Maioria dos ensaios de imunoterapia são para cancros do sistema digestivo e no sangue

Remédios inovadores ajudam sistema imunitário combater tumores. Em Portugal, já foram concluídos 34 ensaios

José Pedro Valinhas, 73 anos, sentia-se "ótimo fisicamente" e já era "quase um golfista profissional" quando lhe foi diagnosticado um cancro gástrico, em janeiro do ano passado. "Detetou-se o problema numa fase muito avançada, pelo que não podia ser resolvido com cirurgia", contou ao DN. Começou a fazer quimioterapia no IPO do Porto "mas os resultados não eram animadores". Além disso, não reagiu bem. "Sentia-me muito mal. Tinha crises, infeções." Há nove meses surgiu uma nova esperança. José Pedro começou a participar num ensaio clínico com pembrolizumab, medicamento na área da imunoterapia, um tipo de tratamento que ativa o sistema imunitário na luta contra o cancro. É um dos voluntários dos 17 ensaios que decorrem em Portugal na área da oncologia com imunoterapia. Já foram concluídos 34, a maioria com indicações sobre doenças hematológicas malignas (26%) e neoplasias do sistema digestivo (26%).

Ao DN, José Valinhas conta que "os últimos resultados mostram que houve uma regressão da espessura do tumor e das metástases em quase 50%". "Sinto-me ótimo, o que não quer dizer que esteja ótimo." José "imaginava que ia ter poucos meses de vida" e, neste momento, diz que não sente "praticamente nada". Isto porque, no seu caso, os efeitos secundários "são nulos".

A imuno-oncologia atua ao nível do sistema imunológico. "Nós temos lá os soldados todos, que têm as armas mas não têm balas. Nós vamos dar-lhes balas para que eles cumpram as suas funções", explicou ao DN Emanuel de Jesus, médico oncologista no IPO de Coimbra, onde cerca de 30 doentes fazem tratamento na área da imunoterapia. Os tumores adormecem o sistema imunitário e o que estes fármacos fazem "é reativar as células imunitárias, os nossos linfócitos, que iriam fazer a função de destruição, de modo a que voltem a essa função". Assim, "conseguimos diminuir a carga tumoral, de forma a perspetivar que um dia podemos vir a ter uma remissão completa". A finalidade, esclarece, "não é curar - embora haja uma percentagem de indivíduos que ficam em remissão completa - mas o importante é estender a sobrevivência do doente sem doença". Além de um ganho de sobrevida, os doentes ganham qualidade de vida.

Desde 2006, o Infarmed contabiliza "34 ensaios clínicos concluídos na área de oncologia com imunoterapia". Depois dos cancros do sistema digestivo e sangue, os cancros mais visados pelas investigações são o da mama (18 %), as neoplasias do sistema reprodutor feminino (9%), o do pulmão (6%) e o carcinoma da cabeça e do pescoço (6%). Nos últimos anos, a tendência é para uma participação cada vez maior de doentes nos ensaios. Enquanto os quatro ensaios concluídos em 2009 previam a participação de 32 doentes oncológicos, o mesmo número de testes finalizados no ano passado abrangeram 103 pessoas.

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) aprovou no ano passado dois fármacos: o nivolumab e o pembrolizumab, que podem ser usados em melanoma, cancro do pulmão e rim. À exceção do melanoma - para o qual a imunoterapia passou a ser a primeira linha de tratamento -, são tratamentos de segunda linha, isto é, para doentes que já passaram pela quimioterapia, mas que não tiveram os resultados desejados. Ambos são usados em fases avançadas da doença, mas estão neste momento a ser testados para outros cancros e para fases mais precoces.

Mais qualidade de vida

"A quimio leva tudo à frente. A imunoterapia trouxe esperança a quem estava a ver um buraco demasiado negro. Agora faço uma vida quase normal." Maria Paula Mano tem 50 anos e um melanoma metastizado. Está desde janeiro de 2015 a participar num ensaio clínico com nivolumab. "No meu caso, funcionou muito bem. Houve uma regressão nos tumores aliada à quase inexistência de efeitos secundários." De 15 em 15 dias, vai ao IPO do Porto fazer tratamentos. "Põem-me um cateter na veia e é feita uma perfusão durante uma hora." No dia seguinte sente-se cansada. "Mas depois recupero."

Paula é cautelosa quanto ao sucesso do tratamento. "Vamos ver como o organismo reage. O sistema imunitário tem memória. Espero que tenha efeito a médio/longo prazo." O pesadelo começou em fevereiro de 2013 com uma consulta no dermatologista devido a uma "lesão atípica" no nariz. Seguiu-se uma biópsia e um diagnóstico aterrador: melanoma. Três meses depois da primeira cirurgia, uma metástase no pescoço. Mais uma cirurgia e três semanas de radioterapia. "Quase não comia." Em maio de 2014, mais uma metástase, desta vez numa vértebra lombar. Uma nova cirurgia e mais radioterapia. "Fiquei praticamente sem andar."

Depois vieram as metástases no pulmão e no fígado. Seguiu-se a quimioterapia, mas a situação continuava a agravar-se. Em outubro de 2014, Paula iniciou um ciclo de imunoterapia com o fármaco ipilimumab. "Mas as metástases continuavam a progredir. Estávamos num impasse. Não havia mais nada a fazer." É então que a médica do IPO lhe fala num ensaio clínico com outro fármaco de imunoterapia: o nivolumab. "Passados quatro meses fiz uma reavaliação e as metástases tinham reduzido quase 50%. Foi uma notícia maravilhosa." Mas, ressalva, do grupo de seis pessoas que iniciaram o tratamento ao mesmo tempo "só três tiveram sucesso".

A Unidade de Investigação Clínica do IPO do Porto tem dez ensaios clínicos na área de oncologia com imunoterapia, envolvendo mais de 70 doentes. Há ensaios em melanoma, cancro do pulmão, cabeça e pescoço, rim, cancro gástrico. "A imunoterapia é uma terapêutica muito promissora, como têm demonstrado os ensaios nas diversas áreas. As taxas de resposta eram muito baixas e a imunoterapia veio revolucionar o tratamento do cancro, especialmente do melanoma", diz Deolinda Pereira, diretora do serviço de oncologia médica do IPO do Porto.

Não funciona com todos

Há um grande entusiasmo à volta da imunoterapia, mas o oncologista Emanuel de Jesus diz que é preciso um "esclarecimento à população": "A imunoterapia funciona, mas mediante critérios e patologias. Não serve para todo o tipo de tumores." E não é desprovida de efeitos secundários, que resultam, sobretudo, da ativação do sistema imunitário: inflamação, diarreia, febre, reações cutâneas. A tiroide e as suprarrenais também podem ser atingidas. "Há poucos efeitos secundários de nível três e quatro. Não se comparam à quimioterapia na exuberância. Mas na quimioterapia também há doentes que não os têm. Em percentagem são mais, mas em termos de intensidade são menos e mais fáceis de manusear", ressalva o oncologista.

Nos doentes que manifestam efeitos secundários graves, pode ser necessário suspender o tratamento, temporária ou definitivamente. "Nesses indivíduos verificou-se que depois de suspender o tratamento manteve-se a eficácia. Significa que estamos a dar memória que pode levar à destruição da célula tumoral", destaca.

Segundo os especialistas ouvidos pelo DN, há uma "toxicidade diferente" daquela que existe com a quimioterapia, o tratamento convencional, que atua sobre o tumor . "Há uma panóplia de efeitos que temos de estar preparados para reconhecer e saber lidar com eles. É preciso monitorizar muito bem estes doentes", destaca Deolinda Pereira.

Milhões de euros por ano

Neste momento, os fármacos têm custos muito elevados. Ao DN, Luís Costa, presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro, fala em valores anuais na ordem dos 60 a 80 mil euros por doente (ver entrevista). Deolinda Pereira confirma que a imunoterapia representa um investimento de "milhões de euros" por ano. Mas os custos que virá a ter no futuro ainda estão a ser discutidos pelas entidades competentes em Portugal. "A grande vantagem dos ensaios é que os doentes têm acesso à medicação numa fase mais precoce e as instituições têm financiamento", sublinha a responsável pelo serviço de oncologia do IPO do Porto. Em Portugal, o doente não recebe para participar no ensaio, "mas há casos em que são pagas as deslocações e as refeições".

No final do ano estavam ativos 17 ensaios clínicos nesta área em Portugal e há um grande interesse dos doentes para se submeterem a testes com este tipo de fármacos. Emanuel de Jesus diz que é frequente receberem telefonemas de familiares de doentes oncológicos no Instituto Português de Oncologia de Coimbra manifestando interesse em experimentar este tratamento. E há sempre uma expectativa muito grande: "Nos doentes a quem introduzi a terapêutica, tive de dizer que não era efetiva para toda a gente, que não sabia se ia cair no lado da resposta e na progressão", indica.

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