Gelo polar derreteu (muito) mais cedo e navio atravessou o Ártico

Especialistas garantem que este é um cenário sem precedentes e que faz parte de um ciclo de aquecimento global que provavelmente desempenhou um papel nas recentes e fortes tempestades de gelo na Europa e nos EUA

O mundo parece estar o contrário e a culpa é do aquecimento global. A Europa tem registado temperaturas extremamente frias e no Ártico as temperaturas anormalmente quentes resultaram num recuo antecipado do gelo para esta altura do ano. Foi a primeira vez um navio comercial atravessou a rota do norte do oceano Ártico no inverno. A travessia foi realizada em pleno fevereiro e sem a ajuda de uma embarcação quebra-gelo.

A notícia, divulgada pelo jornal The Guardian, refere que este é um marco na abertura do litoral norte da Rússia, pois o descongelamento do gelo no Ártico torna cada vez mais viável o desenvolvimento industrial e o comércio marítimo.

O navio Eduard Toll, da empresa norueguesa Teekay, partiu da Coreia do Sul em dezembro com destino ao terminal Sabetta, no norte da Rússia. A viagem foi completada o mês passado. O navio trazia um carregamento de gás natural liquefeito (GNL) para Montoir, em França. A viagem inédita foi filmada pela tripulação.

O gelo marinho do Ártico está a diminuir cada vez mais à medida que as temperaturas globais aumentam. Em janeiro de 2018, a extensão do gelo atingiu outra baixa recorde para o mês, de acordo com o norte-americano National Snow and Ice Data Center.

Embora as condições polares permaneçam difíceis, a tendência do degelo antecipado cria oportunidades de mercado. A rota do mar do Norte é mais curta do que as alternativas, como o Canal de Suez (Egito), para muitas ligações comerciais entre a Europa e a Ásia.

As notícias são consideradas preocupantes pelos cientistas que observam atentamente os efeitos das mudanças climáticas. O inverno já terminou no Ártico e foi o mais quente de sempre desde que há registos. O degelo do mar atingiu recordes para a época do ano. "É algo completamente louco", disse Mark Serreze, diretor do National Snow and Ice Data Center, que estuda o Ártico desde 1982. "Estas ondas de calor - nunca vi nada assim", disse o cientista ao The Guardian.

Os especialistas garantem que este é um cenário sem precedentes e que faz parte de um ciclo de aquecimento global que provavelmente desempenhou um papel nas recentes e fortes tempestades de gelo na Europa e no nordeste dos EUA.

A estação meteorológica terrestre mais próxima do Polo Norte, na ponta da Gronelândia, passou mais de 60 horas acima do ponto de congelamento em fevereiro. Antes deste ano, os cientistas tinham visto a temperatura subir acima do congelamento em fevereiro apenas duas vezes e, ainda assim, durante muito pouco tempo. As temperaturas recorde do mês passado estão mais perto das normalmente registadas em maio, explicou Ruth Mottram, cientista climática do Danish Meteorological Institute.

De quase três dúzias de estações meteorológicas árticas diferentes, 15 delas estavam cinco, seis graus centígrados acima do normal para o inverno.

Em fevereiro, o gelo do Ártico atingiu 5,4 milhões de quilómetros quadrados, cerca de 62 mil quilómetros quadrados menos do que o recorde mínimo do ano anterior e menos 521,000 milhas quadradas abaixo do normal, em 30 anos.

O relatório anual da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), anunciara que o solo gelado (permafrost) do Ártico estava a descongelar cada vez mais rápido e que a água do mar também continuava a aquecer.

Segundo o documento, o gelo marinho estava a derreter ao ritmo mais rápido registado em 1500 anos. "O ano de 2017 continuou a mostrar-nos que estamos nessa tendência de aprofundamento. O Ártico é atualmente um lugar muito diferente do que era há uma década", disse Jeremy Mathis, diretor do programa de pesquisa Arctic da NOAA e coautor do relatório, de 93 páginas.

"O que acontece no Ártico não fica no Ártico, afeta o resto do planeta", disse o chefe da NOAA, Timothy Gallaudet, sublinhando que "o Ártico tem uma enorme influência no mundo em geral".

O permafrost é um tipo de solo encontrado no Ártico, composto por terra, rochas e gelo permanentemente congelados. Relatórios preliminares de 2017 dos Estados Unidos e do Canadá mostram que as temperaturas do permafrost são "novamente as mais quentes para todos os lugares" medidas na América do Norte, disse o coautor do estudo, Vladimir Romanovsky, professor da Universidade do Alasca em Fairbanks.

Os níveis máximos de inverno do gelo ártico em 2017 foram os menores num período em que o gelo, normalmente, se restabelece. Foi o terceiro ano consecutivo de lenta recuperação de gelo marinho no inverno, sendo que os registos remontam a 1979.

Cerca de 79% do gelo do Ártico diminuiu em apenas um ano. Em 1985, 45% do gelo do Ártico era grosso, mais antigo, disse a cientista Emily Osborne, da NOAA.

Uma nova investigação que examina os últimos núcleos de gelo do Ártico, usando fósseis, corais e conchas como suporte para medidas de temperatura, mostra que as temperaturas do oceano no Ártico estão a aumentar e os níveis de gelo do mar estão a cair a taxas não vistas nos 1.500 anos.

Essas mudanças dramáticas coincidem com o grande aumento nos níveis de dióxido de carbono no ar devido à queima de petróleo, gás e carvão, segundo o relatório.

"O Ártico tradicionalmente é considerado o frigorífico do planeta, mas a porta do frigorífico ficou aberta", disse Mathis. "No geral, os novos dados encaixam-se nas tendências de longo prazo, mostrando evidências claras que o aquecimento está a causar grandes mudanças", no Ártico, disse o cientista da Universidade da Pensilvânia, Richard Alley.

Com Lusa

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