Furacões mais lentos... e mais perigosos

Estudo publicado na Nature mostra que as tempestades tropicais estão a mover-se em média 10% mais devagar desde meados do século XX. Isso traz mais precipitação localizada e aumenta o risco de inundações

Os furacões - e também os tufões, do outro lado do mundo - estão em média 10% mais lentos em relação há 70 anos. Trocado por miúdos, passa-se assim: depois de se formarem sobre os oceanos, a progressão destas tempestades através da atmosfera, e frequentemente sobre regiões densamente habitadas nos vários continentes, está a acontecer mais devagar. Isto significa que a quantidade de chuva que desaba sobre uma determinada zona tem estado a crescer, aumentando significativamente o risco de desastres naturais, como inundações ou deslizamentos de terras.

A descoberta é publicada hoje na revista Nature, pelo investigador James Kossin do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, que olhou para os dados dos últimos 68 anos das tempestades tropicais ocorridas no mundo, entre 1949 e 2016, e acabou por identificar este padrão até agora oculto.

"Este abrandamento global em 10% [da velocidade a que furacões e tufões se deslocam] ocorreu ao longo de um período em que o planeta sofreu um aumento de temperatura de 0,5 graus Celsius", explica o investigador, sublinhando que "são necessários mais estudos para determinar quanto abrandamento mais vai ainda ocorrer, com a continuação do aumento da temperatura [da atmosfera da Terra]".

Na prática, nota o investigador, este mecanismo "poderá ser mais determinante para a quantidade de precipitação que vai ocorrer no futuro, numa determinada região, do que o simples aumento da temperatura global" do planeta.

Seja como for, esta é mais uma parcela a ter em conta na equação das alterações climáticas. Os modelos mostram que, com o aumento de mais 1 grau (em relação à era pré-industrial), a humidade na atmosfera da Terra terá um acréscimo de 7%, o que implica mais precipitação de qualquer maneira. O efeito dos dois mecanismos somados pode implicar que algumas regiões do planeta tenham, num futuro próximo, cerca do dobro da precipitação média que agora têm.

Assimetrias regionais

As contas de James Kossin mostram este abrandamento global de 10% na velocidade de furacões e tufões, mas olhando mais de perto, como ele fez, verificam-se assimetrias regionais importantes nesta tendência. Por exemplo, no Pacífico Noroeste, que abrange regiões da China e do Japão, esse abrandamento foi maior ainda, da ordem dos 20%, seguindo-se a Austrália, com um valor de 15%. Noutras bacias oceânicas, como a do Atlântico Norte, o valor foi menor, de 6%, e no Pacífico Nordeste atingiu os 4%, que é também o valor para o Índico.

Para ciclones e tempestades tropicais, que são menos intensos, estes valores (de abrandamento) são ainda mais altos. Como nota o autor do estudo, "os ciclones tropicais, que têm um grande impacto sobre a sociedade humana, abrandaram 20% na região do Atlântico, 30% no noroeste do Pacífico e 19% na Austrália, e estes valores estão, com certeza a aumentar, os totais da precipitação local e, consequentemente, as inundações, que estão sempre associadas a um alto risco de mortalidade".

O furação Harvey que em 2017 se "sentou" durante cinco dias inteiros sobre o estado do Texas, nos Estados Unidos, despejando um dilúvio torrencial sobre o seu território, que causou 89 mortes, obrigou ao resgate de milhares de pessoas e deixou 200 mil habitações destruídas, é um bom exemplo do que pode significar este abrandamento da velocidade a que estas tempestades se deslocam, garante James Kossin.

Resta agora perceber exatamente o que está por detrás destes furacões cada vez mais vagarosos. Num mundo mais quente, como o nosso está a ficar, os modelos antecipam um enfraquecimento da circulação atmosférica, o mecanismo que imprime velocidade a estas tempestades, mas isso ainda precisa de ser estudado.

Certo é que o trabalho de Kossin "abre a porta a uma nova compreensão" de todos estes processos, diz a climatologista Christina Marie Patricola, num artigo sobre esta descoberta,que é publicado na mesma edição da Nature. Os novos dados, sublinha a especialista, "levantam questões que os cientistas podem a partir de agora abordar, combinando dados observacionais com modelação computacional", para melhor entender esta dinâmica.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.