dois países produtores com tradição vinícola, as generalizações serão sempre grosseiras: não existe um vinho português e um vinho espanhol; existem regiões, estilos, castas. Estamos no reino da diversidade. Mas, lá no fundo, fica sempre a questão: quem ganha a Taça Ibérica do vinho?

"Ambos os países têm vinhos extraordinários", analisa Raul Riba d"Ave, especialista em vinhos que está a um passo de se tornar o primeiro Master of Wine português. Susana Esteban, enóloga espanhola com toda a carreira feita em Portugal, partilha esta visão, mas é um pouco mais taxativa: "Não se pode dizer que o vinho espanhol é melhor do que o português. São dois países com enorme diversidade, generalizar será sempre um erro." Do outro lado da fronteira, Manuel Louzada, enólogo português a trabalhar em Espanha, também não desempata o duelo, destacando mesmo que "a Wine Espectator, a revista referência mundial do setor, está a dar cada vez mais relevância ao vinho português".

Vamos então tirar portugueses e espanhóis da equação. O que nos pode dizer um "árbitro" neutro? A palavra para Mark Squires, crítico da Wine Advocate para os vinhos portugueses: "É impossível dizer que os vinhos de um destes países são melhores do que os de outro. A variedade é tão grande que não se pode fazer uma análise assim tão simplista. Na verdade, se sairmos à rua aqui nos EUA e perguntarmos às pessoas qual a região que melhor conhecem destes países, o mais certo é que a resposta seja "Porto"... E depois Madeira, até pelo peso histórico [foi o vinho com que se brindou a Declaração de Independência dos EUA]. Só depois virá a Rioja. Na verdade, apesar de os portugueses aparecerem no mercado dos vinhos tranquilos com uns 10/15 anos de atraso, em 1979, quando comecei a beber vinho, a Rioja também não era assim tão famosa como isso..."

Que alguém num país terceiro se permita comparar a qualidade do vinho espanhol com o português já pode ser visto, à partida, como uma vitória lusa. Até há pouco mais de uma dezena de anos, Portugal era conhecido apenas pelo vinho do Porto, pelo vinho da Madeira e pelo Mateus rosé. O mundo só recentemente começou a descobrir a imensa variedade e riqueza dos vinhos portugueses. Mas, como salienta Raul Riba d"Ave, uma comparação entre os dois países terá sempre de levar em conta o facto de que "a Espanha é maior em tudo: área de vinha, produção, notoriedade internacional".

"A Espanha começou a internacionalizar-se mais cedo e é uma marca global, o que beneficia os seus vinhos", reconhece Susana Esteban. A gastronomia, o desporto, as touradas, a movida - quando se fala de Espanha, as pessoas têm uma imagem do país. "Já a imagem de Portugal não está definida. Não é boa nem má; simplesmente não existe em termos internacionais. As pessoas ouvem falar de Portugal e não conseguem fazer ligações", analisa Raul Riba d"Ave. "É um bocado como se, de repente, eu desatasse a falar dos vinhos da Eslovénia, que os há, e bons. Só que as pessoas não os identificam com uma realidade..."

"É verdade", reforça Mark Squires. "Portugal não tem uma identidade vincada. Os enófilos certamente associarão o país ao vinho do Porto, mas para a opinião pública americana - e há muita gente pouco conhecedora - Portugal até pode ser confundido com uma parte de Espanha... No entanto, as coisas estão a mudar e há em Portugal uma tradição vinícola tão forte que lhe permite competir com Espanha."

Os trunfos de cada lado

Neste duelo desigual, Portugal tem, no entanto, alguns trunfos a favor, para mais numa altura em que o mercado norte-americano, que marca as tendências a nível global, está a desenvolver um gosto muito especial por coisas novas e genuínas. Por ser desconhecido e raro, o vinho português tem uma aura muito especial. "A imprensa e os consumidores estão a descobrir verdadeiras joias. Em termos de terroir, de potencial, os vinhos portugueses têm tudo para estar no topo", analisa Manuel Louzada. "Portugal tem do seu lado a diversidade de castas e o património vitícola. Talvez falte ainda um bocadinho a capacidade de transmitir melhor a marca. É uma questão de tempo. Nos EUA está a ser fantástico...", reforça Susana Esteban.

E de Espanha, que argumentos nos chegam? Bom, para lá da qualidade inquestionável de muitos dos seus vinhos de topo e de uma imagem internacional bem vincada e com fortes ligações ao copo e à mesa, há pelo menos mais três, enumeradas por Raul Riba d"Ave: "Foram eles que divulgaram ao mundo a casta Alvarinho; é espanhola uma das dez castas mais importantes do planeta, a Tempranillo; e tem a Rioja, uma região com um peso impressionante nas vendas de vinhos no mercado internacional." A Rioja tem uma imagem de qualidade definida há muitas décadas (mal comparado, será como o vinho do Porto), enquanto outras agora igualmente aclamadas (Ribera del Duero, Priorat) são muito mais recentes - um pouco como sucede com os DOC Douro.

Mas também há pontos fracos. Em Espanha, muitas vozes começaram já a alertar para uma degradação da imagem do país a nível internacional devido à produção maciça e obrigatória comercialização a preços reduzidos que estão a fazer regra em algumas regiões. "A Espanha sofre com a conotação de vendedora de vinhos a granel", considera Raul Riba d"Ave. "Em comparação com Portugal, o peso dos vinhos a granel em Espanha é muitíssimo maior", confirma Manuel Louzada. Outro problema é a excessiva uniformização dos vinhos. "Enquanto consumidora, acho que há pouca diversidade nas castas de cada região", explica Susana Esteban.

Neste fluxo de tendências, modas e regras de mercado, há sempre altos e baixos. O que hoje é bom, amanhã pode ser um problema. Enquanto em Portugal se pode dizer que as grandes empresas ainda não têm dimensão para competir em força nos palcos mundiais, em Espanha o movimento já está a ser feito em sentido contrário. Manuel Louzada, que saiu em 2015 da Numanthia, uma das casas míticas do vinho espanhol, diz que o trabalho dos gigantes está a "esmagar os pequenos produtores". Estes reagiram e assiste-se à multiplicação dos chamados vinos de pago, ou seja, vinhos feitos apenas com as uvas de uma determinada propriedade. Algo que, afinal, é bastante comum em Portugal.

Com bons vinhos e um certo romantismo que está a deixar os consumidores mundiais presos pelo beicinho, Portugal está em alta. Mas precisa de ser mais "valente" e sair da sua concha, "explorar novos caminhos", sentencia Manuel Louzada. "Com essa agilidade, pode avançar muito depressa." Só que os portugueses são muitas vezes os seus piores inimigos. "Somos muito complicados. Tudo é difícil, desde a burocracia ao nome das castas", reconhece Raul Riba d"Ave. "Ainda não conseguimos transmitir aquilo que temos. Quem cá vem ou prova, fica maravilhado. Mas é preciso levar isto ao grande público, a riqueza de Portugal enquanto produtor de vinhos", conclui Susana Esteban.

Não é fácil, como se vê, traçar o cenário de um hipotético duelo Portugal-Espanha em vinhos sem cair no pecado grosseiro da generalização. Manda o bom senso que se aposte num empate (ver caixa). A Espanha é um gigante mundial, Portugal está na moda e a crescer. Ambos os países ibéricos fazem grandes vinhos. E, a avaliar pelo bom desempenho das exportações de um e outro lado da fronteira, há por aí muita gente que gosta de os beber.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.