Galiza aposta na prevenção e quer envolver os portugueses

Na Galiza, a aposta para 2018 é a prevenção e vigilância da floresta para que não se repita o cenário de outubro passado. Há problemas comuns a Portugal, como limpeza da floresta, antecipada um mês, e dificuldade em notificar os proprietários em áreas mais desertificadas. Nos meios de combate, profissionais, é diferente: já estão operacionais. Há vontade de cooperar mais com Portugal, com municípios e instituições dos dois países, para prevenir fogos e valorizar a floresta

Oimbra é um dos municípios galegos que faz fronteira com Portugal, no Alto Tâmega, e é habitualmente afetado pelos incêndios, com a destruição de dois mil hectares de floresta nos últimos dois anos. "Há anos, como foi em 2017, que são os galegos a dizer que o fogo veio de Portugal. Noutros, os portugueses dizem que chegou da Galiza", diz Ana Maria Villarino Pardo, autarca de um concelho envelhecido, com uma média de idades de 52 anos e uma área de 72 km2. A declaração é como um pedido de diálogo e cooperação. As chamas na floresta são um problema que afeta de igual forma as duas regiões ibéricas e, por isso, a alcaidesa avançou com um projeto para um plano conjunto de cooperação florestal que irá juntar cinco concelhos da província galega de Ourense e dois portugueses, Chaves e Montalegre, além de universidades e organismos públicos dos dois países.

"Temos os mesmos problemas e não sabemos nada uns dos outros. Acabamos a gastar muito dinheiro com as extinções. Não sabemos que meios existem de cada lado, não conhecemos as pessoas, a quem pertencem os terrenos. Vivemos muito de costas voltadas e isso não é bom para a gestão do território", explica Ana Villarino Pardo, que foi uma das oito autarcas ouvidas no Parlamento da Galiza no âmbito da comissão que foi criada para analisar os incêndios de 15 de outubro passado, em que morreram quatro pessoas e arderam mais de 60 mil hectares, com a província de Ourense a ter a maior área ardida.

Inovador a nível ibérico, este projeto de cooperação, chamado Raiasecus, foi entregue à Comissão Europeia para obter financiamento de dois milhões de euros. "Se não houver esse financiamento, fica mais difícil, mas creio que as duas regiões deviam pensar em avançar na mesma. É necessário", considera a presidente da autarquia, eleita pelo PP em 2015 e que sucedeu ao pai no cargo. O projeto ficará com a coordenação da Deputacion de Ourense, o organismo provincial. De Portugal entram no projeto a eurocidade Chaves-Verín, a Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega, a Secretaria Regional da Agricultura e Pescas do Norte de Portugal, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Da Galiza, a Direção-Geral de Florestas , o Instituto Galego de Qualidade Alimentar e as duas universidades, Compostela e Vigo. Se este plano avançar, e da parte de Chaves e Montalegre a "recetividade foi total", os principais resultados que se esperam são a redução da ocorrência de incêndios nos dois lados da fronteira, a melhoria da situação florestal do território, o desenvolvimento de produtos de qualidade associados à agricultura, assim como a implementação de trilhas multifuncionais com uma vertente turística.

Limpeza antecipada um mês

Este é um dos passos dados na Galiza para melhorar a floresta e evitar incêndios. Tal como em Portugal houve necessidade de repensar a política de prevenção de incêndios. A limpeza dos terrenos é um dos principais temas, mas de forma menos polémica. No edifício do Concello de Oimbra está o edital, com data de 22 de março, a alertar para a obrigatoriedade de limpeza dos terrenos florestais, com os mesmos 50 metros de distância em relação às habitações como em Portugal. A grande diferença é a antecipação em um mês. "Era até junho e neste ano a data-limite é 31 de maio", esclarece Ana Villarino Pardo, revelando que após esta data os proprietários são notificados. "Primeiro são contactados pessoalmente ou por telefone. As multas só avançam se o proprietário nada fizer mesmo depois de contactado." A sanção pode ir até três mil euros.

Quilómetros à frente, em Villamaior, em Verín, no meio da mata está Isaac Chamin, junto ao seu pequeno armazém, com uma zona mais limpa mas próximo da floresta de pinheiros e vegetação. "A limpeza é necessária junto a casas", admite, mas, e aponta para o outro lado da via para a enorme mancha florestal, questiona: "Ali no meio, o que se pode fazer? A floresta é isto, árvores e vegetação. Como se limpa?" Ri-se quando fala da polémica da limpeza em Portugal. "Aqui ouve-se que ameaçam aplicar multas milionárias aos proprietários. Não percebo isso. Se uma propriedade não é rentável, como podem obrigar um dono de terreno a gastar milhares de euros? Limpar uma floresta no monte é igual, se houver um incêndio arde tudo na mesma", diz o galego, junto a uma área de Verín onde ocorreu um dos maiores incêndios desta zona em 2017. "O fogo veio de sul, passou a autoestrada e chegou a ameaçar uma aldeia aqui perto", aponta, convicto, tal como a maioria das pessoas ouvidas pelo DN na província de Ourense, que se trata de fogo posto, criminoso. Com que objetivos? "Pois, essa é a pergunta para um milhão de dólares. Negócios de madeiras... não me parece nesta zona. Fala-se dos meios aéreos e dos interesses em haver incêndios, mas não sei. Agora, todos sabemos é que não começam por acaso. Deve haver muitos pirómanos."

Houve quem, entre os políticos do governo galego, falasse em terrorismo, mas as conclusões da Fsicalia (Ministério Público espanhol) foram apresentadas há duas semanas e não confirmaram este cenário como a causa de fogos florestais.

Helicóptero ativo desde março

O grande incêndio de que fala Isaac rodeou a pequena aldeia de Queroguás, onde existem algumas, poucas, dezenas de habitações, e escassa população, apesar de estar a poucos quilómetros da cidade Verín, a principal nesta região fronteiriça. Com sorte, nenhuma habitação foi atingida, ao contrário de outras localidades galegas onde os incêndios do outono destruíram casas e edifícios agrícolas. Se houve maior área em Ourense, foi na província de Pontevedra, que integra Vigo, que houve mais danos materiais e mortes. A zona fronteiriça, e localidades como As Neves, foi muita atingida, devido ao grande incêndio que se desenrolou em Monção e galgou o rio Minho. Foi um ano quase catastrófico, tendo em conta os progressos feitos desde a década de 1990 na Galiza, em que a prevenção e o combate têm sido mais estudados, com o importante contributo do Centro de Investigação Florestal de Lourizan, em Pontevedra, um organismo da Xunta Regional.

Em Queroguás, o fogo chegou quase sem aviso. "Via-se ali ao fundo nos montes a arder e de repente estava aqui perto, mesmo junto às casas", conta Ana, uma habitante da aldeia, onde vive há mais de seis décadas. "Há sempre incêndios, mas este ano foi pior. Chegou a arder junto ao Santuário da Senhora dos Remédios."

Numa zona isolada rodeada de montes e floresta, as chamas chegaram à vegetação que rodeia o santuário. Poucos metros à frente, em Villamaior, existe o centro de combate a incêndios criado em 2006 pela Xunta, com uma base para helicópteros. Desde o dia 1 de março - e até novembro há sempre uma equipa - que ali está instalada uma brigada de bombeiros, profissionais como todos os da Galiza, com viaturas e um helicóptero. "Está aqui nesta base um período e depois irá para outra. Mas daqui o helicóptero pode ir a qualquer zona da Galiza", diz Javier, o chefe da brigada, ironizando depois que "só não pode ir a Portugal", apesar de, como diz, "muitas vezes vê-se o fumo de Portugal mas não podemos fazer nada", numa ideia que parece ir ao encontro do projeto proposto pela autarca de Oimbra. "O lume não conhece fronteiras. Há anos que se fala nisso mas não há ligação com os portugueses", diz o profissional com 30 anos de experiência. Analisa que "hoje há menos incêndios, mas são de maiores dimensões". A época alta é entre julho e setembro, altura em que o centro é reforçado com mais brigadas.

O Plano de Prevenção e Defesa contra os Incêndios Florestais de Galiza prevê que estejam disponíveis 30 meios aéreos, entre os contratados pela Xunta, como o helicóptero de Villamaior, e os do Estado espanhol. Como em Portugal, a contratação de meios privados gera discussão, mas está longe de ser o principal investimento deste plano. No total, a Galiza prevê gastar 192 milhões de euros. No terreno estarão mais 5700 operacionais a trabalhar na prevenção, vigilância e deteção de fogos. A estes juntam-se mais 1300 do Estado central, incluindo do Exército. Haverá ainda 34 câmaras de videovigilância, uma das apostas inovadoras galegas das últimas décadas. Neste ano há também uma diferença em relação ao ano anterior com o prolongamento da época de fogos por mais um mês, até outubro, após a contestação ocorrida em 2017, com manifestações após a calamidade dos fogos que chegaram a ameaçar Vigo e causaram quatro mortes e muitos prejuízos.

Os municípios participam neste plano de prevenção e também reclamam por mais verbas, seja para a limpeza de terrenos seja para o recrutamento de pessoal de vigilância. No caso da autarquia de Oimbra, Ana Villarino Pardo explica que em junho terão duas brigadas municipais de dez homens, pagas a meias com a Xunta. "Se detetam um fogo, são a primeira equipa de extinção. Quando não há lume, fazem prevenção, limpeza e vigilância. Recebem formação especializada", explica. Em Portugal o equivalente são os sapadores florestais. Em caso de incêndio em Oimbra, os bombeiros chegam de Verín, onde se encontram 14 dos meios profissionais, e o centro de Villamaior.

A dificuldade do cadastro

Se o governo português avançou com medidas para um cadastro de terras devido à dificuldade em notificar proprietários, na Galiza o problema existe e acentuou-se nos anos mais recentes. Muitas das localidades atingidas pelos fogos estão em processo de desertificação. "Para a limpeza, o nosso maior problema é não encontrar os proprietários de muitos terrenos", admite Ana Villarino Pardo. "Muitos descendentes foram para Vigo ou para Madrid e nem sabem das propriedades. Perdemos muita população, e as terras ficam abandonadas. O nosso concelho vive da vinha e da horticultura e por isso é importante ter um plano para o território, para que as terras sejam produtivas e se consiga atrair população."

Ler mais

Exclusivos