Médicos tranquilizam: gravidez não é risco para mulheres com esclerose

Alterações no organismo reduzem atividade da doença. Neurologistas explicam que ter um filho não agrava a situação

António está a poucos dias de fazer 4 meses. Enche o coração e o tempo de Patrícia Rangel de Lima Moreira, 40 anos. Um sonho antigo que demorou a chegar e que trouxe novos desafios. E alguns receios superados. Patrícia tem esclerose múltipla, doença crónica inflamatória e degenerativa que afeta o sistema nervoso central. "Tenho a doença, mas não vivo para ela. A gravidez compensa tudo e o bebé... até me esqueço que tenho a doença", diz.

É esta a mensagem que o grupo de estudos para esclerose múltipla da Sociedade Portuguesa de neurologia quer passar a doentes e médicos de outras especialidades: ter um filho não agrava a doença. "Queremos que as mulheres tenham todos os filhos que desejarem e desmitificar este estigma", diz José Vale, diretor do serviço de neurologia do hospital de Loures.

Estima-se que em Portugal existam sete mil a oito mil pessoas com esclerose múltipla (EM), a maioria mulheres (três por cada homem). A doença tem maior incidência entre os 20 e os 40 anos e é a segunda mais incapacitante nos adultos jovens. E quando se quer ter um filho, as dúvidas são muitas: se o bebé pode ter a doença, se há mais riscos de um surto, se podem ou não engravidar? "A doença não tem nenhuma influência na fertilidade. Em algumas famílias há dois ou três casos, o que denuncia fatores genéticos. Esta é uma doença rara e, embora exista uma componente genética, é pouco significativa. Não é condicionante para não terem filhos", explica José Vale.

Vários estudos mostraram que durante a gravidez quase não existem sinais da doença. "Reduz a prevalência de surtos em 70%, melhor do que qualquer medicamento. Há um estudo que mostra que as mulheres com mais de duas gravidezes têm melhores resultados funcionais do que as que nunca estiveram grávidas. Havia a preocupação que após a gravidez houvesse um agravamento neurológico, o que levou obstetras e médicos de família a dissuadir as doentes de terem filhos."

O especialista explica que "os surtos que possam existir não são mais graves nem diferentes daqueles antes da gravidez". A medicação suspensa recomeçada após o parto, que pode ser natural ou de cesariana, seguindo as recomendações dos obstetras. São estas as razões que levaram o grupo de estudos da EM a preparar recomendações para acabar "esse estigma".

Sem arrependimentos

Quando descobriu que estava doente - os sintomas foram dormências nos braços e pernas -, em 2004, Patrícia não sabia nada sobre EM. Com a ajuda da neurologista e da associação de doentes SPEM percebeu que o sonho de ser mãe não estava impedido. "Queria muito ter um filho e ia ter. A neurologista era a favor, os meus pais e o médico de família tinham receio por causa de um surto. Não tive nenhuma recaída." Voltou à medicação e sabe que pode contar com o marido e os pais para a ajudarem caso a doença lhe pregue uma partida. "Vale a pena ser mãe, mesmo com a doença", afirma.

Isabel Alves, 48 anos, recorda as palavras do médico quando lhe perguntou se podia ser mãe. "Disse que nada invalidava, que a gravidez era a altura melhor porque não temos surtos. Disse-lhe "vou fazer uma equipa de futebol". Teve apenas Luísa, mas só porque o destino assim o quis. Suspendeu a medicação durante a gravidez com a recomendação de voltar após o parto. "Só me lembrei quando tive um surto e fiquei sem andar", conta, referindo as principais preocupações quando descobriu que estava grávida. "Perguntei se havia hipótese de a minha filha ter EM. O médico disse que era pouco provável." Por causa da doença vê mal e precisa de cadeira elétrica para se deslocar. É a filha que lhe dá forças e que explica aos colegas o que a mãe tem. "Diz que a mãe tem na cabeça fios que entram em curto-circuito e não passam a mensagem ao resto do corpo", conta Isabel.

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