In Galera. O restaurante gourmet que abriu ao público numa prisão

Empregados de mesa e cozinheiros foram condenados por homicídio, assaltos, tráfico. Para ajudar no processo de reabilitação, os reclusos estão em contacto com a sociedade, o mercado de trabalho e o mundo dos negócios

Não é preciso passar por qualquer controlo de segurança, nem tão--pouco deixar um documento de identificação à entrada. Para jantar na prisão Bollate, nos arredores de Milão, em Itália, só é necessário fazer uma reserva por telefone. E, por agora, provavelmente já só para o mês de abril, uma vez que o restaurante In Galera (Na Prisão, em português), que abriu em outubro naquele estabelecimento, se tornou um dos mais populares da região.

Todos os cozinheiros e empregados de mesa - por agora, apenas homens - são reclusos. E recebem até mil euros por mês. Segundo o The New York Times, há quem tenha sido condenado por homicídio, assaltos à mão armada, tráfico de droga e outros crimes, tendo sido escolhidos de acordo com a legislação e a experiência que tinham. Apenas o chef principal e o gerente não estão a cumprir pena. Quanto aos clientes, há novos e velhos, casais e executivos, apaixonados pela gastronomia ou apenas curiosos.

Dentro da Bollate, uma prisão de segurança média, que tem mais de 1100 presos, é agora possível viajar pelos sabores da cozinha italiana. Do menu fazem parte tentáculos de polvo crocantes com tagliatelle de legumes, risoto com cogumelos e ravioli com queijo Fontina, entre muitos outros pratos.

O design "é elegante, arejado e moderno", mas ninguém quer passar a ideia de que se está noutro sítio. Por isso, as paredes estão decoradas com cartazes de filmes sobre prisões, como Escape from Alcatraz, (A Fuga de Alcatraz) de Clint Eastwood, ou The Green Mile (À Espera de um Milagre), de Frank Darabont. De acordo com o El Mundo, o acesso ao restaurante é feito pela sala de visitas do estabelecimento prisional, onde se encontram as máquinas de venda automática. E não há qualquer controlo à entrada, nem é preciso deixar os pertences, como acontece quando alguém visita um recluso. Contudo, há uma regra: os familiares dos presos não podem ir comer ao In Galera.

O restaurante tem capacidade para cerca de 50 pessoas, abre de segunda a sábado para almoços e jantares, podendo, ainda, ser reservado para eventos especiais. Os empregados de mesa vestem-se a rigor: camisa branca, calças e colete pretos, gravata. E, atendendo às críticas, o serviço distingue-se pela qualidade. "Serviço moderno, profissional e simpático. Menu interessante." "Serviço eficiente. Os pratos são deliciosos e também bonitos." "Ideia agradável e original. Recomendo que reserve, porque está sempre cheio." "O resultado final é superior à curiosidade e expectativas." Estas são algumas das críticas que se podem ler no Trip Advisor, em que a classificação do In Galera é de 4.5 em cinco estrelas.

Preparar reclusos para o futuro

Ao El Mundo, a diretora da cooperativa ABC Catering, que gere o espaço, diz que o objetivo é que o restaurante seja de tal forma bem falado que os reclusos possam facil- mente conseguir um emprego quando acabarem de cumprir pena. "Esse é o grande desafio", disse, lembrando que quem esteve preso ainda fica marcado para a vida, tendo cumprido uma pena de seis meses ou 20 anos.

Silvia Polleri assegura que não existem riscos de fuga. Além de os familiares não estarem autorizados a ir ao restaurante, quem foi contratado não pode usar telefones e está sujeito a um controlo especial de segurança antes de entrar no restaurante. Mesmo antes de abrir o espaço, o estabelecimento prisional já tinha outras iniciativas de sucesso. A cooperativa ABC trabalha na Bol-late desde 2004, altura em que surgiu uma empresa de catering para prestar serviços em empresas públicas e privadas. E em 2012 foi fundado um programa de formação, através do qual os reclusos podem frequentar cursos de hotelaria e gestão de hotéis.

Além da experiência em restauração e hotelaria, há voluntários que ensinam teatro e pintura, oficinas para aprender carpintaria e um estábulo, onde os presos podem aprender a cuidar de cavalos. Mas, neste momento, é o restaurante da prisão Bollate que está a dar que falar, dentro e fora do país. Para Silvia Polleri, a popularidade do In Galera deve-se, em parte, à curiosidade que existe em relação ao que se passa dentro das prisões. Por ser um mundo desconhecido para a maioria das pessoas, muitos querem ir experimentar. Com vista à diminuição da reincidência, a responsável espera que outras prisões possam seguir o exemplo.

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