Adeus ao "Chapéu Preto". Morreu o maestro Arlindo de Carvalho

Morreu o compositor e maestro Arlindo de Carvalho. Tinha 86 anos

O maestro e compositor Arlindo de Carvalho, que morreu no sábado aos 86 anos em Lisboa, assinou a autoria de canções como "Chapéu Preto", "Fadinho Serrano", "Canção da Beira Baixa" ou "Ai, ai, Oledo".

Arlindo de Carvalho, nascido a 27 de abril de 1930 na Soalheira, ña Beira Baixa, cedo evidenciou o gosto pela música. Tendo efetuado o curso do Magistério Primário, estudou música na Academia de Amadores de Música, de Lisboa, onde conheceu Fernando Lopes-Graça, e fez ainda parte do respetivo coro, e mais tarde, já exilado em França, estudou no Conservatório de Poitiers.

Começou a compor em 1949, tendo abordado vários géneros musicais, com predominantemente de raiz etnográfica, mormente da Beira Baixa. Em 2011, quando a Sociedade Portuguesa de Autores lhe entregou a Medalha de Honra, realçou a sua valiosa obra musical de raiz popular.

Arlindo de Carvalho assinou também as letras de algumas das suas composições, designadamente "Canção da Beira Baixa", gravada por si, e por outros intérpretes como Gina Maria, ou ainda as canções "Brinquem todos" e "Beijinho", gravadas por Corina, ou "Canção da Praia da Areia Branca", gravada por Alexandra.

O compositor foi autor de canções ligeiras, de raiz folclórica, de intervenção e fados de Coimbra, nomeadamente "Bate o fado trigueirinha", com letra de António Vilar da Costa, "Hortelã mourisca", com letra de José Vicente, ou "Raminho de Loureiro", com letra de Correia Tavares ou "Fadinho Serrano" e "Tão longe daqui", estes dois títulos com letra de Hernâni Correia.

Em 1960, a "Canção do Pastor", de sua autoria, interpretada pelo tenor Guilherme Kjölner, venceu o 2.º Festival da Canção Portuguesa, que se realizou no Porto.

Em 1965, exilou-se voluntariamente em França, altura em que a par de outras atividades foi aluno no Conservatório de Poitiers, e estreou-se como cantor em Paris, em 1966. Gravou vários discos para uma discográfica francesa e percorreu a Europa.

Ainda durante o exílio, que durou até 1968, foi leitor de português no Liceu Henry IV, em Poitiers.

Regressado a Portugal, em 1969, uma canção de sua autoria representa Portugal no Festival da Canção Latina, no México, regressando a este certame em 1970, com o tema "Hei de ser tua", interpretado por Lenita Gentil, que gravou e popularizou "Ai, ai, Oledo".

Vários intérpretes têm composições de Arlindo de Carvalho no seu repertório, entre eles, Luís Piçarra, Gina Maria, Amália Rodrigues, Tristão da Silva, António Mourão, Maria de Fátima Bravo, Madalena Iglésias, Maria de Lourdes Resende, Rão Kyao, Júlio Pereira, Fernanda Maria, Florência, Lenita Gentil, Alexandra, Nuno da Câmara Pereira, Maria do Ceo, Guilherme Kjolner, Armando Guerreiro, Carlos Guilherme, Mísia, Cristina Branco, Mafalda Arnauth, Maria Ana Bobonne, Rodrigo Costa Félix, o sueco Bjorn Ehrling, e o australiano Richard Winsborough.

Várias composições de sua autoria fazem também parte do repertório de grupos folclóricos, e de grupos corais portugueses e estrangeiros.

Na década de 1970, o líder do Partido Social-Democrata sueco, Olof Palme convidou Arlindo de Carvalho para participar, como cantor, nas campanhas eleitorais de 1976 e 1979.

Em novembro de 1998 o compositor fundou o Grupo Coral da Soalheira, e no ano seguinte compôs a música para "A vida não é uma prisão" um poema de Nuno Gomes dos Santos, tema dedicado a Timor-Leste.

Em 2007 publicou o seu CD "Coimbra dentro da alma", e em 2009 foi convidado para fazer um recital no Museu da Aquitânia, em Bordéus, numa homenagem prestada a Aristides Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, que salvou milhares de judeus durante a II Grande Guerra.

Em 2011, a Câmara Municipal de Castelo Branco homenageou o compositor, tendo promovido um espetáculo nesta cidade, inteiramente dedicado à sua obra, no qual participaram Luísa Basto e o Grupo Coral da Soalheira.

Também nesse ano, um outro espetáculo de homenagem a Arlindo de carvalho, realizou-se na Aula magna da Universidade de Lisboa, pelo seu contributo para o fado.

Segundo o músico Luís Ribeiro, que o acompanhou à guitarra portuguesa, Arlindo de Carvalho terá cantado pela última vez em público na passada segunda-feira, no restaurante típico Guitarras de Lisboa, na capital, tendo interpretado "Comboio da Beira Baixa", de sua autoria.

Lembra-se da letra do "Chapéu Preto"?

A azeitona já está preta, a azeitona já está preta,

Já se pode armar aos tordos, já se pode armar aos tordos.

Diz-me lá, ó cara linda, diz-me lá, ó cara linda,

Como vais de amores novos, como vais de amores novos.

[Refrão]

É mentira, é mentira,

É mentira sim, senhor!
Eu nunca pedi um beijo,

Quem mo deu foi meu amor! [Bis]

Ó que lindo chapéu preto
Naquela cabeça vai.
Ó que lindo rapazinho,
Para genro do meu pai.

[Refrão]

Quem me dera ser colete,
Quem me dera ser botão.
Para andar agarradinha,
Juntinha ao teu coração.

E do "Fadinho Serrano" que foi cantado por Amália?

Muito boa noite, senhoras, senhores
Lá na minha terra há bons cantadores
Há bons cantadores, boas cantadeiras
Choram as casadas, cantam as solteiras
Cantam as solteiras cantigas de amores
Muito boa noite, senhoras, senhores

Fadinho serrano és tão ao meu gosto
Fadinho catita, sempre bem disposto
Sempre bem disposto, seja tarde ou cedo,
Fazer bons amigos é o teu segredo
É o teu segredo sorrir ao desgosto
Fadinho serrano sempre bem disposto

Fiar-se em mulheres é crer no diabo
São todas iguais, ao fim, ao cabo
Ao fim ao cabo, moça que namora
Se vai em cantigas é certo que chora
É certo que chora, com esta me acabo
Fiar-se nos homens é o nosso fado

E a canção da Beira Baixa?

Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.

Inda mal abria os olhos
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
Acabado de nascer.

Inda mal abria os olhos
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
Acabado de nascer.

Quando eu já for velhinho
Quando eu já for velhinho
Acabado de morrer
Acabado de morrer.

Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
Acabados de morrer.

Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
Acabados de morrer.

Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.

Inda mal abria os olhos
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
Acabado de nascer.

Inda mal abria os olhos
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
Acabado de nascer.

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