Medicamento que bate todos os recordes e até já foi à Lua faz 120 anos

Utilizada para dores, febre, inflamação e prevenção de doenças cardiovasculares, a Aspirina nasceu a 10 de outubro de 1897

Febre. Enxaqueca. Dores de dentes. Cansaço muscular. Doença cardiovascular... São muitas as situações em que a solução passa pela toma de uma aspirina. O consumo anual de mais de cem mil milhões de comprimidos, com uma produção de cerca de 40 mil toneladas por ano, justifica o estatuto de analgésico mais vendido em todo o mundo. Hoje, o medicamento, que no campo da farmacologia bate todos os recordes, completa 120 anos de existência - foi apresentado ao público oficialmente a 10 de outubro de 1897.

"A marca Aspirina é uma história de sucesso. Dezenas de milhares de artigos científicos publicados em revistas médicas conceituadas, muitas deles nos últimos anos, revelam a enorme vitalidade da investigação clínica e farmacológica deste medicamento", observa ao DN António Gata Simão, especialista de medicina interna, que justifica o êxito de vendas e a longevidade deste produto com a "eficácia, em múltiplas situações clínicas, aliada a baixo preço". O médico, porém, rejeita a ideia de que se trata de um medicamento que "dá para tudo", conceito que lhe pode retirar a credibilidade.

"A composição da Aspirina é o ácido acetilsalicílico e é usado como antipirético e anti-inflamatório no alívio de vários tipos de dor, como antipirético, usado nos adultos para alívio da febre e dores de cabeça. Em baixa dose, tem um efeito anti-inflamatório vascular, com ação vasodilatadora, antioxidante e redução significativa no risco de eventos cardiovasculares", observa Gata Simão, adiantando ele próprio que é um prescritor da Aspirina. "Conhecemos o peso da doença cardiovascular. Acontecem cerca de 15 milhões de mortes por ano no mundo. Qual a melhor prática clínica? Prevenir ou tratar? Perante este cenário, e desde que não haja contraindicação, sou naturalmente um prescritor", diz.

O mais recente estudo sugere que a Aspirina pode ter um efeito quimiopreventivo em algumas formas de cancro, nomeadamente o cancro colorretal, no contexto da doença cardiovascular.

Da origem à lenda

O ácido acetilsalicílico foi sintetizado pela primeira vez em 1897, quando Felix Hoffmann, um jovem farmacêutico da empresa alemã Bayer, pesquisava um medicamento para dores reumáticas que fosse mais tolerado por doentes, como o seu pai, que sofriam de problemas de estômago provocados pelo tratamento com ácido salicílico, recomendado pelos médicos na época. O nome Aspirina vem dos compostos usados na formulação do remédio: "A" de acetil, "Spir" da planta Spiraea ulmaria (da qual era retirada a salicin) e "In", um sufixo comum para medicamentos na época. Porém, uma lenda conta que o nome vem do Santo Aspirinus, que era o bispo de Nápoles e padroeiro das dores de cabeça.

O que não é lenda é que a Aspirina chegou à Lua. Foi em 1969, nos kits de medicamentos dos astronautas da Apollo 11. Hoje há mais de uma dezena de fórmulas para outros tantos males.

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