Golfinhos preferem o Sado por ser rico em vida marinha

São animais que comem muito e encontram nas águas do estuário um dos mais ricos habitats. A comunidade está a crescer

Raquel Gaspar, a bióloga que há largos anos estuda a comunidade de golfinhos residente no estuário do Sado, tem a resposta na ponta da língua quando é questionada sobre o que leva a população de roazes-corvineiros a permanecer e procriar nestas águas. "Simples. É o estuário mais rico em vida marinha de Portugal, como mostram os estudos científicos. São animais que comem muito e que aqui encontram o que precisam", refere, admitindo que a comunidade já por ali habita há muito tempo. "Talvez desde a passagem dos romanos por Troia", admite a especialista.

Já este verão a descendência voltou a ser reforçada, com o nascimento de duas novas crias - em agosto e outubro -, aumentando para 29 (sete crias, quatro juvenis, 18 adultos) o número de golfinhos no estuário, permitindo inverter ligeiramente a tendência de declínio registada entre as décadas de 80 e 90 como consequência da elevada mortalidade infantil.

"Há dois grandes habitats para eles", insiste a bióloga, reportando-se aos recifes rochosos, que funcionam como zona de berçário e às pradarias marinhas que percorrem o estuário. "Já subiram o rio até Alcácer do Sal na década de 60, mas a poluição afastou-os de lá e passaram a ficar por Troia e Setúbal", recorda.

Os primeiros estudos da população de roazes-corvineiros do Sado datam do início dos anos 80. Nessa altura contaram-se perto de 40 golfinhos, mas enquanto nos anos 90 o número de roazes manteve uma média de 30 indivíduos, em 2005 a população ficou reduzida a apenas 22.

Os mesmos estudos permitem concluir que o aumento de exemplares verificado desde 2010 poderá estar relacionado com o facto de se ter deixado de registar a emigração de alguns animais desta população, a par do sucesso reprodutor deste grupo. Os especialistas admitem duas hipóteses: Ou o habitat menos poluído está a ser determinante ou a população recuperou da patologia que afetava a pele das crias, entre os anos 80 e 90, provocando extensas feridas e a morte dos animais.

A taxa de sobrevivência das crias passou a superar os 80%. Isto é, entre 1998 e 2005 nasceram 14 crias e apenas três ficaram na população. Entre 2010 e 2016 nasceram dez e nove sobreviveram, tendo morrido apenas Sapal, nascido em 2013.

Mas seria a morte de um dos mais antigos exemplares da população que mais marcou os amantes dos golfinhos. O célebre Asa, o mesmo que nos anos 90 voou no helicóptero da Força Aérea sobre Setúbal numa operação de salvamento após ter dado à costa, morreu em agosto de 2015 com mais de 40 anos. A esperança média de vida cifra-se nos 50.

E este aumento de população começa a ser motivo para celebrar? Raquel Gaspar diz que não. "Numa comunidade tão pequena há sempre o risco de um problema epidémico afetar as fêmeas retirando logo uma fatia da reprodução para os próximos anos", sublinha, alertando para a necessidade de se melhorar o habitat num combate contra a poluição.

Trabalho a fazer

E ainda há trabalho a fazer, na opinião do presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira. "O estuário tem sempre águas com alguma poluição, mas há atividades ligadas ao Sado que é difícil de ultrapassar", sublinha, aludindo à indústria nas margens do rio e aos nutrientes utilizados na agricultura que vão desaguar ao rio.

"Há estações de tratamento ainda por fazer na região", avisa o ambientalista, reforçando que a comunidade de golfinhos é "muito sensível", admitindo que do ponto de vista científico não tem sido fácil identificar as causas de morte de alguns exemplares. "Quando algum morre é preciso analisar os órgãos quase na hora, mas isso nem sempre é viável", diz, numa altura em que têm diminuído os receios em torno de eventuais problemas relacionados com a consanguinidade.

"Temos a prova de que a população não é fechada e que os golfinhos acasalam lá fora", sustenta Raquel Gaspar, tendo o exemplo mais mediático partido de Mr. Hook, a fêmea, mãe do golfinho Vitória, protagonista de um acontecimento invulgar nesta comunidade, quando em novembro de 2010 regressou ao Sado, após ter desaparecido durante um ano, trazendo a cria consigo. Vitória terá sido o resultado de um cruzamento com um golfinho costeiro.

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