Hotéis esgotados de Lisboa até Sintra com Web Summit

Taxa de ocupação para os dias da conferência de tecnologia está acima da média para a época, bem como os preços. Associação fala em "balão de oxigénio importante"

A Web Summit chegou aos hotéis. Quem o diz é a presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), depois de os dados recolhidos apontarem para unidades "em que a taxa de ocupação ultrapassa os 90%" nos dias da conferência. Já no início do mês os dados eram positivos, com um inquérito a dar conta de que era esperada uma taxa de ocupação entre 7 e 10 de novembro de 85% para os hotéis de Lisboa e de 78% para os da área metropolitana.

Em setembro, a AHP repetiu o inquérito de junho - quando os hotéis ainda não mostravam o impacto da Web Summit - e a procura já estava a animar o setor. Os preços médios já rondavam os 163 euros por quarto, em Lisboa, e os 150 na área metropolitana e 57% das reservas efetivas para esses dias eram para participantes no evento. A área de influência da conferência de tecnologia estende-se "pelo Estoril, Cascais e Sintra", aponta Catarina Siza Vieira.

Com mais de 50 mil participantes esperados e os hotéis convencionados já esgotados, a responsável da AHP refere que já era expectável algum impacto na hotelaria. "Os eventos têm sempre impacto na procura e nos preços. Já foi assim na final da Champions", aponta. Ora, são também esses números do evento que explicam a extensão da procura. "Lisboa tem 36 992 camas, em 191 hotéis e são esperadas 50 mil participantes, 2500 jornalistas, 2000 investidores", enumera Cristina Siza Vieira. Além dos que optam por alojamento fora da cidade, há ainda os que estarão instalados no alojamento local.

Ainda assim, esta vai ser uma semana positiva para a hotelaria da capital. "Não é à toa que a organização falava num impacto indireto de 200 milhões de euros, algum desse valor está ligado ao turismo e à hotelaria", acrescenta.

Um sinal positivo, mas que a dirigente da AHP faz questão de contextualizar. "Uma andorinha não faz a primavera, mas estes eventos são sempre um balão de oxigénio importante para o setor". A verdade é que geralmente maio é o melhor mês para a hotelaria em Lisboa, explica Cristina Siza Vieira, e o facto de a Web Summit trazer mais gente em novembro pode não ser suficiente para alterar esses dados.

Surf esgota oferta

Cristina Siza Vieira dá o exemplo da Surf Summit que vai anteceder a conferência em Lisboa. Nos dias 5 e 6 (sábado e domingo) a atenções vão estar concentradas na Ericeira, onde são esperados 200 participantes e cinco oradores. "O único hotel com capacidade para receber toda a gente está esgotado, mas é só nesse fim de semana e como é parceiro só teve um aumento de 10% no preço. Ou seja, num novembro normal tinha a lotação nos 30% e mesmo este aumento de dois dias só vai subir a média de ocupação do mês para os 35%. Por isso, não sei se os quatro dias de conferência vão ser suficientes para alterar as médias mensais, mas claro que é uma boa oportunidade".

França e Reino Unido na frente

A Associação da Hotelaria de Portugal tentou também perceber no inquérito de onde vinham as reservas. E a sua origem revelou um dado interessante. É que apesar da maioria dos participantes - que têm origem em 165 países - virem do Reino Unido, Alemanha, Irlanda e EUA, mas reservas feita nesses dias são essencialmente de França, Reino Unido, Portugal e Espanha.

Uma procura que se começou a notar mais em cima da hora, já que em junho não havia quase reservas para estes dias e que acabou por inflacionar os preços. "É natural, tem a ver com a procura. Agora também já só há bilhetes a 1200 e 3200 euros. Os de 900 já estão esgotados", compara Cristina Siza Vieira.

A uma semana do evento, já estão inscritas mais de 49 mil pessoas e a organização espera chegar às 50 mil. Os bilhetes mais baratos já estão esgotados e desde sexta-feira que o passe geral subiu dos 900 para os 1245 euros. Por este preço, os participantes podem vender o seu negócio, contactar investidores, assistir às palestras. Já estão confirmadas 15 mil empresas entre as quais Facebook, Microsoft, Apple, Coca Cola, Google, Tesla, Nestlé, L"Oréal, Disney ou Samsung.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.