Lisboa debateu alterações climáticas com olhos postos na cimeira de Paris

DN e EDP promoveram reunião em que se debateu o futuro. Portugal é um dos líderes mundiais na utilização de energias limpas

Chegar a uma economia que não produz emissões de carbono não é um problema de tecnologia, porque a tecnologia necessária já existe, mas sim de atitude. Ou seja, é uma questão de visão estratégica por parte dos países, mas também das empresas. Esta foi uma das ideias centrais deixadas ontem pelo presidente do conselho de administração da EDP, António Mexia, na conferência Alterações Climáticas, Contributo para Paris, Cimeira das Nações Unidas COP 21, promovida pela EDP e pelo Diário de Notícias, que decorreu no auditório da EDP, em Lisboa.

A pouco mais de um mês da cimeira do clima de Paris - a COP21, sob a égide da ONU -, onde chefes de Estado e governantes de 196 países vão tentar chegar a um acordo para a redução global das emissões de gases com efeito de estufa para travar as alterações climáticas, a conferência de ontem em Lisboa fez um ponto de situação das evidências científicas da mudança do clima, do que está em cima da mesa nas negociações de Paris, e do papel essencial que as empresas podem - e devem - ter na descarbonização da economia global.

No saldo final, uma coisa é já certa: vai ser necessário cortar em 40% a 60% as emissões globais até 2050, para se cumprir o objetivo de manter o aumento global da temperatura do planeta abaixo dos dois graus Célsius, em relação à era pré-industrial - a meta considerada segura pelos cientistas para evitar um desastre climático. A poucas semanas da cimeira, e embora haja "sinais positivos", como sublinhou ontem o embaixador de França em Portugal, Jean-François Blarel, o desfecho positivo da cimeira não está ainda garantido.

Do fracasso ao compromisso

Depois do sucesso do acordo de Quioto, em 1997, que se saldou numa tímida redução de gases com efeito de estufa (um bolo global de 5%, entre 2008 e 2012, face aos valores de 1990), e apenas para um grupo de países industrializados que não incluiu os Estados Unidos, as negociações do clima no âmbito da ONU estagnaram até recentemente. O melhor exemplo do impasse a que se chegou nestas negociações no âmbito das Nações Unidas foi o do fracasso da COP 15, a cimeira de clima de Copenhaga, em 2009. As expectativas de um compromisso eram altas, mas o seu resultado prático não foi além de um acordo de intenções por parte de um grupo de países industrializados, mas sem metas nem calendário definido.

As alterações climáticas já estão aí. As suas manifestações são ainda fracas, mas não há dúvidas sobre a sua realidade

Depois disso já houve passos positivos, nomeadamente na última COP, no ano passado, em Lima, no Peru. Foi ali que se estabeleceu o início do roteiro para as metas que agora deverão ser acordadas em Paris, com a definição dos mecanismos e verbas do Fundo Verde Climático, que vigorará a partir de 2020 para apoiar os países em desenvolvimento na conversão para energia limpa e adaptação às alterações climáticas. E também com os sinais positivos por parte da China e dos Estados Unidos, que levam agora à capital francesa a intenção de um compromisso.

Como frisou ontem o embaixador francês em Portugal, o sucesso da cimeira de Paris, que decorre de 28 de novembro a 11 de dezembro, dependerá de se conseguir um acordo universal e vinculativo entre os 196 países para a redução global das emissões de gases com efeito de estufa, de manter esse acordo ao longo do tempo e também de concretizar os mecanismos financeiros do Fundo Verde Climático. Isso implica, nomeadamente, a garantia de cem milhões de euros anualmente para o fundo a partir de 2020. Neste momento, sublinhou Jean-François Blarel, "os sinais são positivos" para um desfecho positivo da cimeira.

"As alterações climáticas já estão aí", frisou por seu turno o físico e especialista nesta área Filipe Duarte Santos. "As suas manifestações são ainda fracas, mas não há dúvidas sobre a sua realidade", afirmou o cientista, notando que os estudos estimam para a Península Ibérica, até final do século, o aumento de fenómenos extremos, como episódios de chuvas torrenciais e secas extremas, com efeitos negativos em atividades como a agricultura, pescas ou a ocupação do território.

No âmbito das negociações do clima para a COP21, e enquanto membro da União Europeia, Portugal já definiu a sua meta de redução de emissões, que "é de 40% até 2030, em relação aos valores de 1990", como adiantou Nuno Lacasta, presidente da Agência Portuguesa de Ambiente. A UE tem a ambição de cortar globalmente as suas emissões em 50% em 2050.

Neste contexto, jogam também um papel essencial o setor empresarial e a sociedade civil. Passa por eles, obrigatoriamente, a descarbonização da economia e Portugal, nomeadamente no setor da produção elétrica, é um dos líderes mundiais, como foi sublinhado ontem na conferência.

Para se chegar aqui foi fundamental a aposta, ainda nos 90 do século XX, nas energias renováveis, que se consolidou ao longo da última década. "Se há política consistente e com visão de futuro em Portugal, é nesta área", resumiu Nuno Lacasta. António Mexia, por seu lado, não tem dúvidas: "Este setor está preparado para a descarbonização." Essa é, de resto, a caminhada que vai ser necessária a todo o setor empresarial, incluindo às PME, que precisarão, nomeadamente, de agilizar soluções para apostar na sua própria eficiência energética. Mas, como sublinhou António Mexia, que vê sinais positivos crescentes na atitude das empresas, "descarbonizar, hoje, é muito mais barato do que era há 10 ou 15 anos".

Vasco Mello, presidente do conselho de administração da Brisa, está de acordo e segundo afirmou "o mundo empresarial está claramente mobilizado para a cimeira de Paris". As grandes empresas, sublinhou, "sabem que têm de estar na linha da frente", com vista à descarbonização da economia.

A concluir os trabalhos, António Mexia foi perentório: "Seria imperdoável que não tomássemos as medidas que é preciso tomar para cumprir as metas necessárias" que permitirão travar o problema global das alterações climáticas.

O que disseram os participantes

António Mexia, presidente do conselho de administração da EDP: "A descarbonização da economia não é um problema de tecnologia, mas de atitude"

Vasco Mello, Presidente do Conselho de Administração da Brisa: "O mundo empresarial sabe que tem de estar na linha da Frente e está mobilizado para a cimeira de Paris"

João Couto, Microsoft: "A microsoft é o segundo maior consumidor de energias renováveis nos Estados unidos da América"

Nuno Lacasta, Presidente da Agência Portuguesa de Ambiente: "Se há uma política consistente e com visão de futuro em Portugal, é no setor da produção energética"

Jean-François Blarel, Embaixador de França em Portugal: "Sucesso da Cimeira de Paris vai depender de se conseguir alcançar um acordo vinculativo e duradouro"

Pedro Faria, Diretor técnico do Carbon Disclousure Project: "Medir a pegada de carbono tem 10 a 15 anos de prática. Ainda há uma grande evolução a fazer nesta área"

Filipe Duarte Santos,Cientista especialista em Alterações Climáticas. "As alterações climáticas já Aí estão. As suas manifestações Ainda são fracas, mas não há dúvidas sobre a sua realidade"

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