Lisboetas fizeram as pazes com as obras da cidade

Câmara fechou avenidas para devolver "o espaço público às pessoas", com uma festa que assinalou o fim das obras no eixo central

Pessoas a pé, a andar de bicicleta, patins ou skate. Assim era o trânsito ontem na Praça Duque de Saldanha. Em plena Avenida da República jogava-se matraquilhos humanos, xadrez gigante e os mais novos aprendiam as regras de trânsito. Mas os carros, onde estavam? Ficaram em casa, ou nas ruas vizinhas. Para celebrar o fim das obras no eixo central, a Câmara de Lisboa ofereceu um festa aos lisboetas, que durante meses andaram a reclamar com os desvios, as filas e os buracos na estrada. Obra feita, milhares quiseram aproveitar para conhecer a nova cara desta zona da cidade.

Os sorrisos e elogios quase que fazem esquecer as críticas que se ouviram nos últimos nove meses. Mas entre quem aproveita a festa há também quem não tenha esquecido que há outros problemas na cidade para resolver. O presidente da câmara, Fernando Medina, assinalou o final das obras, com uma inauguração simbólica de um monumento que assinala o local onde João Manuel Serra se imortalizou como Senhor do Adeus. O autarca passeou entre os populares e explicou aos jornalistas que esta intervenção teve como objetivo "devolver o espaço público às pessoas". "É um espaço com passeios mais largos, mais 750 árvores plantadas, mais de 400 passadeiras rebaixadas, mais esplanadas e fruição do espaço público."

Para esta visão estar completa falta que as árvores cresçam e as flores nos canteiros floresçam. Quanto às bicicletas e passeios a pé, quem por aqui mora garante que vai passar a fazê-los com mais frequência. Gonçalo Barros veio "ver os eventos e como ficou a avenida". Do grupo fazem ainda parte a mulher, os filhos, a amiga Catarina Lopes, os filhos e o marido desta. As crianças dividem-se entre patins e bicicletas. "Já aproveitávamos esta zona para passeios. A avenida está muito melhor. Agora vamos ver é como vão ser controlados os estacionamentos, porque, com os passeios rebaixados, se calhar as pessoas vão estacionar lá", aponta a moradora. Também rendida às árvores que se estendem pela Fontes Pereira de Melo, Caroline Carp, no entanto, tal como o marido, Pedro Castanheira, não escondem que esta festa "é uma ótima maneira de passar a mão no pelo dos lisboetas". Os recém-papás resolveram aproveitar a festa para adormecer o pequeno Omar, de apenas um mês, que se estreou nos passeios.

Ainda assim, admitem que "é um bocado ingrato". "É uma faca de dois gumes. As obras foram chatas mas vão melhorar a circulação", acredita Pedro Castanheira. No entanto, não esconde que preferia ver o dinheiro gasto noutras áreas que "podiam trazer dinheiro". "A obra está fixe, dá para andar mais a pé. Não não há retorno. É preciso restruturar a habitação, acabar com a gentrificação dos bairros históricos e investir em infraestruturas que deem dinheiro", aponta.

Junto às diversões para os mais novos, estão os avós Paulo Renato e Maria Fernanda. Vieram com o Duarte, de 4 anos, para ver como estava o novo Saldanha. "Está muito interessante. Nunca pensei que ficasse tão bem. Para as pessoas que têm mobilidade reduzida isto está muito melhor", conclui Paulo Renato, que durante anos passou diariamente nesta zona da cidade. Agora reformado, fica-se mais pelo Parque das Nações. Não contesta as obras e sublinha que "críticas haverá sempre, mas as pessoas precisam destas obras".

O tom era de festa e se Fernando Medina estava à espera de medir a popularidade, deve ter saído agradado do evento. De sorriso rasgado ia respondendo às solicitações de fotografias e aos parabéns que lhe eram dirigidos. O tempo da irritação pelas obras, acabou, pelo menos por aqui, que ainda há constrangimentos no Cais do Sodré (devem acabar em fevereiro) e no Campo das Cebolas (só deverá estar pronta no segundo trimestre).

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