Na aldeia mais portuguesa quase não há portugueses

Idanha-a-Nova é o terceiro concelho do país com menos gente em comparação com a sua dimensão territorial, dos maiores de Portugal.

Na região as pessoas foram saindo à medida que a agricultura e as fábricas foram secando. Nas últimas eleições desceu abaixo dos dez mil eleitores. Agora encontra-se muitos turistas por estas terras, principalmente os vizinhos espanhóis. É a última das três reportagens do DN sobre o despovoamento

Monsanto e Idanha-a-Velha são as aldeias históricas de Idanha-a--Nova, o concelho do Centro mais despovoado. E, em 1938, atribuíram a Monsanto o título de Aldeia mais Portuguesa de Portugal, vila de pedra construída numa encosta de granito. Características que validam a distinção, não fosse isso e deveria mudar de nome. Poucos portugueses ali vivem permanentemente. Turistas muitos, sobretudo espanhóis. "Estas portas, agora fechadas, estavam sempre abertas. Não havia casa que não tivesse gente. Hoje morre uma pessoa e a porta já não se abre mais." Não vem para cá ninguém", lamenta Maria José Rodrigues, 86 anos.


Mais de oito décadas de vida vestidas há 18 de preto, desde que o marido morreu. Só há pouco tempo se permitiu usar meias e camisola em azul-escuro. Vive sozinha, sem telefone, esperando os familiares que lhe fazem as compras e a visitam todos os dias. Maria José até se considera com sorte, tem filhas e netos na aldeia, embora trabalhem fora e regressem à noite.


Rua acima, rua abaixo, por entre as pedras de Monsanto, passa uma turma de estudantes espanhóis, um estrangeiro residente bebe uma cerveja num café em que é o único cliente, turistas tiram fotos, outros fazem caminhadas. É raro ver-se um habitante português.


"Apanhou-me porque vim passar uma semana. Moro em Queluz, para onde fui ainda solteira, por lá casei e fiquei. Trabalhei numa fábrica de móveis e fui doméstica." É a história de Adosinda Silva, 65 anos, que se divide entre a cidade, a sua aldeia e a do marido. E voltar de vez para Monsanto? "Não. Se sair de Queluz é para a terra do meu marido. Tenho lá uma boa vivenda."


Na freguesia de Salvaterra do Extremo, com apenas 170 residentes (Censos 2011), cinco mulheres sentadas em bancos de pedra num largo à entrada da vila. Têm mais de 70 anos e apenas uma não saiu da terra. Lembram o tempo de crianças em que enchiam quatro salas da primária, duas de rapazes e duas de raparigas. Hoje a escola está fechada e os filhos da aldeia cabem num táxi. Vão aprender as letras em Zabreira, onde há uma das quatro escolas do 1.º ciclo do concelho.


"E há mais crianças por causa dos ciganos. Mas esta terra também não tem nada que atraia. Só se for o ar puro, aqui não há poluição." Consolação Roseiro, 84 anos, a mais velha do grupo, lamenta a sangria de gente, o que faz de Idanha-a-Nova o terceiro concelho mais desertificado do país, 6,3 habitantes por quilómetro quadrado, segundo o Instituto Nacional de Estatística.


"Em 1950, Salvaterra do Extremo tinha 3500 pessoas, hoje tem 144 adultos e 13 crianças. É a terra mais gira do concelho e a que tem menos gente." Contas de João Rola, 71 anos, que trabalhou em Lisboa e voltou de vez às origens há sete anos. Fez parte da junta da freguesia no tempo em que a "mãe não tinha sido engolida pelo filho", uma metáfora para explicar o que aconteceu com a reorganização administrativa do território, em 2013. Eram 17 freguesias e passaram a 13. "A mãe era Salvaterra do Extremo e o filho era Monfortinho, agora a freguesia é em Monfortinho." E chamam-lhe união das freguesias.


João Rola conversa num banco de homens ao lado da Igreja. Um cenário em tudo idêntico ao das mulheres. Têm todos mais de 70 anos e apenas um não saiu da aldeia. Migraram para Lisboa ou para o estrangeiro, um deles, António Lopes, 73 anos, lembra Angola.


No grupo das mulheres é Maria Dias, 71 anos, que divide o ano entre França e Portugal. "Naquele tempo era muito diferente, havia a crise de trabalho", justifica Maria de Jesus Lito, 83 anos. Andou por muito lado, o marido era da GNR, acabou por se fixar no Ribatejo. "Agora é a mesma coisa", responde-lhe Catarina Terrola, 73 anos, que "fugiu" para Lisboa. Falta trabalho e não há o contrabando para Espanha como havia antigamente.


A cidade espanhola Zarza la Mayor (Cáceres) fica a 13,6 quilómetros e tem quase dez vezes mais habitantes. É onde os idanhenses se abastecem de combustível, também para a festa brava. E nem de propósito, António Pilim, o amigo espanhol, vem anunciar a próxima corrida e que inclui o toureiro português Rui Fernandes. Como bons raianos, os portugueses falam-lhe em castelhano.


Maria de Jesus também tem casa em Castelo Branco, vizinhos de Idanha-a-Nova. E, apesar de Idanha ser mais perto, é Penamacor que merece destaque à saída das estradas albicastrenses apesar da luta do autarca de Idanha, Armindo Jacinto. "Ando há mais de dez anos na sinalética, não se compreende porque não é indicado o concelho mais próximo. Uma vez falei para a Junta Autónoma de Estradas [agora Estradas de Portugal] e responderam: "Fale com o vice-presidente, ele é de Penamacor.""

Quem fica na aldeia

"O meu marido não sabia ler e tive de ficar em Salvaterra. Ele tocava concertina como ninguém, toda a gente o conhecia". Razões apontadas por Maria Isabel Samarra, 74 anos, para nunca ter saído. "Vivi aqui toda e vida. Não sei se quem saiu teve melhor vida. Pelo menos ganharam mais uns tostões. A minha reforma é mais pequena." As quatro amigas com quem faz caminhadas deixaram a freguesia e regressaram, voltando à cidade onde trabalharam.


Regressam os mais velhos, partem os poucos mais novos. Desde logo para estudar. A maioria prefere ir para a universidade a frequentar a Escola Superior de Gestão ou na Escola Profissional da Raia, ambas em Idanha-a-Nova.


"Quando for mais velho vou para Lisboa fazer a minha vida." Assim prevê José Ribeiro, 13 anos, no 8.º ano. Ele e o irmão, Simão Ribeiro, 12 anos, 6.º ano, são da Grande Lisboa, mas o desemprego dos pais levou--os há três anos à casa dos bisavós. Apreciam a liberdade de movimentos em Salvaterra do Extremo, falta-lhes amigos para formar uma equipa de futebol, nem sequer de futsal. Têm saudades de quem deixaram e das praias, mas prefeririam ficar se tivessem de optar entre a terra e Alfragide, onde viviam. "Para sempre não. Não há empregos e quero ir para a universidade", diz Simão.


Chegaram às 17.45 na camioneta que os trouxe da secundária de Idanha-a-Nova e que os levou pelas 07.00. Transporta cinco alunos, além dos irmãos, a Bruna Dias, 12 anos, o João Miguel e o João Gabriel, ambos de 11 anos.


Idanha-a-Nova tem quase quatro vezes menos habitantes do que em 1950. Mas foi nos anos 60 do século passado que teve a maior quebra, menos dez mil residentes em dez anos. E foi sempre a diminuir. Nas eleições presidenciais baixou a fasquia dos dez mil eleitores, um prejuízo nas comparticipações do Estado. Isto apesar das aldeias históricas (e muito turísticas) de Monsanto e de Idanha-a-Velha, da classificação da UNESCO como Cidade Criativa da Música, de integrar a Rede Mundial de Geoparques e das iniciativas locais para atrair gente.
Recomeçar é o nome da estratégia para 2015-2025 para evitar a saída

da população, trazer de volta quem saiu ou nasceu na diáspora, conquistar novos idanhenses (ver entrevista ao presidente da Câmara de Idanha-a-Nova). São quatro os principais programas: Green Valley (empreendedorismo de inovação rural), Vive (captação de talento), Experimenta ( experimentação de projetos) e Made In (promoção da cultura e produtos locais). Já se realizaram 220 ações de acolhimento e há 282 potenciais novos moradores.


Maria Caldeira e a família tinham o objetivo de viver em Idanha-a-Nova e o Recomeçar só facilitou a integração. Gostaram aos poucos e poucos da freguesia de Ladoeiros, que visitavam há 15 anos através de amigos, já o local para abrir um negócio foi amor à primeira vista. "Passávamos no largo da fonte, o nosso filho correu para brincar, olhei para os olhos lindos do meu marido e vi que sentia o mesmo que eu. Ele disse: "É aqui." Assim nasceu a cafetaria Casa da Velha Fonte, inaugurado em março, que pretende ser o início de um projeto que liga a tradição à natureza. Esse o motivo que os levou a deixar Sintra, onde viviam num prédio de 52 andares.


Maria tem 44 anos e era secretária adjunta de direção, uma carreira de sucesso mas que a traziam obcecada com o trabalho. Provavelmente agora até trabalha mais horas, mas é diferente. "Foi uma mudança de postura e de vida, pela procura do amor." E nada paga o cantar dos pássaros ou a descoberta de que a amendoeira começa a florir. O marido trabalha numa multinacional, emprego que manteve, agora em Castelo Branco. O filho tem 8 anos.

É preciso gostar muito

Ladoeiros é uma das 11 freguesias com mais população do concelho, 1290 pessoas, só suplantado pela sede de concelho, mas já foram o dobro, quando havia a produção de tabaco e a fábrica do leite. Há 30 anos, quando começou a ser distribuído o suplemento alimentar nas escolas, era a Casa Marrafa que o fornecia. "O nosso recorde foram 144 pequenos-almoços, agora não deverão ser mais de 40 alunos nos quatro anos da primária", conta José Marrafa.


Crianças que quando crescerem vão estudar fora e poucas são as que voltam. Tiago Moreira é uma exceção, regressou para trabalhar com o pai. Faltam-lhe algumas cadeiras para concluir o curso de radiologia. "A maioria dos meus amigos não tem cá trabalho, vão para Castelo Branco, Lisboa ou para o estrangeiro. Não tenho dúvidas de que o futuro passa pela agricultura mas não é fácil. É preciso saber fazer e gostar. Tem de se andar nas terras todos os dias e quem não está habituado esmorece."


Quem regressou à terra depois da reforma foram os irmãos António Robalo, 75 anos, e João Robalo, 83. Cresceram e fizeram-se homens na agricultura, o primeiro acabou na banca, o segundo nas obras, ambos em Lisboa. Vivem em Idanha-a-Velha, outra aldeia histórica do concelho. Os filhos estão em Lisboa e na Moita, onde agora vão de visita ou ao médico.


Idanha-a-Nova tem um hospital e um centro de saúde, as restantes freguesias têm extensões de saúde, têm médico uma vez por mês, menos em férias ou se adoecem. Não há farmácias nas aldeias e as compras fazem-se na sede do concelho ou mais longe. A sorte são as carrinhas, para vender pão, peixe, mercearias e drogarias.


António aprecia o ar e o silêncio, mas percebe que será diferente para um jovem. "Vive-se muito bem, mesmo quem tenha uma reforma baixa, há sempre uma hortinha. Também é bom para os garotos, embora tenham de ir à escola longe, o resto não tem futuro. Há um agricultor que tem dois empregados, não há mais ninguém a dar trabalho. Quem quiser ganhar a jorna tem de sair."


Os empregadores são Sandra Sequeira, 40 anos, e o marido, pais das duas únicas crianças da freguesia, uma menina de 13 e um rapaz de 5. Ela apanha o autocarro às 07.30 para ir à secundária de Idanha-a-Nova, regressa às 17.00, transporte gratuito até ao 12.º ano. Ele vai ao jardim-de-infância de Monsanto, onde a autarquia trava uma batalha pela reabertura da escola primária. Os manuais escolares e a alimentação são gratuitos até ao primeiro ciclo. A autarquia paga 50% das propinas no ensino superior a quem estuda no concelho e a quem estuda fora se tiver dificuldades económicas.
Sandra gosta da pacatez da aldeia e quando tem tempo faz pão no forno comunitário para vender. Cultivam terras alugadas, criam gado. "Não me falta nada, se calhar a eles falta [filhos], falta-lhes miúdos para brincar, mas também já estão habituados. Entretêm-se com a televisão, com o tablet, só vêm cá para fora quando está bom tempo. Se calhar não há vantagens em viver na aldeia, mas eu não consigo viver na cidade".


A tranquilidade e o ar puro são os bens mais apreciados para quem vive em Idanha-a-Nova. O presidente da autarquia acrescenta a qualidade dos produtos alimentares, em especial os legumes, as hortaliças e os frutos, de agricultura biológica, para convencer um forasteiro das virtudes da sua terra. O problema é que estes não vão à mesa dos restaurantes locais.

Com a reportagem nas aldeias de Monsanto e Idanha-a-Velha o DN conclui a série de trabalhos que publicou sobre as zonas mais desertificadas do país, em que se mostrou as realidades vividas em Alcoutim (Algarve) e Mértola (Alentejo).

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