Miopia aumenta nos jovens e a culpa é da falta de sol e dos computadores

Cerca de 25% da população tem miopia. Especialistas dizem que estar muito tempo em espaços fechados faz aumentar doença

Quando andava no 10.º ano, Ana Amorim, 23 anos, começou a achar que via mal para o quadro. "Ou menos bem do que os meus colegas." Foi a uma consulta e detetaram-lhe uma "pequena miopia". "A minha graduação foi sempre mais ou menos estável. Cerca de uma dioptria em cada olho", diz ao DN a estudante do programa doutoral de Optometria e Ciências da Visão na Universidade do Minho. Mesmo antes de saber que o uso de dispositivos móveis ou que passar muito tempo em casa tinham influência na progressão da miopia, Ana já tinha alguns cuidados: "Nunca gostei de estar muito tempo ao computador, por exemplo."

Cerca de 2,5 milhões de portugueses sofrem de miopia. Ana Amorim diz que "é um dos maiores problemas de saúde pública e tem vindo a crescer cada vez mais". Um estudo que envolveu alunos da Universidade do Minho mostrou que, em 12 anos, entre 2002 e 2014, houve um aumento da prevalência da miopia de 23% para 42%. Outros estudos feitos a nível mundial mostram que tem existido um crescimento brutal da doença. Uma investigação recente feita pela University College of London revelou que 54% das pessoas com mais de 40 anos têm erros de refração, quando na década de 60 apenas 10% sofriam de miopia. A perceção dos especialistas contactados pelo DN é de que, em Portugal, a prevalência também está a aumentar.

Mais tempo a olhar para livros e dispositivos eletrónicos e cada vez menos tempo ao ar livre ajudam a explicar o aumento da incidência deste problema de visão. Os resultados obtidos na Universidade do Minho confirmam uma tendência que se tem verificado a nível mundial. Jorge Jorge, professor na Escola de Ciência da Universidade do Minho e investigador no laboratório de investigação em optometria clínica e experimental do Centro de Física da UMinho, diz ter sido detetado que "havia um aumento do número de horas no uso de computadores e outros dispositivos móveis". Os fatores de risco que se conhecem até agora, prossegue, são "o excesso de trabalho em visão de perto", nomeadamente a ler, ao computador, tablet e telemóvel, e "a falta de atividade ao ar livre". "Em 2008 um grupo de investigadores australianos verificou que as crianças míopes passam menos tempo em atividades ao ar livre do que as outras crianças. Desde essa data todos os estudos realizados chegaram à mesma conclusão", sublinha o investigador.

O que falta perceber é de que forma é que as atividades ao ar livre têm influência no desenvolvimento da miopia. Jorge Jorge diz que têm sido estudados vários fatores: "A influência da luz solar no processamento da vitamina D e produção de dopamina; a diminuição do diâmetro pupilar e consequente diminuição das aberrações periféricas; o espectro de radiação da luz solar."

Taxa sobe nos mais jovens

Nos países asiáticos a prevalência da miopia chega a ser de 90% a 95% entre as crianças e adolescentes. Em Portugal, o presidente da Associação de Profissionais Licenciados em Optometria (APLO), Raul Alberto de Sousa, diz que "rondará cerca de 30% na população de jovens adultos entre os 18 e os 25 anos" e "será de aproximadamente 25%" na população em geral. Face ao aumento exponencial verificado nos países asiáticos, o representante alerta que "devemos considerar que é um assunto preocupante e que devemos analisar e tomar medidas para evitar ou prevenir a ocorrência da mesma "pandemia" em Portugal.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO), Manuel Monteiro-Grillo, não conhece estudos feitos em Portugal que mostrem um aumento da prevalência da miopia. "Mas existe essa perceção. Temos essa noção", indica. Também se verifica, prossegue, que numa altura em que a doença tinha tendência a estabilizar, por volta dos 20 anos, "encontramos gente jovem na qual continua a aumentar". Isto pode estar relacionado com o uso "de computadores, tablets, smartphones". E, por outro lado, "com o facto de passarmos cada vez mais tempo fechados".

Na maioria dos casos, a miopia surge durante a infância e adolescência, mas também pode ser congénita, ou seja, aparecer logo à nascença. "É um obstáculo à aprendizagem, ao desenvolvimento indi- vidual e integração na sociedade das atuais crianças e adultos do futuro", alerta Raul Alberto de Sousa, destacando que "as miopias de maior potência, também chamadas de miopias patológicas, apresentam maior predisposição para sofrer patologias oculares secundárias/associadas". Muitas vezes, diz Manuel Monteiro-Grillo, são os pais que se apercebem de que a criança vê mal ao longe, porque se aproxima muito da televisão, por exemplo. Quando surge na adolescência, é mais fácil ser o próprio a aperceber-se.

Reduzir horas em visão de perto

Nos tempos atuais, a miopia é corrigida com o recurso a óculos, lentes de contacto e cirurgia. Nos últimos anos, surgiram também lentes de contacto que permitem reduzir a progressão da doença. Além destas, o investigador Jorge Jorge considera que é necessário "reduzir o número de horas passadas em visão de perto e aumentar o número de horas ao ar livre" para combater este problema de saúde pública.

Destacando a importância da "vigilância precoce e assídua", Raul Alberto de Sousa reforça que "os pais, educadores e todos os profissionais de saúde devem promover hábitos de higiene visual tal como os descansos regulares nas tarefas prolongadas de visão ao perto (leitura, estudo, etc.) e tentar que as crianças (aquelas em quem habitualmente a miopia progride mais rapidamente) tenham hábitos de lazer ao ar livre, e evitar que estejam sempre em espaços fechados". Recentemente, a APLO deu o seu contributo sobre esta matéria para o Referencial para a Educação para a Saúde. "A escola é o local e veículo ideal para a consciencialização dos cuidados para com a visão, com o seu rastreio e adoção de boas normas de ergonomia e comportamento visuais."

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