Frágil mas resiliente: o bar mito do Bairro Alto volta em Junho

No 34º aniversário, o bar que marcou os anos oitenta portugueses volta a abrir. Estará à altura da sua história?

Sendo a noite lisboeta o que é Ž, milhares largos dos seus frequentadores nunca ouviram falar dele, quanto mais conhece-lo. Não sabem do espelho de talha dourada que duplicava quem vencia a porta blindada e o veludo carmim das cortinas, da hélice dourada em penhor de incontáveis naufrágios, dos bancos altos onde, rapinas, os habituais avaliavam neófitos.

Não sabem de um Bairro Alto deserto o, onde os bares e discotecas se contavam em menos dedos que os de uma mão e a noite acabava às três, prolongando-se, a péŽ, passado o jardim do Princípe Real, no Trumps, na Rua da Imprensa Nacional (e que ainda bomba). Não sabem da tasca em frente, o Arroz Doce, onde se bebiam uns copos antes, e da Dona Rosa e da irmã, que defendiam os novos clientes dos bêbados habituais e diziam atéŽ amanhã, do cumprimento sério do guardião Alfredo, impecável na sua barba e fato preto, pronto para todas as barragens e operações de salvamento (e que agora faz o mesmo no Lux, igual como só ele). Não sabem do delírio dançante à conquista de cada metro quadrado num labirinto de cumplicidades, das festas que transbordavam a rua de gente, copos e música. Não sabem da centena, se tanto, de irmãos de armas e alma que durante meia dúzia de anos quiseram ser - e foram - únicos, os únicos da noite de um bairro que havia, décadas depois, de se tornar de todos, as ruas repletas de quinta a sábado, milhares de pessoas de copo na mão, bares porta sim porta sim - e tudo o que de bom e de mau isso implica.

Alguém algum dia há de contar essa história que é já história com agá grande. Mas a partir de junho poderá ser recordada in loco: o Frágil vai reabrir, com o mesmo nome, no seu 34º aniversário, depois de ter estado fechado desde o fim de 2013. A ideia do novo proprietário, Hilário Castro, é manter o perfil de " bar-discoteca com programação cultural própria." O também presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto tem grandes esperanças para o novo Frágil: "Não diria que será o início de uma nova era do Bairro Alto, mas pode ser um exemplo de um estabelecimento de qualidade, para que os investidores olhem para esta zona como um local onde há espaço para esse tipo de negócios."

A psiquiatra Ana Matos Pires - que com o músico Rodrigo Leão e a assistente de bordo da TAP Ana Carolina Quadros Costa ficaram com o bar depois de Manuel Reis, o fundador, se ter associado aos donos do restaurante Pap"açorda (que abriu em 1981 na mesma rua do Frágil, a da Atalaia, e se passou este mês de armas, bagagens e lustres para o Mercado da Ribeira) para inaugurar, em 1998, o Lux Frágil, no Cais de Santa Apolónia - confessa a sua surpresa com a notícia de que o Frágil que ela e os sócios venderam em 2015 vai reabrir no número 126. "A notícia agrada-me, porque um dos riscos que se corria era o sítio transformar-se numa coisa desvirtuada, numa loja de trezentos ou assim. Mas o ficar contente é um desejo. Porque é muito difícil replicar o que o Bairro Alto foi nos anos 80. A atual população e dinâmica do bairro complicam. O que aconteceu com o Pap"Açorda não foi por acaso: há muita gente que não tem paciência para andar aos encontrões nas ruas, no meio daquela confusão. Aquilo afugentou muitas pessoas."

Também Margarida Martins, antiga presidente da associação Abraço, atual líder da Junta de Freguesia de Arroios e a mais carismática e duradoura porteira do Frágil se surpreende: "É muito simpático." Porteira, relações públicas e produtora de 1983 a 1991, recorda as regras de admissão, que permitiram criar "um ambiente único, agradável e com todo o tipo de pessoas", com uma boa dose de artistas, muitos jornalistas e alguns políticos, e jovens que não se sabia bem o que faziam para além de pensar no penteado (ou despenteado) e roupa para "sair à noite". As festas, temáticas, épicas, estão documentadas no site criado pela equipa do Lux Frágil. Um legado formidável que Hilário Castro se propõe recuperar com o concurso de Eddy Medina Padrón e Jorge Pereira, veteranos da noite do Bairro Alto e dinamizadores/investidores do novo Frágil, que querem "adaptado aos tempos."

O nome, que a empresa vendida com o espaço permite manter, será associado a outro, que, para já, o gerente prefere não revelar. A gestão no local, que manterá a traça arquitetónica, ficará a cabo de Alex, cubano acabado de chegar de Miami, nos EUA. Vai ser, anuncia Hilário Castro, o regresso de uma discoteca ao Bairro Alto. "Há dez, quinze anos, havia sete ou oito. Agora, não há nenhuma que mereça o nome."

Criado no lugar de uma tasca, uma padaria e uma fábrica de pão, três espaços de donos diferentes que Carlos Fonseca, o primeiro ideólogo (Manuel Reis entrou em 1980 como decorador, depois como sócio e, com a morte de Fonseca, em 1985, passou a dono), começou a comprar em 1979, o Frágil abriu a 15 de junho de 1982. Ressuscitará agora. Mas, como Ana Carolina, uma das ex donas, reconhecia nos 20 anos do espaço, em 2002, "a noite inventada aqui deixou muitas saudades. Porém quando me meti nisto nunca pensei ser possível fazê-la reviver."

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