Mais 16 milhões premeiam excelência em Portugal

Oito cientistas portugueses, ou a trabalhar no país, conquistaram outras tantas bolsas milionárias do European Research Council (ERC)

Não é só biologia, nem só engenheira, ou física. O projeto de Manuela Gomes, do grupo de investigação 3B"s da Universidade do Minho, tem um pouco de tudo isso. E um objetivo: poder um dia produzir em laboratório tendões e ligamentos funcionais para aplicar em clínica. Cinco anos não vão chegar, mas Manuela Gomes espera, nesse prazo, "ficar mais perto" da meta. A bolsa milionária do European Research Council (ERC) que ganhou esta terça-feira - o seu foi um dos oito projetos contemplados em Portugal na nova leva de bolsas ERC - será "uma grande ajuda".

O seu projeto propõe-se desbravar caminhos na engenharia de tecidos para a medicina regenerativa. Os outros sete projetos vencedores são na área das ciências da vida e procuram desvendar enigmas que persistem em temas fundamentais como a resistência aos antibióticos, a interação entre insetos e micróbios, ou os mecanismos neuronais da memória ou da atração sexual.

Ao todo, os oito projetos somam um valor de 16 milhões de euros, sob a forma de bolsas de consolidação - destinadas a investigadores com sete a 12 anos de experiência após o doutoramento -, para outros tantos investigadores, e para os próximos cinco anos.

"É muito importante ter ganho esta bolsa", reconhece, satisfeita, Manuela Gomes. Desde logo pelo financiamento, no valor de dois milhões de euros. Mas este é também "um reconhecimento do trabalho feito e do potencial das ideias que queremos explorar", diz. E depois, claro, há a "satisfação pessoal, porque este é um processo muito competitivo".

Os números espelham bem essa competitividade e a exigência destas bolsas: das 2538 propostas recebidas no ERC, só 329 foram contempladas, ou seja, apenas 13%.

Investigadora da Fundação Champalimaud, Susana Lima é outra das vencedoras, também com um financiamento de dois milhões de euros. O seu trabalho de investigação, que pretende desvendar em fêmeas de ratinho os mecanismos neuronais da atração sexual e a sua interação com o ciclo hormonal - fora do período da ovulação, por exemplo, elas não querem saber do macho - teve há pouco outros dois pequenos financiamentos, mas este permitirá desenvolver o trabalho sem restrições. "É como passar de um Fiat 127 para um Porsche", ri-se a cientista. É a sua primeira bolsa ERC, não podia estar mais satisfeita.

Também da Fundação Champalimaud, Joseph Paton, que estuda os mecanismos neuronais da memória, e Michael Orger, que investiga em peixes-zebra os circuitos neuronais que transformam a informação visual em ação, são outros dos vencedores. Mas há mais quatro contemplados.

Luís Teixeira, do Instituto Gulbenkian Ciência, recebe dois milhões de euros para identificar os mecanismos moleculares que definem a interação entre mosquitos e micróbios. Mariana Gomes de Pinho, do ITQB NOVA, que já em 2012 tinha ganho uma Starting Grant ERC, recebe agora 2,6 milhões de euros para estudar como reverter o processo de resistência das bactérias aos antibióticos, um problema que é uma bomba-relógio para a saúde pública. Luísa Figueiredo, do Instituto de Medicina molecular (IMM), vai tentar desvendar por que o parasita que causa a doença do sono se esconde na gordura do organismo para escapar aos tratamentos. Os três estão ligados ao novo doutoramento recém-criado pelas respetivas instituições (ver págs. 30 e 31).

A investigadora Ana Domingos, também do IGC, que ainda há pouco descobriu que o tecido gordo tem neurónios e que eles têm um papel na prevenção da obesidade, receberá 2,75 milhões de euros para aprofundar a questão e perceber que moléculas governam esse processo.

16 milhões de euros para oito bolsas

É a verba global das bolsas ERC (de European Research Council, ou Conselho Europeu de Investigação) ganhas pelos oito cientistas a trabalhar em instituições de investigação portuguesas. Designadas Consolidator (de consolidação), estas bolsas têm um montante máximo de dois milhões de euros para cinco anos e destinam-se a investigadores com 7 a 12 anos de experiência de trabalho científico após o doutoramento

329 bolsas

Das 2538 propostas que recebeu, a ERC aprovou apenas 329: as bolsas que agora atribui, o que significa um sucesso de 13%, que diz bem da sua exigência de qualidade. O Reino Unido, com 60 bolsas ganhas é o campeão. Seguem-se a Alemanha (56), a França (38) e a Holanda (25)

"Starting Grants"

Ou bolsas de arranque. Já este ano, em setembro, tinham sido atribuídas outras oito bolsas a investigadores portugueses, a trabalhar em Portugal, ou portugueses em instituições estrangeiras. Essas foram as Starting Grants (bolsas de arranque), no valor global de oito milhões de euros, seis dos quais vieram para Portugal. As bolsas destinam-se a jovens investigadores em início de carreira, com dois a sete anos de experiência após o doutoramento, Cada uma tem um montante máximo de 1,5 milhões de euros para cinco anos

Europa de excelência

O orçamento do ERC provém do Horizonte 2020. Ao todo são 13,1 mil milhões de euros (17%) do bolo global do programa europeu para a ciência, tecnologia e Inovação. Este ano as verbas foram de 1,8 mil milhões, o mais alto desde a criação do ERC, em 2017.

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