Isto não é uma discussão, querido

No geral você sente-se tão satisfeita com o balanço geral das coisas que nunca, nem nos seus piores pesadelos, imaginou que, num belo dia de verão, iria ouvir estas palavras do seu marido: "Eu já não te amo. Nem sequer tenho a certeza de alguma vez o ter feito. Vou sair de casa. As crianças vão entender. Elas vão querer que eu seja feliz"

Digamos que uma pessoa tem aquilo que acredita ser um casamento saudável. Vocês continuam a ser amigos e amantes depois de passarem mais de metade das vossas vidas juntos. Os sonhos que se propuseram atingir aos 20 anos - olhando nos olhos um do outro em pequenos restaurantes à luz de velas quando eram solteiros e magros - tornaram-se realidade na sua maioria.

Duas décadas depois têm os oito hectares de terra, a casa da quinta, as crianças, os cães e os cavalos. Vocês são os pais que disseram que seriam, plenos de amor e bons educadores. Já fizeram tudo: Disneylândia, campismo, Havai, México, viver na cidade, olhar as estrelas.

Claro que têm os vossos problemas conjugais, mas no geral você sente-se tão satisfeita com o balanço geral das coisas que nunca, nem nos seus piores pesadelos, imaginou que, num belo dia de verão, iria ouvir estas palavras do seu marido: "Eu já não te amo. Nem sequer tenho a certeza de alguma vez o ter feito. Vou sair de casa. As crianças vão entender. Elas vão querer que eu seja feliz".

Mas calma. Esta não é a história de divórcio que estão a pensar que é. Também não é uma história sobre como lhe implorei que ficasse. É uma história sobre como ouvir o seu marido dizer "eu já não te amo" e decidir não acreditar nele. E o que pode acontecer como resultado disso.

Eis um exemplo: uma criança faz uma birra. Tenta atingir a mãe. Mas a mãe não reage, não ralha nem castiga. Em vez disso, esquiva-se. Em seguida, ela tenta continuar o que estava a fazer como se a birra não estivesse a acontecer. Ela não "recompensa" a birra. Simplesmente não considera a birra como um ataque pessoal, porque, afinal, não é sobre ela.

Deixem-me ser clara: eu não estou a dizer que o meu marido estava a fazer uma birra de criança. Não. Ele estava nas garras de algo mais - um colapso profundo e muito mais preocupante, que não acontece na infância mas sim na meia-idade, quando percebemos que a nossa trajetória pessoal já não se dirige confiantemente para cima, como até então. Mas eu decidi responder da mesma forma que tinha respondido às birras dos meus filhos. E continuei a responder-lhe dessa mesma maneira. Durante quatro meses.

"Eu já não te amo. Nem sequer tenho a certeza de alguma vez o ter feito."

As palavras dele atingiram-me como um soco violento mas, de alguma forma, naquele momento fui capaz de me esquivar. E quando consegui recuperar e recompor-me, consegui dizer: "Não acredito". Porque não acreditei mesmo.

Ele recuou, surpreendido. Aparentemente, estava à espera que eu explodisse em lágrimas, que gritasse com ele, que o ameaçasse com uma batalha pela guarda dos filhos. Ou que lhe pedisse que mudasse de ideias.

Então, decidiu ser mau. "Eu não gosto daquilo em que te tornaste."

Pausa angustiante. Como é que ele podia dizer uma coisa daquelas? Naquele momento apeteceu-me realmente discutir. Enfurecer-me. Chorar. Mas não o fiz.

Em vez disso, um manto de calma envolveu-me e repeti as mesmas palavras: "Não acredito".

A verdade é que eu tinha chegado recentemente a um acordo inegociável comigo mesma. Tinha-me comprometido com "O Fim do Sofrimento". Tinha-me visto finalmente livre das vozes na minha cabeça que me diziam que a minha felicidade pessoal estava dependente do meu sucesso exterior, assente em coisas que estavam muitas vezes fora do meu controlo. Eu tinha percebido a loucura dessa equação e decidido assumir a responsabilidade pela minha própria felicidade. E levava a coisa a sério.

O meu marido ainda não tinha chegado a esse acordo consigo mesmo. Ele tinha trabalhado duramente durante muitos anos, e a recompensa desse esforço tinha sustentado a nossa família de quatro pessoas desde sempre. Mas o seu novo empreendimento não estava a correr lá muito bem, e a sua capacidade de ser o ganha-pão estava em rápido declínio. Ele andava infeliz por isso, sentia-se inútil, estava a perder o controlo emocional e a deixar-se ir fisicamente. E agora queria acabar com o nosso casamento; desligar-se da nossa família.

Mas eu não acreditava nisso.

Disse-lhe: "Não é razoável esperar que as crianças se preocupem com a felicidade dos pais, porque não é adequado à idade delas. A não ser que desejes criar codependentes que vão passar as suas vidas em maus relacionamentos e em terapia. Em todas as relações há momentos em que as partes envolvidas precisam de uma pausa. O que podemos fazer para te dar a distância de que precisas, sem magoar a família?"

"Hã?", respondeu ele.

"Vai caminhar para o Nepal. Constrói uma cabana no prado lá atrás. Transforma a garagem num refúgio masculino. Compra aquela bateria que sempre quiseste. Qualquer coisa, menos magoar as crianças e a mim com uma atitude irrefletida como a que estás a querer tomar."

A seguir repeti a minha deixa, "O que podemos fazer para te dar a distância de que precisas, sem magoar a família?"

"Hã?"

"Como podemos conseguir uma distância responsável?"

"Eu não quero distância", disse ele. "Eu quero ir-me embora."

A minha cabeça disparou. Era outra mulher? Drogas? Segredos inconfessáveis? Mas contive-me. Eu não iria sofrer.

Em vez disso, fui para a minha mesa de trabalho, pesquisei "separação responsável" na Internet e fiz uma lista. Esta incluía coisas como: Quais os cartões de crédito que cada um está autorizado a usar? Com quem é que as crianças o podem encontrar na cidade? Quais as chaves que cada um pode ter?

Dei uma vista de olhos à lista e passei-lha.

Resposta dele: "Chaves? Nós nem sequer temos chaves na nossa casa".

Mantive-me impassível. Conseguia ver a dor nos olhos dele. Uma dor que eu reconhecia.

"Oh, já percebi o que estás a fazer", disse ele. "Vais obrigar-me a fazer terapia. Não me vais deixar sair de casa. Vais usar as crianças contra mim."

"Eu nunca disse isso. Eu só perguntei: O que podemos fazer para te dar a distância de que precisas..."

"Para de dizer isso!"

Ora bem, ele não saiu de casa.

Em vez disso, ele passou o verão com um comportamento irresponsável. Deixou de chegar a casa às seis horas do costume. Ficava fora até tarde e não ligava. Estragou por completo o nosso 4 de julho - o desfile, o churrasco, o fogo-de-artifício - para ir à festa de outra pessoa. Quando estava em casa, estava distante. Não me olhava nos olhos. Nem sequer me deu os parabéns no dia dos meus anos.

Mas eu não entrei no jogo. Mantive-me na minha posição. Disse aos meus filhos: "O papá está a passar por um momento difícil como às vezes acontece com os adultos. Mas nós somos uma família, aconteça o que acontecer". Eu não ia sofrer. E eles também não.

Os meus amigos mais próximos ficavam indignados por mim. "Como é que consegues ficar de braços cruzados e aceitar este comportamento? Põe-no na rua! Arranja um advogado!"

Mantive a minha posição com eles também. Aquele homem estava a sofrer, mas não me cabia a mim resolver o problema dele. Na verdade, era preciso que eu saísse do seu caminho para que ele pudesse resolvê-lo.

Imagino o que estão a pensar: que eu sou uma indefesa. Que sou fraca e medrosa e que aguentaria qualquer coisa para manter a família unida. Que sou provavelmente uma daquelas mulheres que sofrem abusos físicos. Mas posso assegurar-lhe que não sou assim. Eu ponho cavalos de 680 kg dentro de atrelados e galopo pelas montanhas de Montana durante todo o verão. Passei por um parto natural induzido com oxitocina. E por uma cesariana sem medicação pós-operatória. Trabalho bem com uma motosserra.

Simplesmente tinha chegado à conclusão de que não era eu a raiz do problema do meu marido. Era ele próprio. Se ele pudesse transformar o seu problema numa briga conjugal, conseguiria que a questão fosse sobre nós. Eu precisava de sair do caminho para que isso não acontecesse.

Decidi comigo própria dar-lhe tempo. Seis meses.

Tive dias bons e dias maus. Nos dias bons, adotava um comportamento digno. Ignorava os seus ataques, as suas observações impiedosas. Nos dias maus, ficava inerte sob o sol de agosto enquanto as crianças corriam por baixo dos aspersores, enfurecendo-me com ele no meu pensamento. Mas nunca vacilei. Embora possa parecer ridículo dizer "Não considere isso um ataque pessoal" quando o seu marido lhe diz que já não a ama, por vezes é exatamente isso que tem de fazer.

Em vez de emitir ultimatos, gritar, chorar ou implorar, apresentei-lhe opções. Organizei um verão divertido para a nossa família e dei-lhe a possibilidade de participar nele, ou não - era com ele. Se ele não quisesse vir connosco, nós iríamos sentir a sua falta, mas ficaríamos muito bem, obrigada. E ficávamos.

E, sim, podem apostar que eu queria sentá-lo à minha frente e convencê-lo a ficar. A amar-me. A lutar por aquilo que tínhamos criado. Podem apostar que queria.

Mas não o fiz.

Fiz churrascos. Fiz limonada. Pus a mesa para quatro. Amei-o de longe.

E um dia, lá estava ele, vindo cedo do trabalho, a cortar a relva. Um homem não corta a relva do seu jardim se se for embora. Não este homem. Depois arranjou uma porta que estava estragada há oito anos. Fez um comentário sobre o nosso alpendre estar a precisar de ser pintado. O nosso alpendre. Falou na necessidade de lenha para o próximo inverno. O futuro. Pouco a pouco, ele começou a falar sobre o futuro.

Foi no jantar de Ação de Graças que tudo ficou decidido. O meu marido baixou humildemente a cabeça e disse: "Eu estou grato pela minha família".

Ele estava de volta.

E eu vi o que lhe estava a faltar: o orgulho. Ele havia perdido o orgulho em si mesmo. Talvez seja isso que acontece quando os nossos egos levam uma pancada na meia-idade e percebemos que já não somos tão jovens e brilhantes como éramos.

Quando levamos pancada da vida. E os nossos mitos de infância revelam ser apenas isso, mitos. A verdade parece ser o maior soco de todos: não é um cônjuge, um pedaço de terra, um emprego ou o dinheiro que nos traz felicidade. Essas realizações, essas relações, podem melhorar a nossa felicidade, sim, mas a felicidade tem que começar de dentro. Confiar em qualquer outra equação pode ser fatal.

O meu marido tinha-se perdido no mito. Mas ele encontrou o seu caminho de saída. Desde então tivemos todas as conversas difíceis. Na verdade, ele incentivou-me a escrever sobre o nosso calvário. Para ajudar outros casais que chegam a esse momento da vida. Pessoas que se sentem com medo e presas. Que acreditam que os seus sentimentos temporários são permanentes. Que veem uma saída fácil e pensam que podem escapar.

O meu marido tentou chegar a um acordo. Culpando-me pela sua dor. Descarregando em mim os seus sentimentos de infelicidade pessoal.

Mas eu esquivei-me. E esperei. E funcionou.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.