"Ninguém deve ser deixado para trás." Palavra de Elton John

Ser pai fez que o cantor ficasse mais condescendente com quem o rodeia. Fundação que criou para ajudar pessoas com VIH/sida ajuda a quebrar barreiras e a lutar pelos direitos dos homossexuais

A vida com Elton tem igualmente os dois lados da moeda. Além do facto de ele estar frequentemente em digressão, há que lidar com a constante barreira de fotógrafos. Zachary e Elijah [os dois filhos] não estão a ser escondidos das câmaras. Com os paparazzi a seguir todos os passos das férias de verão da família em Saint-Tropez, foram muitas as vezes em que vimos o mais velho dos dois meninos a sorrir e a acenar para as câmaras.

Quando os rapazes fazem perguntas sobre o circo sem fim que os segue, David Furnish [companheiro de Elton John] evita dizer coisas como "o papá é famoso". Em vez disso, ele explica que o papá tem trabalhado duramente desde há muito, muito tempo e muitas pessoas amam a música que ele tem feito.

Elton está "muito mais maduro com filhos", diz Furnish. O seu praguejar lendário está sob controlo, aparentemente. "Isto acabou por ser uma coisa muito positiva, muito regeneradora nas nossas vidas."

Anne Aslett, diretora da Fundação Elton John, admite que estava preocupada com a forma como o casal um pouco obsessivo-compulsivo, famoso pelas suas casas imaculadas, iria lidar com crianças. A primeira vez que levou Elton numa viagem de trabalho a África, a coisa que mais o impressionou depois de se encontrar com uma vítima de VIH/sida na sua modesta casa foi o napperon de linho imaculado que ela tinha colocado em cima da mesa.

"Elton espera padrões muito, muito elevados de todos à sua volta", diz Aslett. "As crianças são desorganizadas, as crianças são barulhentas, elas derrubam coisas e metem-se à nossa frente. Eu estava à espera de que tudo isso fosse um desafio complicado para ele. Mas não foi. Os miúdos entram a correr na sala interrompendo-o em alguma coisa e ele não se importa absolutamente nada. A paternidade desbloqueou alguma coisa."

Não são estabelecidas quaisquer expectativas em relação à forma como os dois rapazinhos irão viver as vidas deles, à exceção do mote "sê fiel a ti mesmo", diz Furnish. No entanto, Elton ficou bastante animado quando pareceu que o jovem Zachary tinha algum talento para o futebol. Parte da razão pela qual o ex-proprietário do Watford FC ficou tão amigo de David Beckham foi o seu conhecimento do jogo. Ele também se deu bem com José Mourinho, o treinador do Chelsea, quando eles se sentaram ao lado um do outro no jantar de entrega do prémio Homem do Ano da GQ.

Porém, agora que Zachary começou a escola, ele está a iniciar--se no râguebi e tem-se desligado do futebol. "Elton sabe que o filho tem de se aproximar do futebol nos seus próprios termos", diz Furnish. "E se as sessões do pai na mesa da cozinha a dar socos no ar enquanto olha para o ecrã e se excita com o jogo de futebol o atraírem verdadeiramente, então fantástico. E se isso não acontecer, então tudo bem na mesma."

Furnish é tão elegante como os fatos trespassados que usa na primeira fila das passagens de modelos. Ele tornou-se conhecido do público como realizador do documentário Birras e Tiaras, de 1997, que popularizou os piores excessos do seu então namorado.

Agora com 53 anos, Furnish é o cérebro por trás de todas as coisas relacionadas com Elton. Nos últimos meses, assumiu o controlo do dia-a-dia de todo o seu império empresarial: a agência de talentos, com clientes como Ed Sheeran; o negócio da produtora de televisão, que acabou de filmar um documentário para a rede de cabo HBO; o estúdio de cinema, que foi responsável pelo filme de animação para crianças Gnomeu e Julieta e que está a produzir uma sequela; a agência de gestão desportiva que agencia os ciclistas olímpicos Laura Trott e Jason Kenny; e a empresa de produção teatral responsável por Billy Elliot e O Rei Leão.

"E depois, a locomotiva que impulsiona tudo isso, e que eu também supervisiono e dirijo agora, é Elton. A marca Elton", explica ele.

Há um objetivo específico por trás deste assumir do controlo do império: ter o pai em casa à hora de deitar mais frequentemente. "Muito mais, muito mais", diz Furnish. "Mais do que nunca, é agora um negócio de família. E com as crianças, tudo nas nossas vidas tem impacto na forma como cuidamos dos filhos. Eu quero ter todas aquelas empresas a trabalhar em harmonia. Também quero fazer as empresas crescer para reduzir a nossa dependência financeira das digressões do Elton."

Furnish veio a Nova Iorque para reuniões com o empresário teatral Jimmy Nederlander sobre a encenação de um musical que Elton escreveu, cujos pormenores são ultrassecretos. No dia seguinte voará para Toronto, sua cidade natal, onde irá buscar os dois filhos ao avião e levá-los a visitar os seus avós canadianos. Em seguida, a comitiva familiar, mais a baby-sitter, apanhará outro voo de várias horas para Los Angeles onde se encontrará com Elton para as duas semanas de férias de meio do período. Depois de uma viagem de regresso via Nova Iorque novamente, para um jantar de angariação de fundos, os rapazes não verão o papá Elton outra vez até ao Natal, pois ele irá passar o mês de novembro numa digressão pela Ásia. O papá Furnish ficará a segurar o forte doméstico.

A vida com Elton tem sido sempre assim, diz Furnish. E como um casal gay de destaque, ambos admitem sentir a pressão para usar o seu relacionamento com fins políticos.

Eles uniram-se civilmente a 21 de dezembro de 2005, o primeiro dia que em que foi legalmente possível fazê-lo. No seu nono aniversário, converteram a união num casamento - eles esperaram até que desaparecesse uma lacuna na lei para assegurar que não teriam de dissolver a união civil para se casarem.

A união não tem passado sem a sua quota de escrutínio. O Sun on Sunday publicou, no início de 2015, uma história carregada de insinuações, salientando que Furnish tinha comprado um apartamento de 330 000 libras (cerca de 450 mil euros) no Sul de Londres para um atraente treinador pessoal de 33 anos, o qual o tinha também acompanhado numa série de viagens.

"Oh, isso foi uma situação em que eu estava apenas a ajudar alguém e que foi completamente mal interpretada", diz Furnish, aparentemente imperturbável.

A mãe de Elton também tem sido famosa por recorrer aos tabloides para desabafar os seus sentimentos sobre o genro, que ela parece culpar por uma zanga de sete anos entre mãe e filho. Sheila Farebrother não compareceu no casamento Furnish--John e contratou um sósia de Elton em março, para a festa dos seus 90 anos. Ela disse ao Daily Mail, no início deste ano, que a última vez que falou com o filho terminou a conversa dizendo: "Tu tens mais consideração por esse f****** com quem te casaste do que pela tua própria mãe." "Isso deixa-me apenas muito triste", disse Furnish. "Próxima pergunta."

Agora que são pais, os Furnish--John também estão a ser escrutinados como modelos para os pais gay. A ativista feminista Germaine Greer criticou o casal por lesar a maternidade, depois de se ter sabido que Furnish aparece como a mãe das crianças nas suas certidões de nascimento. Eles também tiveram uma briga pública com os estilistas italianos Dolce & Gabbana, que sugeriram que era errado os homens gay terem crianças "sintéticas" de barrigas de aluguer. As feridas foram já supostamente saradas com um pedido de desculpas.

Furnish insiste que nem Zachary nem Elijah perguntaram alguma vez por que motivo têm dois pais. "Tenho a certeza de que não é do agrado de toda a gente", diz ele. "Tudo o que temos encontrado nesta grande mudança nas nossas vidas é amor e apoio. E estou a ser realmente sincero. Nós não tivemos qualquer reação negativa e todos, desde os pais na direção da escola aos professores e aos fãs, têm tido reações positivas."

Furnish não está preocupado com a falta de uma figura materna - pessoas como Victoria Beckham são uma presença constante nas vidas deles (Furnish e Elton são padrinhos de dois dos quatro filhos de Beckham). Ele também não se preocupa com o facto de tanto ele como Elton serem um pouco velhos para acompanhar duas crianças tão pequenas.

"Na verdade, estou muito grato por ter sido pai na altura em que fui", diz. "Nada nos prepara para a responsabilidade e para as mudanças na vida. Olho para os meus pais e fico maravilhado por, aos 20 anos, eles estarem a começar as suas carreiras, a pagar uma hipoteca, a comprar uma casa, a começar uma família, tudo isso ao mesmo tempo. Eu sinto-me muito mais confortável na minha pele profissionalmente do que me sentia há 20 anos. Financeiramente, a nossa vida está num lugar sólido. Quanto a ser capaz de dar às crianças tanta atenção quanto possível, essas coisas já não são distrações agora. E também, no que respeita ao trabalho, é muito, muito fácil. Ou ele é realmente bom para o nosso negócio e queremos fazê-lo ou então recusamo-lo, porque isso significa tempo longe das crianças. É uma decisão fácil de tomar."

Uma coisa que a marca Elton continuará a representar são os direitos dos homossexuais. "Alguém como Elton pode quebrar algumas barreiras, ele pode demolir alguns muros", diz Furnish. "Há sempre outras coisas na área política sobre as quais não estamos qualificados para falar com o presidente Putin, mas podemos ir lá e falar com ele sobre isto." No momento em que criou a fundação, Sir Elton John, além de recordar que o estigma é o maior desafio, lembrou também que "ninguém deve ser deixado para trás".

(Leia aqui a primeira parte desta reportagem que o DN publicou no sábado, 2 de janeiro)

David Furnish continua irritado por ter deixado que o seu marido, Sir Elton John, falasse com um falso Vladimir Putin. "Foi uma fraude muito sofisticada", diz ele, apontando-me um dedo cheio de anéis do outro lado da mesa. "Nós verificámos e eles passaram nos testes, tinham os nomes certos e os números de telefone corretos."

"No momento em que veio a chamada eu disse "por favor, por favor, vamos verificar que isto não é uma brincadeira", porque todos nos lembrávamos do falso telefonema de Sarah Palin para Sarkozy."

Quando transpirou que Elton John tinha sido enganado, aquilo deu manchetes. "Depois, claro, ligou o verdadeiro Putin", acrescenta Furnish. "Ele foi muito simpático e educado, foi muito, muito amável ao telefone."

Ser casado com Elton faz que, aparentemente, o facto de falar com líderes mundiais em alta voz no conforto da sala de estar pareça normal - tão normal como receber os Beckham para o chá ou ver futebol com o príncipe Harry.

Os burlões, um par de comediantes da televisão de Moscovo, alegaram que o presidente russo desejava falar com o músico de 68 anos sobre a legislação antigay preconceituosa que tinha levado a um rápido aumento dos espancamentos homofóbicos e forçado milhões a viver nas sombras, como acontecia antes da queda do comunismo.

No final, o ridículo parece ter valido a pena. Putin tirou realmente algum tempo ao que tinha dedicado a invadir a Síria e pegou no telefone. Ele vai mesmo encontrar-se com Elton pessoalmente para responder às preocupações deste, especialmente à da noção implícita nas leis do Kremlin de que os homossexuais são um perigo para as crianças. "Estamos em negociações com a embaixada russa agora mesmo, estamos a trabalhar para encontrar uma data", diz Furnish. Os sete membros do pessoal a tempo inteiro da Fundação Elton John de Luta contra a Sida estão já a trabalhar num dossiê de factos e estatísticas sobre o efeito pernicioso que as leis tiveram na comunidade lésbica, gay, bissexual e transgénero da Rússia, para que o seu chefe o possa usar na tentativa de influenciar positivamente o desfecho da reunião.

"A verdade é que é uma oportunidade única para ele se sentar frente a frente com alguém como o Putin e dar o seu melhor", acrescenta. "Suspeito que vai ser no próximo ano. A agenda de Elton é planeada com seis a doze meses de avanço. Não posso simplesmente metê-lo num avião e levá-lo de um lado do mundo para o outro."

Podemos ter alguma dificuldade em imaginar que um dos artistas mais histriónicos da história da música consiga alguma vez ser capaz de manter uma conversa séria com o líder mundial mais perigosamente desequilibrado do século XXI.

Certamente que toda esta encenação é apenas mais um capítulo dramático na vida de um casal de celebridades que parece ter vivido a sua vida numa nebulosa coberta de brilhos e purpurinas feita de iates e compras. No entanto, os Furnish-John estão numa cruzada para transformar o mundo num arco-íris das nações. Depois de 22 anos juntos, e com dois filhos de uma mãe de aluguer - Zachary, de 4 anos, e Elijah de 2 - eles também tiveram de crescer um pouco.

Furnish encontra-se comigo no salão do hotel St. Regis em Nova Iorque - uma casa longe de casa há mais de duas décadas. Está vestido de preto, com um lenço de seda e joias a pender de ambos os pulsos. A sua barba grisalha está bem aparada.

As datas das digressões de Elton, explica Furnish, encaixam agora nas férias escolares de Zachary - "os dois horários são colocados literalmente lado a lado", diz ele. E apesar de manterem casas por todo o mundo, o seu caríssimo ninho perto de Windsor - que foi palco dos seus celebérrimos bailes de gala durante 14 anos - tornou-se um lar permanente. "Nós costumávamos ser uma espécie de ciganos, vivendo em casas diferentes em diferentes partes do mundo", diz. "Mas agora estamos verdadeiramente convencidos de que as crianças precisam de fazer parte de uma comunidade escolar regular e não de ser retiradas da escola e levadas a viajar pelo mundo constantemente."

O VIH/sida é algo que eles sempre levaram a sério. Foi o medo da doença que fez que Elton ficasse sóbrio há 25 anos, levando-o a criar a fundação, que começou por levar as refeições a vítimas de sida moribundas que viviam perto da sua casa em Atlanta, na Geórgia. "Normalmente, eu já não deveria estar aqui."

"Eu deveria estar morto, debaixo da terra numa caixa de madeira", disse-me Elton mais tarde. "Eu deveria ter contraído o VIH na década de 1980 e ter morrido na de 1990, tal como Freddie Mercury. Ou como Rock Hudson."

O empurrão final para se tornar um militante ativo veio da luta pública do adolescente americano Ryan White (morreu em abril de 1990), um hemofílico que contraíra a doença a partir de uma transfusão de sangue, mas que se manteve solidário com a comunidade gay para ajudar a mudar a imagem da doença. "Naquele tempo, eu estava a viver uma vida de vício, muito autocentrada, e a humanidade da família White atingiu-me como um raio", diz Elton. "Aquilo fez-me recordar que ser um ser humano decente significava realmente preocupar-me com os outros e lutar por coisas para além de mim mesmo."

"Naquela época, a sida era a doença gay. À medida que os meus amigos homossexuais iram morrendo, num grande sofrimento, percebi que era nesta luta que eu, como homossexual, tinha de participar e de fazer alguma coisa. Fiquei sóbrio e dei início à Fundação Elton John de Luta contra a Sida. Desde aí que todos os dias, todos os projetos, viagens, discursos ou angariações de fundos, todas as vezes que conheço alguém que vive com VIH/sida, visito uma clínica ou pego num bebé que nasceu livre de VIH/sida reforçam a ideia de que fazer parte de alguma coisa muito maior do que nós é o que faz a vida valer a pena ser vivida."

Furnish conheceu Elton John alguns anos depois de a fundação ter sido criada. Com vinte e poucos anos num Canadá socialmente conservador, Furnish voltou para o armário depois de o ator Rock Hudson ter morrido da doença. A capa da revista People na época especulou que Hudson tinha passado o vírus à atriz Linda Evans, da série Dinastia, na sequência de um beijo nas filmagens. A abstinência total parecia ser a solução mais segura.

Furnish só começou a viver uma vida abertamente gay depois de se mudar de Toronto para Londres, como executivo da agência de publicidade Ogilvy & Mather. Ele foi sugado para o mundo glamoroso do "planeta Elton" depois de se terem conhecido num jantar. "Há uma ressaca dos tempos das sofisticadas angariações de fundos da Fundação Elton John de Luta contra a Sida", diz Furnish. "As pessoas pensam que todo o nosso interesse era dar festas com pessoas glamorosas. Na verdade, temos conseguido um tal nível de influência e eficácia no terreno que estamos a atrair parcerias de financiamento como, por exemplo, o governo dos EUA."

A Fundação Elton John tornou-se, sem alarde, uma autoridade mundial na luta contra a doença, angariou perto de 300 milhões de dólares (cerca de 280 milhões de euros) e ajudou 150 milhões de pessoas. Cerca de 900 mil mulheres com VIH positivo, a maioria em África, deram à luz bebés saudáveis, livres do vírus graças aos medicamentos providenciados pela fundação.

"Não devia haver novas infeções pelo VIH com o que temos à nossa disposição atualmente, com o arsenal de que dispomos", diz Furnish. "Nós não temos uma cura ainda, mas estes medicamentos são tão eficazes que com as informações corretas e a comunicação certa não teremos novas infeções."

A luta contra o VIH/sida, diz Furnish, já não tem que ver com a medicina. São as atitudes em relação ao vírus e à homossexualidade que estão a matar as pessoas, razão pela qual uma discussão pública com um homofóbico notório como Putin é tão importante. "Pode parecer piegas um artista falar sobre o amor, mas, na verdade, é isso que precisa de mudar", acrescenta Elton. "Nós temos a ciência: medicamentos baratos, fáceis de tomar. O que precisamos é do amor e da compaixão para garantir que os recursos são disponibilizados para que todos recebam esse tratamento. Para isso temos de parar de julgar as pessoas e preocuparmo-nos o suficiente com o que acontece às pessoas na nossa sociedade. Na maioria das vezes hoje, isso significa preocuparmo-nos com os que são pobres ou que não estejam em conformidade com os estereótipos, ou que têm pouco poder sobre o seu futuro, especialmente as mulheres jovens."

O progresso da fundação na luta contra o VIH tem sido um sucesso extraordinário. Furnish lembra que na sua primeira viagem com a fundação para a África do Sul, há cerca de 20 anos, a maioria das vítimas com quem eles tinham planeado encontrar-se tinham morrido antes que eles conseguissem chegar até elas. Agora, em muitos dos mesmos lugares, mães jovens usam T-shirts em que declaram ser VIH positivas - orgulhosas por, ao tomarem a medicação, terem sido capazes de evitar a transmissão do vírus aos seus filhos.

No entanto, existem anomalias. As taxas de infeção de VIH/sida têm vindo a aumentar na América do Sul, em parte devido a um aumento do consumo de heroína e da partilha de agulhas, mas também, afirma Furnish, devido ao estigma continuado da homossexualidade entre jovens negros. Em muitos dos países africanos onde a fundação atua as pessoas a que eles estão a tentar chegar têm pouca consciência de serem homossexuais e, normalmente, têm mulheres e namoradas, bem como parceiros do sexo masculino, ajudando à continuação da disseminação do vírus.

A guerra da propaganda continua também. Em setembro, o Papa Francisco descreveu o tipo de programas em que a fundação está envolvida como fazendo parte de um processo de "colonização ideológica", onde a aceitação de medicamentos para o VIH está quase condicionada ao aceitar a existência da homossexualidade. "Eu sou muito pró-Papa Francisco numa quantidade de coisas que ele disse e fez até agora", diz Furnish. "O histórico da Igreja Católica neste assunto é terrível. João Paulo II disse, emitiu mesmo uma mensagem oficial, de que os preservativos alastram a sida. Na minha opinião, isso é genocídio."

Para Elton John é difícil subestimar o impacto psicológico de estigmatizar a doença. Mesmo tendo assumido parcialmente numa entrevista à Rolling Stone em 1976, declarando-se "bissexual", foram precisos mais 12 anos (quatro dos quais passados num casamento heterossexual) para se assumir totalmente.

"Como homem gay que cresceu em Inglaterra nos anos 1950 e 1960, eu tinha aquilo que todos os homossexuais partilhavam, que era o estigma interiorizado", diz ele. "Quando somos ensinados desde muito novos a considerar que a homossexualidade é uma coisa suja, feia, uma aberração, mesmo ridícula, isso penetra na alma. É mais difícil protegermo-nos ou cuidar de nós mesmos, e isso faz que as pessoas que de outra forma estariam por perto se afastem. Isto é o que está a acontecer em dezenas de países em África, onde a homossexualidade é criminalizada, com a consequência de as comunidades LGBT terem demasiado medo de fazer o teste do VIH e obter tratamento devido ao receio de serem condenadas ao ostracismo ou, pior, espancadas, presas ou mortas."

A fundação acabou de receber cinco milhões de dólares (cerca de 4,5 milhões de euros) do Plano de Emergência do Presidente para a luta contra a Sida, criado durante a administração de George W. Bush, para, em conjunto, criarem serviços de aconselhamento e centros de tratamento de VIH em dez países africanos onde a homossexualidade é reprimida pelo Estado. A fundação de Elton John, por outras palavras, vai estar a funcionar como um canal clandestino para as operações do governo americano.

"Se se fizesse disto uma operação oficial do governo dos Estados Unidos, então tornar-se-ia um problema diplomático enorme", explica Furnish. "Ao passar por nós, que trabalhamos no terreno, com as pessoas nos seus próprios países, sabe-se como encontrar e fazer passar as mensagens e as informações para as pessoas que precisam de as receber."

O perfil de Elton é "uma bênção e uma maldição", confessa Furnish. Ele abre as portas que de outra maneira poderiam não ser abertas, como a do gabinete de Putin. Ele também significa que pode ser uma luta para se ser levado a sério, mesmo que os dias dos bailes extravagantes tenham acabado. Em vez disso, eles organizam jantares de angariação de fundos - neste ano, a Fundação Melinda Gates apresentou o seu projeto para a juventude.

Exclusivo The Sunday Times

Ler mais