Já há 10 mil crianças a andar de graça na Carris

Empresa municipal apresenta novo serviço de proximidade: as carreiras de bairro. Até ao fim do mês iniciam-se cinco, hoje começam a funcionar as duas de Marvila

Em quatro meses, a Carris ganhou 21 mil utentes com os tarifários reduzidos para idosos e gratuitos para crianças até aos 12 anos (inclusive). Nos seniores passaram dos 25 mil para os 40 mil e nas crianças passaram de 2700 para quase 10 mil. Resultados "muito interessantes", nas palavras do presidente do Conselho de Administração da Carris, Tiago Lopes Farias. Esta foi uma das primeiras estratégias de reinvestimento na empresa de transportes que passou a 1 de fevereiro para a gestão da câmara de Lisboa. A próxima aposta é lançada hoje com as primeiras carreiras de bairro. Até ao fim do mês, quatro bairros - Marvila, Parque das Nações, Olivais e Santa Clara - vão ganhar linhas de autocarro para ligar os vários pontos-chave no seu interior.

Hoje, Marvila vê nascer as duas primeiras carreiras de bairro da cidade. Uma que faz um circuito entre o Vale Formoso e o Bairro dos Alfinetes e outra do metro nas Amendoeiras com circulação pela Bela Vista. Circular nestes autocarros vai ser gratuito para quem tem o passe e continua a ser gratuito para crianças e com desconto para seniores. Mas foi criado um passe de 10 euros para quem quer apenas circular nestas linhas internas. "O que pretendemos é que os lisboetas se movam melhor, se sintam mais próximos dos seus equipamentos que tirem proveito desta espetacular cidade", defende Tiago Lopes Farias.

As carreiras vão circular entre as 07.00 e as 22.00, a cada meia hora nos dias de semana e de hora a hora aos fins de semana. Este novo conceito é para a Carris, não um substituto da rede base, mas "um complemento". "Não são linhas de massas, mas são de frequência contínua para quem quiser deslocar-se localmente saiba que o pode fazer. Há linhas complemente novas e outras que já existiam mas eram pouco robustas e agora demos robustez."

No total esta rede de bairro deve ter, "pelo menos 24 linhas, mas este é um número que ainda não está fechado e depende das necessidades das freguesias", adianta o responsável da Carris. Este mês avançam cinco carreiras e as restantes estão programadas para 2018 e início de 2019. Até lá, vai haver tempo para "aprendizagem" até porque há 17 anos que a Carris não lançava novas linhas.

Para fazer esta aposta mais local, sentaram-se à mesma mesa a Carris, a câmara municipal e cada uma das 24 juntas de freguesia. Um trabalho que "correu muito bem", classifica Tiago Lopes Farias, e que permitiu desenhar as linhas de acordo com as necessidades locais, com passagem pelas infraestruturas mais frequentadas no bairro.

Além de ligar as escolas, centros de saúde, bibliotecas, farmácias ou correios do bairro, estas carreiras vão também fazer ligações a estações de metro, de comboio ou paragens da Carris com ligação à chamada rede base da cidade. Agora, este novo serviço "só se faz com meios", alerta o presidente. Para isso a empresa está a renovar a frota e a contratar motoristas.

200 novos motoristas

Na passagem da gestão da Carris para a autarquia foram anunciados investimentos na empresa. Desde então "contratamos 42 motoristas e guarda freios. Até ao final do mês entrarão mais nove e queremos contratar 200", aponta Tiago Lopes Farias. Embora sublinhe que também possa haver saídas nesse tempo, ainda que em menos quantidade que os 650 trabalhadores que saíram nos últimos sete anos. "Entre 2010 e 2016, a Carris teve uma estratégia de redução daquilo que oferece aos clientes e 25% da nossa oferta desapareceu", descreve o responsável.

Agora a aposta vai no sentido de reforçar os meios e os trabalhadores. "Estão a decorrer concursos para renovação da frota, para comprar 125 autocarros a gás natural de última geração, comprámos 40 a gás natural articulados para as carreiras mais longas e estamos a desenvolver um projeto para construir uma estação de abastecimento a gás natural", adianta o presidente da Carris, acrescentando que vai ser lançado "um concurso nos próximos meses para autocarros elétricos". E que o objetivo "ambicioso" da empresa é "chegar a 2040 com a frota toda verde".

O próximo desafio será também articular a mobilidade entre os parques de estacionamento à entrada da cidade e as linhas da Carris para evitar a entrada de carros particulares na capital. "Temos todas as condições para isso, até porque as duas empresas - Carris e EMEL - são ambas municipais."

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.