O Alentejo visto pelos alentejanos daqui e de lá

O que é ser alentejano? São calados ou faladores, duros ou amigáveis, violentos ou mansos? Como caracterizar o Alentejo? É um lugar diferente? Porque se matam tanto lá? A partir da fúria causada pelo livro de Henrique Raposo, ouvimos alentejanos notáveis

"Os alentejanos são apaixonados, por isso perigosos. O alentejano é um sentimental, que ama e odeia com a mesma força. E quando se sente picado..." Nicolau Breyner, nascido em Serpa há 75 anos, talvez tenha encontrado o motivo para a reação desproporcionada a um livro, Alentejo Prometido, que tendo a região como objeto não a glorifica. Ao contrário do autor do dito, que conclui não pertencer à terra dos pais e avós, Breyner, que foi com os pais para Lisboa aos 10 anos, sente-se "um transplantado: o que eu sou é alentejano".

O que é ser de uma terra? É lá nascer, é lá ter sido criado, é nunca a abandonar, é amá-la ou ter com ela a relação intensa, tempestuosa e por vezes infeliz que se tem tantas vezes com aquilo a que sentimos pertencer, àquilo que sentimos que nos limita e prende, que nos define sem o querermos? E é assim tão contranatura não se gostar do lugar de onde se é, de onde vem? É um pecado assim tão grande?

"Estás a falar com uma pessoa que tem um sobreiro tatuado no braço." A deputada do BE Joana Mortágua, que, nascida no Alvito há 29 anos, lá viveu até aos 18, quis evidenciar "a ligação brutal, enorme que tenho com o Alentejo. Com a comida, o cante. Sou uma pessoa que não aguenta muito estar na serra, preciso da linha do horizonte. Preciso de ir, preciso de estar, de lá voltar." Ainda assim, é em Lisboa que vive. "Passei por aqueles momentos em que é bom ser do Alentejo e conhecer coisas novas. E não, não vivo lá. Tenho pena de que o Alentejo não tenha capacidade de dar oportunidades aos jovens. Acho verdadeiramente heroicos os meus amigos que escolheram lá ficar."

O Alentejo é duro, reconhece Rui Cardoso Martins, alentejano de Portalegre, 48 anos, ex- jornalista do Público, ex-membro das Produções Fictícias, cronista e escritor. "O amor que se sente pelo Alentejo é uma coisa que talvez nem toda a gente consiga perceber. Mas há coisas que é preciso evitar, um certo folclore, um certo deslumbramento. E não há razão para estar tudo aos gritos por alguém ter dito uma série de coisas parvas e pouco aprofundadas. Tudo se pode discutir." Rui escreveu o primeiro romance, há dez anos, sobre o Alentejo. E sobre o suicídio - o tema que mais parece ter irritado nos pronunciamentos de Henrique Raposo sobre a região. Chama-se, precisamente, Se Eu Gostasse muito de Morrer e está a ser relançado pela sua nova editora, a Tinta da China. Rui ri quando se lhe aventa que o bruaá em torno do livro de Raposo e do suicídio alentejano funciona como uma ótima campanha de promoção para o seu. "É uma grande coincidência. Mas faz-me confusão e enerva-me que um assunto tão importante e delicado seja tratado numa fogueira - nesta fogueira em que isto está. Acho triste e estúpido que alguém queira proibir ou queimar um livro."

No livro de Rui (chato para quem não leu, mas pronto) o rapaz narrador acaba por se matar. E antes dele muita gente, até o coveiro: "Faz calor na província dos suicidas. Dá vontade de rir uma terra em que até o coveiro se mata." Isto é do livro, que, admite Rui, "está cheio de humor negro e citações improváveis", e vê como "um bom retrato do Alentejo. Fiz o trabalho de interrogar o que eu vivi, e o livro foi muito bem aceite." Embora, admita, tenha havido "pessoas que ficaram perturbadas".

Raposo fala da pouca religiosidade dos alentejanos como uma das pistas para aquilo a que chama o tom "amoral" com que falam do suicídio. Rui Cardoso Martins concorda discordando: "É verdade que o Alentejo é um lugar pouco religioso, o que para mim é um elogio. E a violência vira-se mais para dentro. Uma pessoa matar outra ou matar-se a si são graus de violência. Mas quando alguém se mata é sempre um grande drama para toda a gente. E nunca ouvi as pessoas elogiarem os suicidas. Mas talvez haja um certo fatalismo, e se quisermos podemos encontrar alguma grandeza no fatalismo."

Joana Mortágua também não se lembra de ouvir as pessoas "glorificarem o suicídio". E ocasiões não lhe faltam. "Gosto de chegar lá e ir à sede do grupo coral, onde se bebe vinho em copo de três e se cantam modas e tudo o que se come é picadinho para poder ser partilhado." Reflete: "É tudo muito partilhado. No Norte a propriedade é mais parcelada, as pessoas trabalham muito para o seu. Ali as pessoas não tinham nada, partilhavam a cultura do trabalho."Avessa a generalizações, tenta sumarizar algumas das causas daquilo que considera "uma cultura muito específica": "A menor influência da religião católica, a forma como a propriedade está organizada em latifúndio, o facto de ser uma terra árida, não ter grandes pontos de trocas comerciais, não ter portos - aquilo que o litoral tem por natureza e que torna as culturas cosmopolitas -, ser zona mais isolada, de trabalho muito duro. Há a ideia de que somos lentos. Isso tem que ver com o calor, que é um fator determinante na cultura alentejana."

A inclemência das temperaturas altas na planície sem árvores, o trabalho à torreira do sol: Luís Pita Ameixa, 55 anos, ex-deputado do PS e ex-presidente da Câmara de Ferreira do Alentejo, também atribui a isso a "ideia de lentidão". "Tinha de ser feito com um certo ritmo, muito mais lento. E as pessoas são mais serenas, vivem a vida e os movimentos de modo mais calmo. O próprio folclore - o cante, que só há no Baixo Alentejo, é uma coisa arrastada e calma, nada que ver com as corridas e os pulos do resto do país. As pessoas são mais contidas, caladas - sofrem para dentro. No Norte são mais faladoras. E concordo que há menos carinho - em termos de manifestação são mais contidas, no aspeto familiar, nas festas..." É, conclui, "uma região muito diferenciada do resto do país, conquista tardia aos árabes, com muita miscigenação, com pouca gente". Suspira: "Não li o livro nem conheço o rapaz [Raposo] de parte nenhuma mas li o capítulo sobre o suicídio e aquilo está bem feito, estou de acordo. A alma alentejana, pelo menos no Baixo Alentejo, a cultura enraizada é aquela. Não acho ofensivo, é analítico. A maneira como as pessoas encaram a morte e a vida, porque a morte faz parte da vida. Acho que é encarada de forma natural. Ele até diz amoral, e interpretei no sentido de que não é religiosa. Não têm a cultura de considerar que pertencem a um deus criador. A pessoa ao matar-se está a dispor de si própria. E o suicídio tem um certo grau de frequência, o que leva à aceitação. Existe uma convivência fácil com o fenómeno." Sobre este outro fenómeno, o da reação ao livro, encolhe os ombros. "Há tantas anedotas com alentejanos, nem sei porquê e nunca vi gente ofendida com isso. E com este livro houve esta reação desmedida. Para mim é incompreensível. A gente não tem de estar de acordo com tudo."

Anedotas com alentejanos, precisamente: porquê tantas? "As anedotas de alentejanos fomos nós que as criámos", assevera Nicolau Breyner. "É um povo com muito sentido de humor. Não há nenhum almoço alentejano que não acabe com alentejanos a contar anedotas e a cantar canções alentejanas." Por azar, não se lembra de nenhuma anedota. Mas nega que seja gente de poucas falas. "Falamos imenso - somos uns tagarelas. Somos é calados na primeira aproximação. É reserva, é timidez. E boa educação." Outra característica: "O orgulho. E não dobram." E uma certa impaciência e revolta: "Estamos fartos de ser os pobrezinhos que moram longe." Virá daí, desse cansaço, o que se vê face a Henrique Raposo? Breyner graceja: "Fazem bem os alentejanos em ameaçá-lo. Estou a brincar, ninguém deve ser ameaçado, mas devia pensar bem no que escreve."

"Sabes qual a diferença entre um alentejano e um chuveiro?" Breyner não se lembrava de nenhuma, mas Rui Cardoso Martins tem uma anedota para concluir. "Põe-te debaixo dos dois e logo vês. É um bocado o que se está a passar."

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