Gripe deste ano pode ser mais grave. "Vacinar, vacinar" é a palavra de ordem

A Direção-Geral da Saúde reforçou, ontem, o apelo à vacinação e salientou a ideia de que a vacina não provoca a doença. Estirpe que deverá circular este ano está associada a mais casos e a situações mais graves da doença

Influenza A(H3). Deverá ser este o vírus da gripe dominante neste inverno, o mesmo que no ano passado provocou um excesso de mortalidade de 27% em Portugal. À espera de uma estirpe que costuma provocar mais casos e mais graves, Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, reforçou, ontem, o apelo à vacinação: "Vacinar, vacinar, vacinar. É essa a grande precaução em relação à gripe". Já Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), disse ao DN que há "falta de cuidado" em Portugal na "adequação ao frio" e deixou alguns conselhos aos portugueses.

A gripe o frio terão provocado a morte a 4467 portugueses no inverno passado, o que representa um excesso de 27% face ao esperado. Tal como nos restantes países europeus, o vírus da gripe A(H3) foi o predominante, tal como se prevê que seja neste ano. "Quando o vírus dominante é um vírus A(H3), a intensidade da gripe tende a ser maior e até a gravidade da doença", alertou, ontem, Graça Freitas.

Contactada pelo DN, Raquel Guiomar, virologista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), explicou que o número de casos identificados em Portugal - onde a atividade gripal ainda é baixa - não permite aferir qual será o dominante, mas o panorama internacional indica que deverá ser o A(H3). "Tanto na Europa, como nos EUA e no Canadá, tem havido uma co-circulação do Influenza A(H3) e B", adiantou, destacando que o primeiro tem sido registado em cerca de 70% dos casos. "Pensamos que será um dos que poderá circular este ano". Historicamente, prossegue, quando é este o dominante "a taxa de incidência é mais elevada e em alguns invernos há um aumento da mortalidade".

Apelando à vacinação - sobretudo aos grupos prioritários, como idosos e doentes crónicos -, Graça Freitas lembrou, ontem, que "a vacina é feita de vírus inativados e não tem potencial de infetar", considerando "um mito" que se contraia gripe por levar a vacina. Desde outubro, foram administradas 1,2 milhões de vacinas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), o que representa mais 19% face ao mesmo período do ano passado. Restam ainda 300 mil doses disponíveis, além das 600 mil à venda nas farmácias. Pela primeira vez, este ano, a vacina passou também a ser gratuita para pessoas com diabetes e bombeiros que tenham recomendação para a mesma.

Fraca adequação ao frio

Rui Nogueira diz que "a gripe ganhou uma dimensão maior do que tinha antigamente ", pois "existem cada vez mais idosos e mais doentes", sendo estes os grupos mais vulneráveis. E há, em Portugal, um outro "grande problema": "Os portugueses não estão habituados ao frio". "Como temos dez meses de calor, de um momento para o outro aparece frio - em dezembro e janeiro - e não temos as casas preparadas, roupa e calçado adequados, não existe o cuidado de evitar o frio", lamentou o médico de clínica geral. A "primeira grande medida", frisou, é "evitar apanhar frio". Caso não seja possível, a pessoa "deve tentar aquecer-se logo de seguida, com roupa e ambiente quentes".

O presidente da APMGF lembrou que há uma "ligação direta" entre a gripe e o frio. "Quando temos seis ou sete dias seguidos de frio surge um surto de gripe", afirmou, acrescentando que "a chuva não é tão grave porque as pessoas evitam molhar-se", o que não acontece em relação ao frio. Já o problema das diferenças de temperatura, explicou, "é um mito". "Não fazem mal. Se a pessoa apanhou frio, deve ir para um sítio que está quente. Os vírus gostam de estar onde está frio", esclareceu, adiantando que mantém o consultório a 22 graus.

Um outro cuidado importante, destacou, diz respeito às pessoas que foram infetadas pelo vírus: "Devem ficar em casa". E o cumprimento "não é razoável nessa altura", já que "o vírus se transmite com muita facilidade". Nem sequer o aperto de mão, pois muitas pessoas protegem o espirro e a tosse com a mão e não com o braço, como é recomendado. Como "medida de prevenção primordial, Rui Nogueira considera que "devia haver uma diminuição do IVA nos aquecedores".

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