"Há empresas interessadas nos serviços de Vale e Azevedo"

Antigo presidente do Benfica saiu ontem em liberdade condicional da prisão da Carregueira, mas ainda tem outra pena pendente. Advogada diz que já tem propostas de trabalho

Apesar de condenado por burla qualificada, abuso de confiança e branqueamento de capitais, João Vale e Azevedo, antigo presidente do Benfica, tem à sua espera empresas "interessadas nos seus serviços". Quem o garantiu foi Luísa Cruz, advogada de João Vale e Azevedo, que, ontem, com o habitual saco dos pertences, saiu da prisão da Carregueira, em Sintra, em liberdade condicional. À sua espera, além da defensora, estava a sua mulher, Filipa Vale e Azevedo, ao volante de um discreto carro e procurando fugir à atenção dos jornalistas.

Ao fim de quatro anos de cadeia, cinco sextos da pena de onze anos e meio a que foi condenado em cúmulo jurídico - com base nas condenações nos processos Ovchinnikov/Euroárea, Dantas da Cunha e Ribafria, por crimes de burla e apropriação indevida de dinheiro, entre outros ilícitos económicos e financeiros -, o antigo presidente do Benfica, segundo a sua advogada, vai agora "tentar retomar a sua vida profissional e os seus contactos" na área da consultadoria financeira. "As empresas com quem ele trabalhava em termos de consultadoria mantêm o interesse nos seus serviços", assegurou Luísa Cruz, em resposta aos jornalistas à porta da prisão da Carregueira, acrescentando não perceber como é que a atividade de consultadoria financeira, ou jurídica, "pode ser propícia a uma atividade criminosa".

A advogada até fez um paralelismo com a situação do banqueiro Ricardo Salgado, dizendo que eventuais dúvidas sobre a atividade de consultadoria de Vale e Azevedo "é a mesma coisa que o dr. Ricardo Salgado seja proibido de exercer atividades bancárias, [mas] não proíbe certamente de dar pareceres a uma empresa acerca de qualquer situação financeira". O mesmo se aplica ao exercício da consultadoria em questões jurídicas. Vale e Azevedo está impedido pela Ordem dos Advogados de exercer advocacia, mas tal não implica que não possa dar pareceres ou opiniões.

O antigo presidente do Benfica, entre 1997 e 2000, cumpriu pena no âmbito do processo de extradição de Inglaterra para Portugal, após os tribunais britânicos aceitarem o mandado de detenção europeu das autoridades judiciárias portuguesas. A extradição do advogado ocorreu em novembro de 2012, após quatro anos e meio em regime de permanência de residência, em Londres, com passaporte retido.

Apesar de Vale e Azevedo ter pendente uma outra condenação de 10 anos de prisão, já transitada em julgado, a sua advogada explicou que as autoridades portuguesas terão de pedir aos tribunais ingleses a "ampliação" da extradição para cumprimento da nova pena.

No entanto, Luísa Cruz considerou que, face às informações que lhe foram transmitidas de Inglaterra, "muito possivelmente, ao chegar o pedido de ampliação [da extradição] poderá nem sequer ser aceite, porque já há uma prévia apreciação deste processo". Isto porque, segundo revelou, os tribunais britânicos já deixaram algumas críticas à forma como a justiça portuguesa atuou, sobretudo relacionadas com o tempo dos processos, nos casos relativos a Vale e Azevedo.

A condenação de 10 anos de prisão foi-lhe aplicada em 2013, por crimes no âmbito das transferências dos futebolistas ingleses Scott Minto e Gary Charles, o marroquino Tahar e o brasileiro Amaral. O antigo dirigente desportivo, que estava acusado de se ter apropriado de quatro milhões de euros do clube encarnado, foi condenado por peculato, branqueamento de capitais, abuso de confiança e falsificação de documento.

A advogada salientou que ainda será preciso fazer um cúmulo jurídico com a nova condenação de dez anos, de que vai "resultar uma pena única", em que serão descontados os anos já cumpridos, com a possibilidade de lhe ser concedida de novo a liberdade condicional. Luísa Cruz defendeu que a maioria dos processos, nomeadamente os relacionados com o Benfica, deviam ter sido julgados na sua maioria ao mesmo tempo, uma vez que "têm por base a mesma fundamentação, a mesma investigação, com pequenas nuances", permitindo determinar uma pena única.

À saída da prisão da Carregueira, João Vale e Azevedo declinou fazer qualquer comentário, enquanto caminhava para o carro da mulher, e remeteu os jornalistas que o esperavam à porta do estabelecimento prisional para a sua advogada. Nos últimos anos, o antigo presidente do Benfica partilhou a prisão com os arguidos do processo da Casa Pia, como Carlos Cruz, Ferreira Diniz, Jorge Ritto e Manuel Abrantes e também com Isaltino Morais.

Há três anos, Vale e Azevedo tentou a liberdade condicional, argumentando com o seu bom comportamento. Em sua defesa alegou até que desempenhava as funções de sacristão na capela do estabelecimento prisional. O juiz de execução de penas rejeitaria o pedido.

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