Marty McFly no Portugal do futuro: não tinha de se casar para ser pai

Se a personagem de Michael J. Fox viajasse de 1985 até aos dias de hoje no nosso país iria encontrar uma sociedade envelhecida

Para quem nasceu em 1985 o maior desafio numa viagem ao passado seria viver sem internet e sem telemóvel. A facilidade de comunicação e ligação permanente ao mundo são, pois, duas marcas incontornáveis dos dias de hoje e talvez fossem as duas novidades de que Marty McFly mais sentisse falta depois da viagem que o levou de 1985 até 21 de outubro de 2015. Se a viagem da personagem da trilogia Regresso ao Futuro fosse feita em Portugal haveria ainda outras diferenças a assinalar.

Michael J. Fox ruma ao futuro para impedir que o filho se torne numa pessoa pouco simpática. Percebe que está casado com a sua namorada Jennifer, um gesto dispensável no Portugal de hoje, onde metade das crianças nascem fora do casamento e onde cada vez menos os irmãos são filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Uma sociedade onde a população idosa já ultrapassou a população jovem (por cada 100 jovens existem 164 idosos, quando em 1985 por cada 100 jovens existiam 50 idosos), conforme sublinha a socióloga Maria João Valente Rosa.

Marty McFly no ano de 2015 de O Regresso ao Futuro

A diretora do portal de estatísticas Pordata lembra, no entanto, que o país - que já é um dos mais envelhecidos do mundo - mudou em muitas outras áreas. Desde logo a adesão à União Europeia. "Há 30 anos ir a Espanha já era uma aventura. Hoje não temos fronteiras na Europa e usamos a mesma moeda." As viagens tornaram-se mais frequentes e mais acessíveis, não só em Portugal, mas em todo o mundo. Os carros podem não ser ainda voadores, como na ficção, mas a população mundial já não passa sem voar. Mais de 3,3 mil milhões fizeram, em 2014, viagens de avião.

A escolaridade dos portugueses também evoluiu de forma bem marcada, como mostram as estatísticas. Já não basta aos jovens saber ler, escrever e contar, precisam de ter licenciatura. A escolaridade obrigatória passou a ser o 12.º ano e não o 6.º como era há 30 anos. Hoje, ser analfabeto é não saber usar um computador. Já que 65% das famílias têm computador com internet em casa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.