Galopim de Carvalho. Uma aula, uma homenagem, e mais outra

Antigos alunos organizaram cerimónia surpresa na Faculdade de Ciências. Quinta-feira há nova homenagem no Museu de História Natural e Câmara de Lisboa associa-se

Tinham-lhe pedido que fizesse uma conferência na Faculdade de Ciências, a sua casa de sempre, e Galopim de Carvalho preparou-se para falar de um dos seus temas de de eleição, a geodinâmica externa, ou seja, a forma como os processos da erosão esculpem as rochas e moldam as paisagens. Só não estava preparado para a surpresa que o esperava no anfiteatro principal do edifício C3. A aula, afinal, era uma homenagem organizada pelos seus antigos alunos - várias gerações deles. Ele, claro, deu a aula. E comoveu-se.

"No outro dia desconfiei, porque vi qualquer coisa no Facebook, mas quando perguntei aos meus filhos, eles não me adiantaram nada, embora soubessem", conta o geólogo e antigo professor da Faculdade de Ciências, que foi também durante muitos anos o rosto do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa.

"Quando hoje [ontem] cheguei aqui e me deparei com este espetáculo, confesso que fiquei emocionado", admite. "Sabe bem receber estes reconhecimentos em vida, fiquei muito feliz."

À beira dos 85 anos - fá-los em agosto -, Galopim de Carvalho mantém-se ativo e atento, continua a escrever e a dedicar-se à geologia, e o pedido para a aula de ontem nem era fora do comum. "Já tenho dado outras aulas, e esta era mais uma", lembra.

Afinal, não era só mais uma, e os seus antigos alunos certificaram-se disso. "Lembrámo-nos há um ano, numa conversa entre nós, e decidimos fazer a homenagem", explica Francisco Fatela, do departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), um dos organizadores da cerimónia. "Era a altura certa, o professor faz 85 anos e passam também 55 desde que ele começou a dar aulas aqui. Para o termos connosco pedimos-lhe que fizesse uma conferência e marcou-se a data na agenda. Ele também o fez", conta Francisco Fatela, a sorrir.

A aula, 55 anos depois de Galopim de Carvalho ter iniciado a sua carreira docente na FCUL, foi uma lição sobre como tudo na Terra está intimamente ligado à energia do Sol, de como ela influencia o planeta, a sua atmosfera e as suas paisagens, e de como este consegue armazenar essa energia sob as formas mais variadas. Exemplos? A energia do Sol aquece de forma diferenciada a atmosfera terrestre - menos nos polos, mais no equador -, e isso gera a sua dinâmica, que por sua vez causa o vento e a chuva, os furacões e as tempestades. E estas, ao longo de milhões de anos, moldaram a crosta terrestre, as suas rochas e paisagens.

E depois há as plantas, que graças à fotossíntese vão buscar a energia ao Sol, e há os animais, que as comem. "A erva é um armazém de energia solar, o borrego come-a e depois nós comemos o ensopado. Tudo energia solar", disse Galopim de Carvalho, arrancando gargalhadas à plateia. "Isto, claro, para além da beleza que é podermos ver o pôr e o nascer do Sol".

Medalha da cidade de Lisboa

"Preparei uma aula muito simples", avisou, logo no começo. A ideia era essa, até porque o tema da geodinâmica externa, a sua área de trabalho por excelência, tem essa simplicidade. "Tenho feito muita investigação nesta área e a geomorfologia é isto, não tem o elitismo científico nem a complexidade de uma aula de mineralogia estrutural ou de cálculo tensorial", adianta. "Não sendo geógrafo, tive como grande mentor o professor Orlando Ribeiro, um geógrafo que falava de geografia com conhecimentos profundos de geologia e, com ele, aprendi muito sobre a sensibilidade para com o mundo rural, a cidade e todos esses aspetos da geografia humana em que ele era um grande especialista".

Quanto a Galopim de Carvalho sempre teve também uma relação especial com o campo, que se tornou o seu local de trabalho. A escolha da geodinâmica externa para tema da conferência foi uma espécie de dois em um, para relacionar tudo, e manter a simplicidade.

"As rochas sedimentares são o produto da acumulação do lixo que a terra deixa. A erosão faz lixo e as rochas sedimentares são esse lixo devidamente acumulado e estratificado. Esta relação entre a erosão, a alteração das rochas, o transporte e a sedimentação foi sempre a minha área."

E se a cerimónia o deixou feliz, Galopim de Carvalho terá de se preparar já para outra esta semana, na quinta-feira, pelas 18.30, desta vez no Museu Nacional de História Natural: a sua outra casa. Ali vai receber das mãos do presidente da câmara de Lisboa, Fernando Medina, a Medalha Municipal de Mérito Científico. Soube-o ontem, e diz-se "preparado e muito feliz".

Galopim de Carvalho não esquece os alunos, ao todo mais de 11 ou 12 mil, com quem teve "uma belíssima relação", mas confessa que o seu legado "mais importante foi o de ter falado para fora da universidade". Não é o único que pensa assim e, daí, a homenagem no museu.

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