Francisco volta a Roma e o Santuário retoma a sua rotina

Os peregrinos começaram a deixar o recinto onde durante algumas horas mostraram a sua fé nos 100 anos das Aparições. Agora já não rezam, nem cantam. Só querem chegar rapidamente a casa

13.00 do dia 13 de maio. Assim que a cerimónia termina e que o silêncio se instala nos altifalantes do Santuário de Fátima, os peregrinos começam a abandonar o local. Pegam nos seus bancos desmontáveis, nas suas mochilas e nos sacos-cama e caminham em passo acelerado, agora já não a cantar, agora já não a caminho da oração, mas a caminho dos autocarros que os hão de levar em direção a um banho quente e a uma cama confortável. "É aquele momento em que a alegria dá lugar ao cansaço. Cai a ficha", comenta Catarina, peregrina que veio de Lisboa, sentada num muro, enquanto espera pelo grupo de amigos. "Valeu a pena, claro, mas o cansaço é muito."

O porta-voz do Vaticano calcula que ontem estiveram no Santuário cerca de 500 mil peregrinos. Mas, em meia hora, o recinto principal do santuário fica quase esvaziado. Já não há controlos nas portas nem polícias a pedirem para espreitar as mochilas. Só vias abertas e seguranças com coletes refletores a indicarem os melhores caminhos para a saída.

No meio do recinto, rodeadas por garrafas de água vazias e papéis amachucados, Ana Pereira, Delfina Rosa e Fernanda Freitas acabam de almoçar. Comem gelatinas e iogurtes, deixam no tupperware os restos do coelho estufado e das bolinhas de bacalhau. Elas não têm pressa. O autocarro que as trouxe de Guimarães só vai voltar pelas 18.00. Aproveitam para esticar as pernas e descalçar os sapatos depois de quase 24 horas sem se mexerem. Dormiram ali, sentadinhas nos seus bancos. Ou não dormiram, que é o mais correto. "Eu não preguei olho", diz Ana Pereira. "Ficámos a rezar, a conversar e a rir", acrescenta Fernanda. "Não custou assim tanto." As dores deram tréguas. "Uma pessoa quando está aqui parece que até fica mais nova." De manhã quase que não as deixavam sair para ir à casa de banho: "Quando demos por nós isto estava tudo cheio de gente, saímos e já não queriam deixar-nos entrar", conta Ana. "Mas já está." Para o ano há mais. Talvez ainda este ano, quem sabe. "A Fátima a gente vem quando precisa, não é só quando está o Papa."

Logo depois do fim da cerimónia, deixou de haver zonas interditas. Os peregrinos aproveitam para subir as escadas do altar principal e visitar a Basílica da Senhora do Rosário. Para tirar fotografias, agora de uma perspetiva diferente. Nas arcadas, as cadeiras onde antes se sentaram os convidados especiais vão sendo ocupadas pelos peregrinos cansados e que procuram um abrigo da chuva. Sim, às 14.15 voltou a chover no Santuário, coincidindo com a saída do Papa do local (cada um que interprete como quiser).

14.30. O Papa Francisco ainda está em Monte Real mas no Santuário de Fátima a vida regressa à normalidade. Uma guia turística traz um grupo de estrangeiros em visita ao local e explica-lhes o que acabou de acontecer ali e o que aconteceu há 100 anos. Nos ecrãs gigantes, os peregrinos assistem aos últimos atos do Papa em solo português. Indiferentes à chuva, um grupo de 80 peregrinos do Caminho Neocatecumenal de Léon, Espanha, junta-se em círculo para uma última oração e uma canção de roda, em honra de Maria, com palmas, violas e djambés. Em pouco tempo juntam-se ali algumas pessoas, num último momento de alegria antes da partida. "Maria, Maria, bendita Maria."

Na Capelinha das Aparições ainda é tempo de oração. Na via penitencial, são muitos os peregrinos que, agora que finalmente o caminho está livre, podem cumprir as suas promessas. Também para o tocheiro a fila de pessoas é longa e serpenteia por ali acima. "Estava tanta gente, era impossível. Só agora é que conseguimos, finalmente, chegar aqui", desabafa Ana Soares, do Porto, de 57 anos, que carrega um molho de oito velas. "Para os filhos e para os netos, que precisam muito de ajuda."

Ao longo da tarde, à medida que os peregrinos vão deixando o local, os poucos que ficam concentram-se nesse lado do altar. Do lado oposto, o escuteiro Paulo Santos está prestes a terminar a sua função. Nos últimos dias ocupou um lugar privilegiado, controlando as entradas e saídas da sala de imprensa e visão ampla sobre o recinto. Dirigente do agrupamento 523, desde miúdo vem a Fátima "seguramente pelo menos uma vez por ano". "Este ano foi diferente, por causa da mensagem de esperança trazida por Francisco, para todos, até mesmo para os não crentes. Essa é a grande diferença deste Papa, que fala numa linguagem universal", diz Paulo Santos.

Recomeça a chover. Mas os serviços de limpeza já estão em ação. Pelas 18.00, começam a desaparecer os montes de lixo que havia por todo o recinto. Os caixotes são recolhidos. Não tarda nada está tudo como sempre foi. Só restam as filas de cadeiras em frente do altar, mas até essas hão de desaparecer antes de anoitecer. "Amanhã é outro dia", comentava Emília Ribeira, comerciante responsável pela Casa das Regueifas. Amanhã haverá outros peregrinos. Não serão tantos quantos os de dia 13 mas, "para quem acredita, todos os dias em Fátima são importantes".

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?