Nos anos 1970 "voar era um acontecimento na vida das pessoas"

A TAP voltou a vestir-se com as cores antigas e voou até Miami para celebrar os 72 anos da companhia. Entre a tripulação, a cabina esteve entregue à supervisão de uma hospedeira com memória e histórias para contar

Do check-in à pintura do Airbus A330, das fardas da tripulação às refeições, passando pela música e pelos filmes a bordo, tudo naquele voo fez lembrar uma das épocas de ouro das viagens aéreas. Um tempo com mais tempo, com rituais à volta das viagens de avião há muito abandonados e com o mundo ainda longe das preocupações com a segurança que têm marcado as últimas décadas. O voo para Miami, a Magic City, foi o mais recente destino retro da companhia portuguesa.

Cristina Silva Melo, supervisora de cabina, está há 44 anos na TAP. "É a minha vida inteira, a vida de adulto. Saí da escola diretamente para a TAP." Ainda chegou a fazer voos de longo curso nos Boeing 747 e lembra esse tempo em que voar era bem diferente. "Era como sair ao domingo, arranjarmo-nos para ir à missa ou ao cinema. Era um acontecimento na vida das pessoas." Conversamos perto do cockpit, em pé, já quase na aproximação a Miami, depois de quase nove horas de voo. Pergunto o que sentiu quando vestiu pela primeira vez esta "nova" farda - uma recriação das fardas dos anos 1970, desenhadas pelo estilista francês Louis Féraud. Cristina engole em seco, faz uma pausa, e tenta não demonstrar muita emoção. "Lembrei-me do que eram as minhas expectativas quando aqui entrei pela primeira vez. Recordei-me de como foi o meu percurso de vida e como, na altura, não tinha a certeza se iria conseguir ultrapassar todas as fases da carreira. Recordei também alguns colegas, algumas estadas, viagens, imensas coisas." Admite que sentiu alguma saudade, alguma nostalgia, mas reconhece que entre as muitas mudanças há agora mais profissionalismo. "Mudou muita coisa. Hoje em dia já não é uma relação autodidata. Naquela altura, ou tínhamos uma vocação, alguma apetência para uma profissão de atendimento, de relação com as pessoas, com os clientes, ou não tínhamos. Agora é tudo muito diferente. A companhia dá-nos muita formação, investe-se muito na área comercial e nas técnicas do marketing. É muito diferente."

Enquanto vai deitando um olho no que o pessoal de cabina vai fazendo - preparava-se mais uma refeição, ligeira -, Cristina conta que já pouco resta desse tempo, quer na relação com o passageiro quer na relação com os colegas. "Éramos meia dúzia - uns 200 ou 300 - e agora somos milhares. O ambiente continua ótimo, mas naquela altura era diferente. Por exemplo, íamos para Luanda e coincidiam lá diversas tripulações. Chegávamos a juntar 50 ou 70 pessoas, conhecíamo-nos todos e convivíamos mais, como é natural." Outra das diferenças fundamentais para quem cuida dos passageiros a 40 mil pés de altitude são as condições de descanso. "O repouso nos voos grandes evoluiu muito. Quando eu entrei na TAP não havia sequer lugares de descanso. Só tínhamos os nossos bancos de descolagem para nos sentarmos. Era aí que descansávamos. Depois vieram os lugares de descanso, que foram melhorando, e hoje temos o chamado crew rest, que tem camas." Mais descansados e mais apressados. O negócio da aviação é hoje muito mais competitivo do que era nos anos 1970 e isso reflete-se nas escalas. Mais breves. Cristina Silva Melo encontra aí um contra. "A única coisa que, para nós, mudou muito e que nos faz pensar neste trabalho já como algo não tão apelativo é que agora já não temos aquelas estadas tão longas. Antes, era normal sair para uma semana fora. No longo curso era normal. Isso tanto pode ser um prazer como um problema. Hoje, no fundo, é um trabalho mais normal nesse aspeto. Já não cria os mesmos receios e a mesma distância em relação à família. Naquela altura, ficávamos a ganhar com essas estadas mais demoradas, mas também perdíamos muito com a distância. Hoje, já posso dizer às minhas amigas: "Vou ali a Miami, mas amanhã já cá estou para jantarmos"."

Memórias de um tempo que a TAP vai revisitar regularmente nos próximos tempos, recuperando a elegância da aviação civil dos anos 1970. O A330 Portugal, pintado com a imagem da TAP no início da década de 1970, vai continuar a voar com essas cores nos próximos dois anos, até ser substituído por um dos novos A330-900 Neo, já encomendados para a renovação da frota de longo curso. Se nos próximos meses voar para o Rio de Janeiro ou Luanda, pode ter uma surpresa e embarcar numa viagem no tempo.

O jornalista viajou a convite da TAP

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.