Nobel da Física foi para massa dos neutrinos, que muda visão do universo

Takaaki Kajita e Arthur B. McDonald são os premiados. Mas a descoberta também tem participação portuguesa, porque a experiência liderada por McDonald integrava, na altura, dois físicos do LIP.

Durante décadas subsistiu um mistério: os neutrinos (partículas elementares) que os físicos mediam na chegada à Terra eram apenas um terço dos emitidos pelo Sol. Onde estavam os neutrinos em falta? Com experiências muito engenhosas, o japonês Takaaki Kajita e o canadiano Arthur B. McDonald solucionaram o enigma, mostrando que neutrinos não se perdem, apenas mudam de "sabor", e isso significa que, afinal, têm massa. Ontem, os dois cientistas ganharam o Nobel da Física com esta descoberta, que contou também com a assinatura de dois físicos portugueses do LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, José Maneira e Nuno Barros, que integravam a experiência de McDonald quando os resultados foram obtidos.

"É uma notícia fantástica e, logo de manhã, mandei um e-mail de parabéns ao Arthur McDonald", contou ao DN José Maneira, que lidera desde 2005 o grupo de investigação em neutrinos do LIP..

O grupo português, que inclui hoje sete investigadores, continua, aliás, a trabalhar com o cientista canadiano - "ainda na semana passada estivemos a falar ao telefone", diz José Maneira - na experiência Sudbury Neutrino Observatory (SNO), a mesmo em que foram obtidos os primeiros resultados que levaram à descoberta premiada.

Nessa altura, em 2002, José Maneira fazia parte da equipa de McDonald, na Universidade de Queen"s, em Kingston, no Canadá. "Foi uma experiência muito enriquecedora pela forma de trabalhar, que me permitiu depois trazer esta área de investigação para Portugal", explica o físico do LIP.

A descoberta de Takaaki Kajita e de Arthur B. McDonald, que fizeram as suas investigações separadamente, "mudou a nossa compreensão dos mecanismos internos da matéria e pode ser crucial para a nossa visão do universo", justificou o Comité Nobel.

Os neutrinos são as partículas elementares mais abundantes no universo, a seguir aos fotões (partículas de luz), e a cada segundo milhares de milhões passam através das paredes e pelos nossos corpos. No entanto, durante muito tempo, julgou-se que essas partículas não tinham massa. O que era muito misterioso na medição destas partículas à sua chegada à Terra, é que apenas se conseguia ver um terço das que, pelos cálculos dos cientistas, estavam a ser emitidas pelo Sol. Não se sabia ainda na altura da existência não de uma família, mas de três famílias de neutrinos: os neutrinos eletrão, que só são emitidos pelo Sol e, além destes, os neutrinos muão e os tao.

Nos anos 1960, já após a descoberta de uma segunda família de neutrinos - a terceira viria mais tarde -, o físico italiano Bruno Pontecorvo propôs que essas partículas em falta estariam apenas a mudar de natureza, e depois dele outros físicos trabalharam a ideia. Em laboratórios separados, no Japão e no Canadá, os dois cientistas agora premiados decidiram fazer experiências para testar a hipótese.

No Observatório Super-Kamiokande (Super-K), no Japão, Takaaki Kajita descobriu que os neutrinos da atmosfera oscilam entre duas dessas identidades e publicou os resultados no início deste século.

No Canadá, o grupo de Arthur B. McDonald conseguiu demonstrar que os neutrinos do Sol não desaparecem, mas que em vez disso ganham uma identidade diferente - foi nesta experiência que participaram, e continuam ainda a participar, os investigadores do LIP. A notícia do Nobel da Física foi, por isso, recebida ali com grande satisfação.

"Recebemos a notícia com grande contentamento", afirmou ao DN o presidente do LIP, o físico Mário Pimenta, sublinhando que esta "é uma área em que o laboratório português está envolvido há já 10 anos", em colaboração com a equipa do físico canadiano agora laureado com o Nobel. Arthur B. McDonald já esteve em Portugal por duas vezes nos últimos anos, em conferências organizadas pelo LIP, em 2007 e em 2010.

"Este prémio é também importante porque acaba por ser um reforço para o grupo português do LIP que participa nesta investigação. Esta é uma atividade que nem sempre é reconhecida e que nos últimos anos teve as suas dificuldades, incluindo de financiamento", nota Mário Pimenta.

Depois dos resultados obtidos pela equipa de McDonald que mereceram agora o Nobel, os investigadores do LIP continuaram, e continuam, a trabalhar com o físico canadiano na experiência internacional SNO, que ele dirige desde o início. O laboratório português é, aliás, responsável, desde há cinco anos, por um sistema de calibração da experiência e vai continuar a sê--lo, na próxima fase dos trabalhos, estando o novo equipamento a ser desenvolvido, neste momento, no LIP de Coimbra.

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