O açúcar esconde-se na comida e poucos sabem o mal que faz

As quantidades de açúcares aparecem nos rótulos dos alimentos, mas muitas pessoas não os leem ou não sabem a que correspondem

Meio litro de Coca-Cola contém 13,25 cubos de açúcar, o equivalente a 53 gramas; uma garrafa de meio litro de Powerade tem 38; quatro bolachas Chips Ahoy com pepitas de chocolate XL têm 34; um iogurte de fruta Danone "0%" contém 16; oito bolachas Maria, 12 gramas. No âmbito do projeto espanhol SinAzúcar.org, Antonio R. Estrada fotografou estes e outros alimentos ao lado dos cubos de açúcar correspondentes, para denunciar a quantidade de açúcar presente nos produtos que se compram nos supermercados.

O fotógrafo quis, assim, alertar a população para o açúcar escondido nos alimentos e que, em quantidades excessivas, pode provocar diabetes, obesidade, cáries, doenças cardiovasculares.

Isto porque as pessoas não têm consciência do açúcar que consomem. "É um produto barato e que está em toda a cadeia alimentar. É quase omnipresente. Há açúcar por todo o lado e a maior parte dos encarregados de educação não têm ideia da quantidade de açúcar presente em certos alimentos", alerta Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde (DGS).

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o consumo de açúcares simples adicionados à nossa alimentação deve estar abaixo dos 10% da energia consumida diariamente e de preferência aproximar-se dos 5%. Sendo 2000 kcal o valor médio de energia consumida, não devem ser ingeridos mais do que 50 gramas de açúcares por dia, mas o ideal é que sejam consumidos apenas 25. O certo é que, em Portugal, os dados de 2013-2014 apontavam para um consumo na ordem dos 96 gramas por dia.

Haverá consciência disso? "Não, claramente. Se houvesse essa consciência, porventura não eram consumidas as quantidades que são", frisa Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas. Uma pessoa que beba três cafés por dia e que use o pacote de 5 gramas de açúcar consome logo aí mais de metade da quantidade ideal. Os açúcares, prossegue a nutricionista, são calorias "consideradas vazias, que empobrecem nutricionalmente o produto".

Obesidade e diabetes tipo II são duas das doenças que mais facilmente se associam ao seu consumo. Segundo os dados mais recentes, de 2014, um milhão de portugueses sofrem de obesidade e 3,5 milhões tem excesso de peso. "São números muito assustadores." Para a bastonária, é preciso "encarar o problema do açúcar de frente", o que requer medidas legislativas e de incremento da literacia na área.

Os refrigerantes são, segundo os especialistas ouvidos pelo DN, um dos principais veículos de açúcar. E, diz Pedro Graça, "o açúcar nas bebidas é provavelmente mais perigoso do que nos sólidos, pois é absorvido de forma mais rápida".

Nuno Borges, da direção da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, reforça que, "nos refrigerantes, as pessoas não têm noção da quantidade de açúcar que ingerem". Mas nos néctares também existem grandes quantidades: "Se a pessoa beber um litro de sumo de laranja por dia, pode estar tão em risco como se beber um litro de Coca-Cola." Por isso, o nutricionista destaca a importância de projetos como o Sin Azucar: "Se é algo que está meio oculto, tudo o que se puder fazer para aumentar a consciência das pessoas é bom. Se for com uma vertente artística, tanto melhor."

Além de alimentos já associados ao açúcar, como refrigerantes ou doces, dá a conhecer as quantidades presentes em molhos, no pão, nas papas dos bebés. O autor, Antonio R. Estrada, explicou ao diário El País que o objetivo é mostrar "o açúcar oculto nos alimentos processados, de uma forma simples e rápida", que facilmente possa ser difundida nas redes sociais.

Para Davide Carvalho, endocrinologista, é preciso não ficar com a ideia de que "os alimentos só têm açúcar", pois pode ser redutora. Ressalvando que o açúcar "tem calorias e muitas vezes desprovidas de outros nutrientes", o especialista diz que não se deve diabolizar. "É importante que as pessoas saibam aquilo que comem, analisem a composição dos alimentos e façam escolhas saudáveis. Se num dia de festa comerem um alimento com mais açúcar, não há problema. O problema é se comem todos os dias."

Pedro Graça destaca que, de acordo com dados referentes a 2014, publicados em 2015, "os hábitos alimentares inadequados - onde entra o consumo de açúcar e de sal - continuam a ser dos principais responsáveis pela perda de anos saudáveis entre os portugueses". Mais do que o tabaco ou os acidentes de viação, por exemplo.

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