Mercado de Santos tenta voltar à vida com supermercado

Protocolo com o grupo Dia é assinado hoje. Câmara espera revitalizar o bairro com obras que devem estar concluídas em seis meses. Comerciantes receiam concorrência

O mercado fecha às 14.00. Mas as lojas que estão no exterior também não se aguentam muito para lá dessa hora. Por falta de clientes, apontam. Resistentes, João Mota e a mulher exploram a Papelaria 22 na praça da entrada do mercado "há 25 anos ou mais". Lamentam a morte lenta que o espaço tem tido e às portas do lançamento de obras só temem que o novo inquilino lhes tire negócio. Dentro de seis meses, um supermercado da cadeia espanhola Dia vai ocupar o interior do mercado. O protocolo de concessão vai ser assinado hoje entre a empresa, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia das Avenidas Novas.

A requalificação do mercado vai colocar "os comerciantes tradicionais no exterior e liberta o interior para o supermercado, que fica com cerca de 1600 metros quadrados", explica o vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Duarte Cordeiro. As obras vão começar no exterior para depois os comerciantes que estão no interior do mercado possam ser realojados cá fora, libertando o interior para as obras e a instalação do supermercado. Cada uma das fases (interior e exterior) tem 90 dias como prazo limite de execução. Ou seja, o novo mercado do bairro de santos estará concluído em seis meses.

"A nossa expectativa é que o comércio tradicional coexista com o retalhista. Que eles percebam em que medida podem ser complementares para que o mercado funcione como um polo no seu conjunto. Achamos que o mercado com retalhista trará mais segurança, mais pessoas, mais clientes e que será benéfico para os comerciantes tradicionais também", antecipa Duarte Cordeiro.

A obra prevê a reabilitação do mercado, segundo a traça original de 1989, e um investimento de um milhão de euros por parte da cadeia de supermercados. A reabilitação do espaço, que conta com 19 comerciantes, insere-se no Plano Municipal dos Mercados de Lisboa 2016-2020.

A câmara tem lançado projetos de reabilitação de acordo com cada mercado e o bairro em que se insere, sublinha o autarca. Neste caso, "identificou-se que a zona carece de atenção do ponto de vista de regeneração urbana, tinha caído bastante do ponto de vista de oferta para os moradores e a opção limite foi requalificar o mercado para conseguir requalificar o bairro". O objetivo é que o mercado seja "o centro do bairro", aponta Duarte Cordeiro, funcionando "como polo agregador, com uma loja âncora de enorme atração", que vai ser o supermercado.

O espaço exterior vai mudar e foi projeto para funcionar como a praça do bairro. "Com uma cobertura, o arranjo das lojas no exterior, acessibilidade para o mercado ultrapassando as limitações dos degraus, um quiosque, umas árvores. Porque este bairro não tinha nenhum espaço de convívio", explica o vereador.

Para quem aqui faz negócio, apenas há movimento de manhã. Querem ganhar clientes mas duvidam da solução. "É uma incerteza. Ganharmos um hipermercado é uma coisa que do mal o menos, mas acho que para nós seria melhor uma loja do cidadão ou uns correios. Um serviço que não fizesse concorrência", refere João Matos.

Essas foram soluções adotadas para o Mercado 31 de Janeiro e para o do Forno do Tijolo, que também tem um supermercado da cadeia Lidl. Para a autarquia, o objetivo nas reabilitações dos 26 mercados da cidade é sempre apostar em algo que se possa acrescentar ao bairro ou à cidade. O de Alvalade tem um parque infantil e uma zona de refeições e o do Lumiar é exclusivo para produtos biológicos.

Para o Bairro de Santos, a autarquia tem ainda expectativa de que o novo mercado traga emprego para os residentes e crescimento comunitário.

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